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Plano de prevenção ao HIV de Trump exclui África do Sul – 19/11/2025 – Equilíbrio e Saúde

Em meio a cortes acentuados na assistência externa dos EUA, o governo Trump está promovendo um novo plano para fornecer um poderoso medicamento de prevenção ao HIV aos países mais afetados pela doença, em um esforço ambicioso para acabar com a propagação do vírus que causa a Aids.

Mas o programa, que viu as primeiras doses doadas de lenacapavir entregues a Eswatini e Zâmbia na semana passada, já está enfrentando críticas de grupos de defesa de pacientes porque o governo Trump se recusa a fornecer gratuitamente o medicamento antirretroviral vital para a África do Sul, o país com a maior população HIV-positiva do mundo. Os críticos dizem que a medida parece ter motivação política.

“Os Estados Unidos não contribuirão com doses para a África do Sul”, diz Jeremy Lewin, um alto funcionário do Departamento de Estado dos EUA, a repórteres na segunda-feira, acrescentando que a administração, em vez disso, incentivaria países como a África do Sul “que têm meios significativos próprios” a financiarem as doses por conta própria.

Funcionários da administração não responderam a perguntas sobre a decisão. Nem um porta-voz da Embaixada da África do Sul em Washington.

A África do Sul tem cerca de um quinto da população global de pessoas vivendo com HIV e historicamente recebeu a maior parte do financiamento dos EUA para prevenção do HIV.

O presidente Donald Trump emitiu uma ordem executiva em fevereiro que interrompeu toda a ajuda dos EUA ao país, citando o que ele alega ser o mau tratamento dos brancos afrikaners na nação de maioria negra —alegações que especialistas disseram ser exageradas ou falsas.

Em maio, Trump surpreendeu o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa em um encontro no Salão Oval, exibindo vídeo de cruzes e montes de terra que Trump falsamente disse representarem mais de 1.000 locais de sepultamento de agricultores assassinados. As imagens retratavam um protesto contra a violência, não sepulturas reais.

O foco do governo Trump nos sul-africanos brancos ofuscou suas relações com Pretória. A administração reformulou o programa de refugiados dos EUA para focar quase exclusivamente nos afrikaners e retirou sua participação de alto nível na cúpula do G20 na África do Sul este mês, renovando as alegações de Trump sobre suposta violência e perseguição anti-branca e enfraquecendo o primeiro anfitrião africano da reunião anual das principais economias do mundo.

Durante uma reunião com o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman na terça-feira (18), Trump reiterou sua crítica à África do Sul, dizendo que “suas políticas sobre o extermínio de pessoas são inaceitáveis” e que o governo está se comportando “extremamente mal”.

Sibongile Tshabalala, presidente nacional da TAC (Treatment Action Campaign) da África do Sul, uma organização que defende pessoas HIV-positivas no país, disse que estava claro que Trump estava tentando fazer a África do Sul “sofrer”.

“Este não é o momento para o governo dos EUA fazer política”, diz Tshabalala, que é ela própria HIV-positiva.

Desde o retorno de Trump à Casa Branca, sua administração disse que pretende alinhar a assistência externa dos EUA com seus objetivos de política externa “America First” (“America Primeiro”, em português). Funcionários implementaram uma pausa em toda a assistência humanitária no início do ano, colocando programas sob revisão e desmantelando a Usaid (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional).

O governo Trump também tem pressionado para reimaginar programas bem-sucedidos e de longa data, como o Pepfar (Plano de Emergência do Presidente para Alívio da Aids), para, em vez disso, promover a autossuficiência nos países beneficiários.

Mas para os críticos, medidas como excluir a África do Sul da iniciativa do lenacapavir ilustram como a política externa de Trump está ativamente minando os objetivos da assistência externa dos EUA. Eles observam que o governo Trump estabeleceu uma meta de redução de 90% nas infecções por HIV globalmente até 2030.

“Eles estão sabotando seus próprios esforços para derrotar novas infecções. Isso é desperdiçador, cruel e contraproducente”, disse Asia Russell, diretora executiva da Health GAP, um grupo que faz campanha pelo acesso ao tratamento do HIV/Aids.

O governo Trump disse em setembro que ajudaria a fornecer lenacapavir aos países mais afetados pela doença, revivendo um plano elaborado durante o governo Biden com a Gilead Sciences, uma empresa sediada nos EUA que desenvolveu o medicamento, e o Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária.

O objetivo inicial era garantir que até 2 milhões de pessoas em até uma dúzia de países pudessem receber lenacapavir até 2028. Autoridades dos EUA disseram que esperam salvar centenas de milhares de vidas.

Na época desse anúncio, a medida foi recebida calorosamente por muitos grupos de defesa envolvidos na luta contra o HIV, que pensavam que o lenacapavir poderia ser um divisor de águas. O lenacapavir é a primeira injeção semestral de prevenção ao HIV, o que a torna muito mais fácil de administrar do que outros medicamentos de profilaxia pré-exposição (PrEP) que requerem injeções mais regulares ou múltiplos comprimidos.

A África do Sul receberá algumas doses para fornecer injeções a partir de abril, via doações do Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária. Em um evento no mês passado, o ministro da saúde da África do Sul disse que inicialmente haveria o suficiente para menos de meio milhão de pessoas nos primeiros dois anos. Com quase 8 milhões de pessoas HIV-positivas na África do Sul, “a demanda provavelmente superará a oferta no início”, diz o ministro Aaron Motsoaledi.

A África do Sul não é o único país que terá suas doses financiadas principalmente pelo Fundo Global, sem o apoio dos EUA. A Nigéria, outro país africano populoso em desacordo com o governo Trump, também não está recebendo doses compradas pelos EUA.

Mas especialistas dizem que a África do Sul é a exceção mais gritante, não apenas porque tem a maior população HIV-positiva, mas também porque tem um grande sistema de saúde que poderia absorver muito mais doses de lenacapavir.

“É uma enorme oportunidade perdida”, diz Mitchell Warren, diretor executivo da Avac, uma organização sem fins lucrativos que se concentra em esforços de prevenção ao HIV/Aids, observando que a África do Sul é necessária para fornecer um mercado sustentável para doses de lenacapavir e que a Gilead disse que poderia aumentar rapidamente a produção se os pedidos estivessem lá.

Embora a exclusão da África do Sul do programa de lenacapavir pareça minar o que é, em muitos aspectos, um plano de saúde global bem-sucedido dos EUA, Lewin, do Departamento de Estado americano, rejeitou essa noção e disse que o plano estava avançando antes do cronograma.

“Inicialmente dissemos que forneceríamos pelo menos 2 milhões de doses, e até 2028, e estamos orgulhosos de que, com o progresso que fizemos, achamos que vamos atingir essa meta em algum momento em meados ou início de 2027”, diz Lewin, acrescentando que era vital com doenças como o HIV agir com “urgência”.

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