
A seleção brasileira foi um símbolo nacional durante décadas. Parava o país, unia torcidas rivais e mobilizava gerações. Hoje, esse vínculo não existe mais. Jogos da equipe já não provocam comoção coletiva, mesmo em anos de Copa do Mundo.
Um levantamento feito em 2025, pelo Ipsos-Ipec, em parceria com O Globo, chegou a enquadrar esse fenômeno. A pesquisa mostrou que um em cada três brasileiros não se interessa pela seleção brasileira de futebol. Por uma série de motivos.
Nem mesmo os jogos do escrete canarinho no país causam a mesma comoção de outrora. Em outubro de 2024, por exemplo, Brasil e Peru pelas Eliminatórias da Copa do Mundo não encheu sequer a metade do Estádio Mané Garrincha, em Brasília.
O distanciamento não é por causa de uma única derrota ou de uma geração ruim de jogadores. É o resultado de anos de fracassos esportivos, má gestão, falta de identificação e uma profunda transformação cultural.
A seleção brasileira já não representa do mesmo jeito o país e a indiferença cresce especialmente entre os mais jovens. É tempo de Copa do Mundo, que será jogada nos Estados Unidos, Canadá e México. E nós respondemos a pergunta: por que as pessoas deixaram de se importar com o time nacional?
1) Jejum que é uma eternidade
Quando o Brasil faturou a Copa do Mundo de 1994, caiu um longuíssimo tabu de 24 anos sem que o país levantasse uma taça do torneio. O troféu anterior fora conquistado lá em 1970 e, antes disso, a equipe vencera mundiais seguidos, em 58 e 62.
O período de quase duas décadas e meia sem ganhar uma Copa se repete agora. A última glória foi em 2002, no Japão e na Coreia do Sul. Para a única seleção pentacampeã do planeta, um jejum tão longo é uma eternidade.
A trajetória perdedora em Copas, claro, desmotiva qualquer um. Nas últimas cinco edições, em quatro o Brasil tombou logo nas quartas de final, sempre batido por seleções europeias. E quando foi à semi, em 2014, contra a Alemanha, bem…
Nesse período de fracassos da seleção brasileira, outras potências se renovaram. A França ganhou protagonismo, venceu um Mundial e perdeu outras duas finais. E até a Argentina, que não gritava “campeón” desde 1986, viu Messi acabar com a espera em 2022.
2) A humilhação suprema
Perder ou ganhar faz parte do futebol, mesmo para as seleções de primeira linha, como sempre foi o caso do Brasil. Mas, ser humilhado, esculachado, esculhambado, é diferente. Ainda mais em casa, diante de seu torcedor.
Após 64 anos, enfim o Brasil receberia outra vez uma Copa do Mundo. Em jogo, não apenas a chance do hexa. Mas também a oportunidade de vingar a seleção de 1950, batida em casa pelo Uruguai, na finalíssima, em um Maracanã apinhado.
Aos trancos e barrancos, o time do técnico Felipão chegou na semifinal. E aí, bem, aí nada mais foi como antes. Com o Mineirão cheio, o Brasil foi ridicularizado pela Alemanha, por 7 a 1 (o primeiro tempo foi 5×0!).
O revés brasileiro é amplamente considerado como a pior derrota da história no esporte. Um vexame simbólico que, naturalmente, comprometeu a moral da camisa mais estrelada do futebol mundial. O Brasil virou motivo de chacota, até entre os seus.
3) É seleção do Brasil ou da Europa?
Por causa de dinheiro, a seleção brasileira se transformou numa versão futebolística dos Harlem Globetrotters, aquele time de basquete americano que ainda faz apresentações ao redor do mundo. Passou a ser atração pelo mundo todo, como um circo do esporte.
Para se ter uma ideia, todos os s últimos dez amistosos da equipe foram disputados a léguas de distância do território nacional. O Brasil atuou na França, Inglaterra (duas vezes), Japão, Coreia do Sul, Estados Unidos (duas vezes), Espanha (duas vezes) e Portugal.
Em 2025, o Brasil não fez nenhum duelo amistoso em casa, no Maracanã, no Morumbi ou qualquer outro grande estádio no país. Só jogou diante de seu torcedor pelas Eliminatórias da Copa do Mundo, o que é obrigatório segundo as normas da Conmebol. Não fosse assim…
O distanciamento, evidentemente, influencia na relação da equipe com os brasileiros. Sem jogos no país, sem caravanas, sem tardes de estádio cheios, sem o vínculo direto, a seleção virou um produto distante, virtual. Só é vista pelos brasileiros pela televisão.
4) Quem é esse mesmo?
Qualquer torcedor comum que veja os jogos do Brasil (pela televisão), já deve ter se perguntado: quem é esse jogador? Até mesmo quem é acostumado ao futebol internacional fica em dúvida de vez em quando. “Como é o nome dele?”.
Se já aconteceu com você, não se preocupe. Não é vergonha para ninguém. E a resposta, invariavelmente, aponta para algum jogador super jovem, que partiu cedo do Brasil, e despontou em um clube secundário da Premier League, a liga inglesa.
O êxodo de jogadores brasileiros para o estrangeiro não é de agora. Iniciou nos anos 80 e explodiu nos 90, quando a Europa facilitou as transferências dentro do continente. Mas se antes o Brasil negociava seus craques consagrados, hoje exporta promessas adolescentes.
5) Eles não nos representam
Este tópico tem relação com o anterior. Como os jogadores saem jovens para atuar no exterior, não criam laços com os clubes brasileiros. Não dá tempo de virarem ídolos dos clubes nacionais.
Veja só. Na última vez em que o Brasil foi campeão mundial, em 2002, 12 dos 23 convocados por Luiz Felipe Scolari defendiam times brasileiros. Eram jogadores do Palmeiras, Corinthians, Atlético-MG, São Paulo, Grêmio, Athletico e Cruzeiro.
Já na Copa seguinte, disputada na Alemanha, em 2006, o número despencou. Só dois dos 23 chamados por Carlos Alberto Parreira atuavam no Brasil. Na última, em 2022, foram apenas três dos 26 atletas chamados pelo estrategista Tite.
Quando a seleção era formada majoritariamente por jogadores que atuavam no Brasil, o torcedor reconhecia aqueles rostos toda semana. Via o goleiro no domingo à tarde, o atacante no clássico, o meia no estádio do bairro. Torcia por eles.
A partir do momento em que quase todo o elenco do Brasil passa a jogar na Europa, o elo do cotidiano se vai. São figuras distantes, vistas em ligas estrangeiras. Ninguém se importa com eles.
6) A amarelinha em disputa
A camisa amarela da seleção brasileira ainda é o mais importante símbolo do futebol. Reconhecida no planeta inteiro. Se você aparecer trajado com a amarelinha em qualquer canto do planeta Terra, será tratado como rei.
Por décadas, o manto, que nasceu branco e mudou em 1953, representou a identidade nacional, além do orgulho esportivo. Porém, desde 2015, com as manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, se tornou objeto de disputa política no Brasil.
O uniforme foi apropriado em atos de rua, manifestações e campanhas associadas a uma visão específica de país. Vestir o amarelo deixou de significar apenas torcer pelo Brasil e passou, para muitos, a sinalizar alinhamento ideológico.
Esse processo acabou produzindo um efeito colateral. Parte da população passou a evitar a camisa por questões políticas. A amarelinha, que sempre representou uma paixão em comum, perdeu o caráter agregador.
7) Um protagonista fracassado
O retrospecto de fracassos da seleção tem um craque protagonista: Neymar. Ninguém nunca questionou o talento do filho do Neymar Pai, mas ele já disputou três mundiais e nada. Ney Jr. não conseguiu conduzir o Brasil a uma conquista, como Pelé, Romário e Ronaldo. Conseguirá?
No Mundial do Brasil, o atacante começou bem até ser alijado da disputa com uma joelhada maldosa nas costas. Viu o vexame do 7 a 1 da arquibancada. Em 2018, na Rússia, Neymar se destacou como meme mundial, por simular faltas. E em 2022, jogou lesionado, fez um golzinho contra a Croácia e sucumbiu junto com o time.
Aos 33 anos, há dúvidas se Neymar será convocado por Carlo Ancelotti para o que pode ser seu quarto e derradeiro mundial. Seu último título de expressão como jogador foi em 2014-15, da Liga dos Campeões com o Barcelona. Desde então, chama atenção só por causa de casos extraconjugais e o gosto duvidoso para automóveis e cortes de cabelo.
8) Cartolagem sem credibilidade
A cartolagem do futebol brasileiro nunca foi confiável. Muito pelo contrário. Ainda assim, nas últimas décadas, a impressão é que piorou. A crise não é apenas esportiva, mas também de credibilidade.
A Confederação Brasileira de Futebol (CBF), responsável por gerir o futebol nacional e comandar a seleção brasileira, se viu envolvida em uma série de escândalos e disputas internas. Desde Ricardo Teixeira, o presidente que comandou a instituição por duas décadas, quase todos os dirigentes tiveram problemas com a Justiça.
Falta transparência, um projeto consistente com o futebol local e conexão com os torcedores. A seleção brasileira passou a ser um produto como outro qualquer gerido por cartolas, não mais um patrimônio nacional.
9) Onde vai passar?
Fenômeno recente, a fragmentação dos direitos de transmissão esportivos alterou profundamente a relação do público com o futebol. Durante décadas, o torcedor brasileiro sabia onde encontrar o jogo: na TV aberta, em canais universais, acessíveis a todos.
A seleção era um evento nacional, compartilhado em tempo real por milhões de pessoas. Hoje, partidas estão espalhadas entre TV paga, streaming, aplicativos e pacotes distintos. Para acompanhar campeonatos, clubes e a própria seleção, o espectador precisa assinar múltiplos serviços, navegar por plataformas e, muitas vezes, pagar mais para ver menos.
Esse modelo quebrou a experiência coletiva. Parte do público simplesmente desiste. O futebol perde centralidade cultural e passa a competir em desvantagem com entretenimentos mais simples e baratos.
10) “Tenho coisa melhor pra fazer”
Parte da resposta para o afastamento está fora do futebol. Tomando como referência o ano de 2002, quando o Brasil foi campeão mundial pela última vez, houve uma explosão de alternativas de lazer.
Redes sociais, games, streaming, esportes internacionais etc competem diretamente com os 90 minutos de jogo. A seleção já não ocupa o centro da experiência cultural do país. Aos poucos, se tornou apenas “mais um conteúdo” em meio a milhares.
11) País do futebol? Nem tanto
O Brasil sempre foi considerado o país do futebol. Mas, com o tempo, fomos descobrindo que a fama não é lá muito verdadeira. Sempre fomos, e ainda somos, o país dos jogadores de futebol. Mas a paixão do torcedor local pelo esporte é bastante superdimensionada.
Diversos levantamentos demonstram que há, no país, uma parcela considerável de habitantes que não tem o menor interesse por futebol. Pessoas que não torcem para nenhum time e nem mesmo pela seleção brasileira.
Um levantamento encomendado pelo O Globo, no ano passado, por exemplo, identificou que os “desinteressados” são 24,4% da população. Outras pesquisas apontam o mesmo cenário. Futebol é paixão nacional? Nem tanto assim.
Autor: Gazeta do Povo







