quarta-feira, janeiro 14, 2026

Plano de Trump para petróleo na Venezuela tem problemas – 14/01/2026 – Economia

Embora a Venezuela tenha relevantes volumes de petróleo no subsolo, o incremento da produção local esperada pelo governo Donald Trump depende de diversas condições econômicas, que não são realidade neste momento e nem devem voltar a ser no futuro, segundo especialistas no setor ouvidos pela Folha.

A maior parte das reservas venezuelanas só é viável com preços do petróleo acima de US$ 80 por barril e, mesmo que as cotações cheguem neste patamar, a insegurança jurídica em um país que já tomou ativos do setor privado duas vezes permanecerá como entrave ao investimento estrangeiro.

“A transição energética vai demandar hidrocarbonetos em condições mais amigáveis e o petróleo da Venezuela, esse petróleo pesado que é o grosso das reservas do país, é difícil de trabalhar”, diz o geofísico João Figueira.

Figueira presidiu as operações da Petrobras na Venezuela entre 2009 e 2012, ainda sob o governo Hugo Chávez. A estatal chegou ao país em 2002, com a compra da argentina Perez Companc, que tinha contratos com a estatal venezuelana PDVSA. Saiu em 2013, ao vender a Perez Companc.

Foi Chavez quem calculou as reservas venezuelanas em 303 bilhões de barris de petróleo, elevando a Venezuela ao posto de “país com as maiores reservas de petróleo do mundo“, como vem sendo repetido após a operação dos Estados Unidos para prender o ditador Nicolás Maduro.

Especialistas, porém, questionam a avaliação. “O saudoso Roberto Campos [ex-ministro do Planejamento e presidente do BNDES] dizia que recursos minerais são cadáveres geológicos que requerem mercado, tecnologia e investimentos. E investimento só se faz se tiver sinal econômico”, diz Figueira.

A consultoria norueguesa Rystad Energy calcula que a Venezuela precisaria de US$ 183 bilhões em investimentos para levar sua produção novamente para a casa dos três milhões de barris de petróleo por dia, triplicando o volume atual.

Esse é o volume necessário para recuperar a infraestrutura atual, sucateada por anos de baixo investimento. Apenas com a recuperação campos já existentes, diz a consultoria, o país poderia elevar a produção em até 350 mil barris por dia em três anos.

Esses campos seriam viáveis com petróleo na casa dos US$ 40 por barril. A consultiria, porém, acha difícil, que a Venezuela consiga atrair os investimentos necessários para superar os 2 milhões de barris por dia.

“Para voltar ao recorde histórico de três milhões de barris por dia, o preço do petróleo teria que se sustentar acima de US$ 80 ou, possivelmente, de três dígitos [por barril]”, disse à Folha o chefe adjunto de análises da Rystad, Artem Abramov.

Isso porque a maior parte das reservas venezuelanas é de um petróleo chamado extrapesado, que demanda tecnologias especiais para ser produzido e movimentado. Uma espécie de “piche”, compara o geólogo Jorge Camargo, que presidiu a subsidiária internacional da Petrobras entre 1999 e 2002.

“Tem que injetar vapor quente [nos poços] para amolecer, botar bomba para subir [à superfície], depois tem que amolecer para circular em oleoduto”, explica Camargo. “Tudo isso para vender com um desconto enorme [em relação ao petróleo Brent]”.


Alguns exemplos de tipos de petróleo, segundo a Platts Periodic Table of Oil, da S&P Global

Nome País Produção Grau API Teor de enxofre
Petróleos leves
Qua Iboe Nigéria 120 mil barris por dia 37,6 0,1%
Eagle Ford Crude EUA 1,1 milhão de barris por dia 45 0,2%
Abu Dhabi Condensate Abu Dhabi 305 mil barris por dia 58,4 0,1%
Petróleos médios
Daqing China 770 mil barris por dia 32,2 0,1%
Urals Russia 1,8 milhão de barris por dia 31,7 1,7%
Tupi Brasil 1 milhão de barris por dia 31 0,32%
Petróleos pesados
Maya México 950 mil barris por dia 21,5 3,4%
West Canadian Canadá 2,2 milhões de barris por dia 21,5 3,4%
Merey Venezuela 400 mil barris por dia 16 3,4%

A qualidade de um petróleo é medida pelo mix de derivados que ele pode produzir, dos mais leves e com maior valor agregado (gasolina e diesel, por exemplo) aos mais pesados e mais baratos (combustível de navegação e asfalto).

O mercado usa um indicador chamado grau API: quanto mais alto, mais leve é o petróleo. Respondendo por quase metade da produção venezuelana, o petróleo Merey, tem 16 graus API. O petróleo de Tupi, no pré-sal brasileiro, por exemplo, tem 31 e é considerado médio.

O óleo extrapesado venezuelano tem também alto teor de enxofre, outro componente que reduz seu valor de mercado. No caso do Merey, o teor de enxofre é de 3,4%. Tupi, que tem custo de extração mais barato barato é procurado por ter pouco enxofre, tem 0,31%.

O ex-presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, ressalta que o conceito de reserva de petróleo é altamente sensível às cotações internacionais e à estabilidade regulatória de um país, dois fatores que não favorecem a Venezuela no momento.

“Com barril a US$ 60, uma parte relevante desse volume não fecha a conta, especialmente considerando os custos de produção e upgrading [melhoria da qualidade] elevados, a dependência estrutural de diluente importado, a infraestrutura degradada, e o risco político e jurídico”, afirma.

Estimativas mais conservadoras considerando o cenário atual apontam que as reservas recuperáveis da Venezuela se situariam entre 20 bilhões e 40 bilhões de barris. Bem menores que os 303 bilhões estimados por Chávez, mas ainda assim maiores que as reservas provadas brasileiras, de 17 bilhões de barris em 2024.

A resistência demonstrada por petroleiras americanas, principalmente a gigante Exxon, aos primeiros apelos de Trump por investimentos no país mostra, porém, que as condições estão longe de serem consideradas atrativas.

“É um desafio monumental”, diz o ex-Petrobras Figueira. “Sem contar com as questões ambientais: a quantidade de emissões [de gases do efeito estufa] para produzir esse petróleo [extrapesado da Venezuela] é enorme.”

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