sábado, janeiro 3, 2026

Polo de lingerie em Juruaia (MG) supera produção de café – 02/01/2026 – Economia

Logo na entrada da zona urbana o visitante já se depara com um pórtico “avisando” que a pacata Juruaia (MG) é uma cidade diferente de outras do mesmo porte: a frase “a capital da lingerie” não está ali à toa, e define muito o perfil da economia local.

Incrustado numa região de forte produção cafeeira, o município de 11.652 habitantes, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), se destacou também nas últimas três décadas por ver surgir um movimento inicialmente tímido na produção de lingerie, mas que hoje abriga mais de 200 confecções de peças como calcinhas, sutiãs, cuecas e pijamas, o que é perceptível em todas as ruas da região central da cidade.

O polo de Juruaia é predominantemente administrado por mulheres, responsáveis por 95% dos negócios, que geram cerca de 5.000 empregos e vendem mais de 1,5 milhão de peças mensais.

O polo local, segundo a prefeitura, começou a ser formado em 1992, quando duas empresas iniciaram a produção de lingerie no município. Elas fecharam em menos de dois anos, segundo a Aciju (Associação Comercial e Industrial de Juruaia), mas inspiraram o surgimento de outras a partir de ex-funcionárias delas.

A empresária Tânia Mara Rezende, 45, é um exemplo. Há 20 anos, resolveu empreender e investiu na montagem da sua primeira confecção, Íntima Passion, num momento em que as ainda poucas empresas locais já tinham se unido num APL (Arranjo Produtivo Local).

Segundo ela, para a economia local hoje a lingerie é mais importante economicamente que o café por gerar mais empregos e também por atrair mão de obra de municípios vizinhos, como Muzambinho, Guaxupé e Guaranésia.

“E a mão de obra feminina não quer trabalhar no café, então a opção é trabalhar nas indústrias da cidade. Uma das preocupações é manter essa visibilidade, a economia da cidade aquecida. Como hoje ela gera emprego e distribuição de renda, é crucial. Em muitas casas a mulher, o marido e a filha atuam numa empresa pequena que presta serviço para outras”, disse ela, que antes de abrir seu negócio trabalhou em outras confecções como costureira, modelista e estilista.

Ex-presidente por dez anos da Aciju, Tânia está à frente de um negócio que produz cerca de 30 mil peças mensais, e emprega 150 pessoas, 52 delas diretamente. Cenário bem diferente do início, quando ela, sua mãe e uma amiga iniciaram na atividade fabricando em média 150 peças diárias.

“Os terceirizados não estão todos em Juruaia, temos até em São Sebastião do Paraíso, distante 100 quilômetros daqui, porque aqui a mão de obra está muito disputada.”

Se depender da empresária, as mulheres seguirão no comando da maioria dos negócios, já que suas filhas Vitória e Lara cuidam do marketing e da produção da sua fábrica.

Com produção na casa de 22 milhões de unidades anuais, o PIB (Produto Interno Bruto) local tem crescido cerca de 30% ao ano, conforme dados da administração municipal. No país, outros polos importantes estão instalados em Fortaleza e Nova Friburgo.

Uma das exceções ao universo feminino local é o empresário Val Allans, 32, filho de uma família de Monte Belo (distante 40 quilômetros) que trabalhava nas lavouras de café. No começo do século, sua família se mudou para Juruaia em busca de oportunidades e, aos dez anos, disse ter ficado deslumbrado ao ver um desfile de lingerie.

Chegou a trabalhar na colheita de café, mas ao terminar a safra viu que não havia o que fazer nos outros meses do ano e decidiu que não era o que queria para a sua vida. Iniciou a atuação em fábricas e hoje tem duas empresas sob sua gestão, a loja Pano Fashion e uma confecção, além de atuar como consultor.

NICHOS EM ASCENSÃO

Entre os segmentos, ele aponta o crescimento do homewear (roupa para usar em casa), que teve forte demanda na pandemia. “É uma roupa de trabalho, mas também uma roupa mais confortável, que dá para usar em casa, sair para ir ao supermercado. E também tem crescido a venda de moda fitness. Juruaia é uma cidade muito antenada com os movimentos de mercado e do consumidor”, disse Allans.

O grande foco da cidade do sul de Minas é a produção de calcinhas e sutiãs, com cerca de 70% do total, mas também há empresas ligadas às modas praia, fitness e sleepwear, que rendem um faturamento bruto mensal superior a R$ 15 milhões, segundo dados da Aciju.

Os empregados com registro em carteira vinculados ao setor de confecção de artigos de vestuário e acessórios representam 53,8% do total municipal, seguido por 17,1% que atuam no comércio varejista.

No centro do município, há mais de 120 lojas espalhadas e visitadas diariamente por compradores mineiros e também de outros estados, principalmente São Paulo.

Uma delas é a Lindelucy Lingerie, que numa feira realizada na cidade apresentou um conjunto avaliado em R$ 25 mil, com ouro e turmalina.

Com tanta concorrência com as empresas locais e, também, nacionais, a criatividade tem movido os empresários ligados à confecção e também o polo mineiro, com o desenvolvimento de criações inspiradas em signos do zodíaco, cueca com GPS, peças em couro e até mesmo um sutiã com diamante.

A CEO da Lindelucy, Eduarda Iório, 27, disse que o uso de pedras preciosas é um serviço de nicho oferecido e que a empresa já vendeu uma cueca por R$ 7.000. Afirmou ainda que as mulheres se destacam mais porque atuam em uma função mais delicada, que exige sensibilidade.

Allans concorda, e diz que desde pequeno teve uma ligação muito forte com o público feminino e que sua mãe é a figura que o inspira. “A gente teve uma infância de dificuldades, minha mãe não reclamava, só orava, agradecia, sempre muito otimista. Minhas irmãs também são mulheres fortes, herdaram isso e são inspiração para mim. Como eu tive toda essa base, era meio que natural que florescesse em mim alguma coisa para, de certa forma, devolver esse carinho pro público feminino”, disse.

Em abril, a 28ª edição da feira de lingerie da cidade movimentou R$ 9,5 milhões em negócios do setor de confecções, dos quais mais de R$ 3 milhões em negociações presenciais e contou com 4.100 lojistas e representantes comerciais. No total, 200 grandes clientes estavam registrados para as negociações.

Parte da produção local é exportada para países como Estados Unidos, Portugal, Argentina, Emirados Árabes Unidos e Alemanha.

Leonardo Mól, gerente do Sebrae Minas na regional centro-oeste e sudoeste, disse que a pandemia contribuiu para mudar o perfil do grande comprador na cidade mineira, que hoje faz os negócios principalmente por meio de feiras digitais.

“Você vai para dentro de uma loja hoje e, se tem 10 vendedores, 8 estão fazendo vendas online e 2 estão nas presenciais. Isso foi um ponto de virada extremamente importante”, disse.

Segundo ele, Juruaia já tem um polo consolidado em relação à qualidade das mercadorias e fazer compras remotamente não foi um problema para os compradores, que ganharam agilidade e redução nos custos.

LEVAR O POLO PARA O PAÍS

Tal cenário fez a cidade criar um monumento com o maior sutiã do Brasil, uma peça com 16m de comprimento e 5m de altura, que virou um símbolo do município e local de parada para fotos. O sucesso fez com que, em 2023, outro monumento, a maior calcinha, fosse instalado numa outra praça.

Para 2026, o polo definiu duas frentes de trabalho consideradas estratégicas para ganhar mercado, uma voltada ao varejo local e outra às confecções.

O plano prevê criar uma rodada de negócios itinerante para levar empresas para outras regiões de Minas Gerais, começando por Uberlândia, no Triângulo Mineiro, segundo município mais populoso do estado, com 761.835 habitantes.

Em seguida, conta o gerente do Sebrae, os destinos serão o interior paulista, o Nordeste e o Distrito Federal. “A gente fará a rodada, apresentará os produtos e tudo mais para gerar credibilidade naquele mercado para, depois, dar sustentação de forma digital.”

O planejamento ainda inclui consultorias sobre reforma tributária, como se posicionar no mercado e ações para automatizar o atendimento das fábricas por meio de whatsapp e como obter melhores resultados em lives em plataformas como TikTok Shop.

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