Embora a Venezuela tenha relevantes volumes de petróleo no subsolo, o incremento da produção local esperada pelo governo Donald Trump depende de diversas condições econômicas, que não são realidade neste momento e nem devem voltar a ser no futuro, segundo especialistas no setor ouvidos pela Folha.
A maior parte das reservas venezuelanas só é viável com preços do petróleo acima de US$ 80 por barril e, mesmo que as cotações cheguem neste patamar, a insegurança jurídica em um país que já tomou ativos do setor privado duas vezes permanecerá como entrave ao investimento estrangeiro.
“A transição energética vai demandar hidrocarbonetos em condições mais amigáveis e o petróleo da Venezuela, esse petróleo pesado que é o grosso das reservas do país, é difícil de trabalhar”, diz o geofísico João Figueira.
Figueira presidiu as operações da Petrobras na Venezuela entre 2009 e 2012, ainda sob o governo Hugo Chávez. A estatal chegou ao país em 2002, com a compra da argentina Perez Companc, que tinha contratos com a estatal venezuelana PDVSA. Saiu em 2013, ao vender a Perez Companc.
Foi Chavez quem calculou as reservas venezuelanas em 303 bilhões de barris de petróleo, elevando a Venezuela ao posto de “país com as maiores reservas de petróleo do mundo“, como vem sendo repetido após a operação dos Estados Unidos para prender o ditador Nicolás Maduro.
Especialistas, porém, questionam a avaliação. “O saudoso Roberto Campos [ex-ministro do Planejamento e presidente do BNDES] dizia que recursos minerais são cadáveres geológicos que requerem mercado, tecnologia e investimentos. E investimento só se faz se tiver sinal econômico”, diz Figueira.
A consultoria norueguesa Rystad Energy calcula que a Venezuela precisaria de US$ 183 bilhões em investimentos para levar sua produção novamente para a casa dos três milhões de barris de petróleo por dia, triplicando o volume atual.
Esse é o volume necessário para recuperar a infraestrutura atual, sucateada por anos de baixo investimento. Apenas com a recuperação campos já existentes, diz a consultoria, o país poderia elevar a produção em até 350 mil barris por dia em três anos.
Esses campos seriam viáveis com petróleo na casa dos US$ 40 por barril. A consultiria, porém, acha difícil, que a Venezuela consiga atrair os investimentos necessários para superar os 2 milhões de barris por dia.
“Para voltar ao recorde histórico de três milhões de barris por dia, o preço do petróleo teria que se sustentar acima de US$ 80 ou, possivelmente, de três dígitos [por barril]”, disse à Folha o chefe adjunto de análises da Rystad, Artem Abramov.
Isso porque a maior parte das reservas venezuelanas é de um petróleo chamado extrapesado, que demanda tecnologias especiais para ser produzido e movimentado. Uma espécie de “piche”, compara o geólogo Jorge Camargo, que presidiu a subsidiária internacional da Petrobras entre 1999 e 2002.
“Tem que injetar vapor quente [nos poços] para amolecer, botar bomba para subir [à superfície], depois tem que amolecer para circular em oleoduto”, explica Camargo. “Tudo isso para vender com um desconto enorme [em relação ao petróleo Brent]”.
Alguns exemplos de tipos de petróleo, segundo a Platts Periodic Table of Oil, da S&P Global
| Nome | País | Produção | Grau API | Teor de enxofre | |||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Petróleos leves | |||||||||||
| Qua Iboe | Nigéria | 120 mil barris por dia | 37,6 | 0,1% | |||||||
| Eagle Ford Crude | EUA | 1,1 milhão de barris por dia | 45 | 0,2% | |||||||
| Abu Dhabi Condensate | Abu Dhabi | 305 mil barris por dia | 58,4 | 0,1% | |||||||
| Petróleos médios | |||||||||||
| Daqing | China | 770 mil barris por dia | 32,2 | 0,1% | |||||||
| Urals | Russia | 1,8 milhão de barris por dia | 31,7 | 1,7% | |||||||
| Tupi | Brasil | 1 milhão de barris por dia | 31 | 0,32% | |||||||
| Petróleos pesados | |||||||||||
| Maya | México | 950 mil barris por dia | 21,5 | 3,4% | |||||||
| West Canadian | Canadá | 2,2 milhões de barris por dia | 21,5 | 3,4% | |||||||
| Merey | Venezuela | 400 mil barris por dia | 16 | 3,4% | |||||||
A qualidade de um petróleo é medida pelo mix de derivados que ele pode produzir, dos mais leves e com maior valor agregado (gasolina e diesel, por exemplo) aos mais pesados e mais baratos (combustível de navegação e asfalto).
O mercado usa um indicador chamado grau API: quanto mais alto, mais leve é o petróleo. Respondendo por quase metade da produção venezuelana, o petróleo Merey, tem 16 graus API. O petróleo de Tupi, no pré-sal brasileiro, por exemplo, tem 31 e é considerado médio.
O óleo extrapesado venezuelano tem também alto teor de enxofre, outro componente que reduz seu valor de mercado. No caso do Merey, o teor de enxofre é de 3,4%. Tupi, que tem custo de extração mais barato barato é procurado por ter pouco enxofre, tem 0,31%.
O ex-presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, ressalta que o conceito de reserva de petróleo é altamente sensível às cotações internacionais e à estabilidade regulatória de um país, dois fatores que não favorecem a Venezuela no momento.
“Com barril a US$ 60, uma parte relevante desse volume não fecha a conta, especialmente considerando os custos de produção e upgrading [melhoria da qualidade] elevados, a dependência estrutural de diluente importado, a infraestrutura degradada, e o risco político e jurídico”, afirma.
Estimativas mais conservadoras considerando o cenário atual apontam que as reservas recuperáveis da Venezuela se situariam entre 20 bilhões e 40 bilhões de barris. Bem menores que os 303 bilhões estimados por Chávez, mas ainda assim maiores que as reservas provadas brasileiras, de 17 bilhões de barris em 2024.
A resistência demonstrada por petroleiras americanas, principalmente a gigante Exxon, aos primeiros apelos de Trump por investimentos no país mostra, porém, que as condições estão longe de serem consideradas atrativas.
“É um desafio monumental”, diz o ex-Petrobras Figueira. “Sem contar com as questões ambientais: a quantidade de emissões [de gases do efeito estufa] para produzir esse petróleo [extrapesado da Venezuela] é enorme.”




