A odisséia vivida por Roberto Farias Tomaz, 19, que desapareceu na virada do ano no pico Paraná, ponto mais alto da região sul com 1.877 metros de altitude, e conseguiu chegar sozinho a uma fazenda ferido, debilitado e a muitos quilômetros do percurso pelo qual mais de 100 bombeiros militares e cerca de 300 voluntários o procuravam, trouxe à tona um tema recorrente nos grupos de montanhistas: é justo deixar um companheiro de jornada para trás?
Como aconteceu no caso de Juliana Marins, a brasileira que morreu na queda do vulcão Rijani, na Indonésia, no final de junho passado, as redes sociais ferveram quando uma emissora de televisão transmitiu —ao vivo— uma entrevista com Thayane Smith, 19, que havia subido o Paraná com Roberto e o deixado para trás sozinho na difícil descida do cume (descer é sempre mais difícil, lembram?). Segundo declarou candidamente ao repórter, juntou-se a um grupo de corredores porque o ritmo deles tinha mais a ver com o seu “estilo de vida”, seja ele o que for.
Depois de várias versões inconsequentes dadas pela moça, a internet não perdeu tempo para crucificá-la. Com uma boa dose de razão, vá lá. Mas também em um diapasão histérico que cega o raciocínio lógico e o que está por trás de todo esse problema: a ilusão alimentada nas plataformas de que basta querer para chegar lá, onde quer que lá seja. A informação capenga que deleta o que não sai bem na foto engorda as estatísticas trágicas.
O mantra reza que montanha não perdoa erro. Cá e lá, deixa um incauto com um anjo da guarda mais atento se sair bem de uma sequência de falhas. Roberto teve sorte, muita sorte, ao arriscar saltar do alto de uma cachoeira de aproximadamente 30 metros e bater na água perdendo os óculos e um coturno. Saiu barato. O ponto onde as quedas d’água batem no fundo costuma ser cheio de grandes pedras, perigosamente quebradas ao longo dos séculos. Alguns centímetros para um lado ou outro teriam significado, no mínimo, graves fraturas que ameaçariam a vida num lugar tão remoto.
Mas, e Thayane? Bom, para começar, o pico Paraná não é exatamente a zona da morte do Everest, onde corpos são deixados pelo caminho porque o resgate representa risco altíssimo para as vidas dos que o tentarem. O relato da moça sobre Roberto ter passado mal já na subida, e estar lento na descida, e considerando que por eles cruzaram vários outros visitantes, deixa claro que o ideal e mais ético seria o casal ter pedido aos outros que avisassem das dificuldades a gestão do parque, a qual poderia encaminhar auxílio para a descida em segurança dos dois. Juntos.
Quanto tempo teria levado o socorro? Horas, provavelmente. Horas que passariam sem que os dois tivessem abrigo ou alimento, molhados de chuva e expostos aos ventos, horas incômodas que poriam à prova a paciência de ambos, ingrediente sabidamente escasso entre adolescentes. Resultado foi Thayane chegar à base e Roberto se enfiar por uma variante de trilha que o meteu na fria da qual sairia quatro dias depois, por falta de observação das faixas de sinalização (precária para iniciantes, que fique claro) do caminho certo.
Porque se Thayane errou —e errou muito— ao abandonar o colega fragilizado, Roberto também ignorou a regra básica de ficar no lugar em que se separaram, acreditando que teria forças para voltar sozinho à segurança do acampamento, “é só ir devagarinho” deve ter pensado. Precisou arrumar forças foi para fazer o mais difícil.
Mas erraram, também, os dois, ao irem para um cume de difícil acesso sem um guia ou alguém experiente nesse caminho e o mínimo equipamento de segurança, como um apito, uma mantinha térmica, umas barrinhas de cereais e os celulares que, em algum ponto, teriam sinal ou poderiam ser rastreados, e nos quais poderiam ter baixado mapas da trilha acessíveis off line, eventualmente até impressos para fugir do aparelho descarregado. Tudo isso pesa quase nada e pode salvar vidas. Mas, claro, isso os posts no Instagram não contam.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.





