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Por que o Brasil para quando caminhoneiros entram em greve

Embora mais reduzido desde a semana passada, o risco de uma greve nacional de caminhoneiros continua no radar enquanto a categoria mantém negociações com autoridades em Brasília. Caminhoneiros autônomos de todo o país se reunirão nesta quinta-feira (26) para definir se deflagram a paralisação a nível nacional ou não.

A corrida do governo federal para frear a mobilização dos trabalhadores, responsáveis por dois terços das cargas do país, voltou a expor a forte dependência da economia brasileira do transporte rodoviário.

O quadro mostra a extrema vulnerabilidade do Brasil a choques no preço dos combustíveis, que abastecem a frota de caminhões que circulam pela malha de rodovias. Mais que isso: demonstra como o modelo logístico brasileiro se transformou em um gargalo que retém parte da rentabilidade do setor produtivo, além de ditar a resiliência do país em momentos de crise.

Levantamento conduzido pelo Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos) mostra que a dependência crônica do asfalto impõe um teto ao crescimento nacional. Em 2025, os custos logísticos no Brasil alcançaram R$ 1,96 trilhão, o equivalente a 15,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Em 2014, essa despesa representava 10,4%.

A razão desse crescimento está no descompasso entre a demanda do setor produtivo e a oferta de infraestrutura. Nos últimos dez anos, o Brasil aumentou o volume de carga transportada em cerca de 25%, enquanto a malha viária – conjunto de rodovias e estradas do país – permaneceu praticamente estagnada, ainda segundo o Ilos.

De acordo com o estudo, as rodovias responderam, no ano passado, por 63,4% das mercadorias transportadas dentro do Brasil. As ferrovias, por 18%, enquanto o modal aquaviário transportou 14,6%, e o dutoviário, que permite o deslocamento de gás e petróleo, por exemplo, 4,1%.

Em comparação, dados do Bureau of Transportation Statistics (BTS) dos Estados Unidos, mostram que a malha ferroviária norte-americana absorve aproximadamente 43% do transporte de carga do país, deixando as rodovias com apenas 26%. Em países como a Rússia, os trilhos chegam a suportar 81% do volume transportado, segundo o International Transport Forum (ITF).

O Brasil dispõe de aproximadamente 30 mil km de ferrovias, segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Já os Estados Unidos contam com 293 mil km de trilhos quando somadas vias secundárias e pátios, de acordo com relatórios estatísticos da Federal Railroad Administration (FRA).

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No Brasil, além da baixa capacidade dos demais modais para absorver o aumento da demanda com o crescimento da economia, os custos do transporte rodoviário crescem por causa da deficiência estrutural.

A edição de 2025 da Pesquisa de Rodovias da Confederação Nacional do Transporte (CNT) mostrou que apenas 12,6% de toda a malha rodoviária nacional é pavimentada e que, dessa fatia, 62,1% tem estado classificado como regular, ruim ou péssimo, o que afeta diretamente o custo operacional do transporte.

“Os dados mostram que ainda há um longo caminho a percorrer e que a ampliação dos aportes destinados ao setor é fundamental para que o país alcance o padrão de infraestrutura que sua economia e sua população requerem”, disse Vander Costa, presidente da CNT.

Ao longo dos anos, a combinação dessa dependência crônica de rodovias com altos custos de estocagem levou setores inteiros a adotar, de forma intensiva, o sistema just in time, no qual compra de insumos, produção e entrega são feitos em quantidade calculada para a demanda, reduzindo estoques e custos decorrentes.

O modelo alivia o fluxo de caixa e a necessidade de crédito, mas também elimina margens de segurança do sistema. É essa arquitetura frágil que explica por que a possibilidade de uma greve de caminhoneiros, por mais distante que pareça, gera desespero no mercado e no governo.

A greve dos caminhoneiros de maio de 2018, que durou dez dias, mostrou o resultado de uma quebra na cadeia logística ao desorganizar a economia do país de forma persistente. Naquele mês, a produção industrial brasileira registrou uma queda recorde de 10,9% em comparação com o mês anterior, a pior taxa desde a crise financeira global de 2008.

Os efeitos mais imediatos foram o desabastecimento de combustíveis, a falta de produtos nos supermercados, a interrupção de linhas de produção e a suspensão de voos comerciais. As consequências mais duradouras foram uma inflação oficial cinco vezes superior à que se projetava para o mês, e um Produto Interno Bruto (PIB) 1 ponto porcentual abaixo do que se estimava para o ano.

O Ministério da Fazenda calculou, na época, que o prejuízo direto para a atividade econômica do país foi de R$ 15,9 bilhões.

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Brasil patina na tentativa de ampliar transporte ferroviário e cabotagem

Uma tentativa de mudança estrutural teve início com o novo Marco Legal das Ferrovias, criado no governo de Jair Bolsonaro (PL). A legislação introduziu o regime de autorizações, reduzindo a burocracia para atrair a iniciativa privada a projetos do setor, com o objetivo de elevar a participação ferroviária na matriz de transportes para 35% nos próximos anos.

Outra iniciativa do governo passado foi a criação da BR do Mar, programa de estímulo à cabotagem (transporte interno entre portos brasileiros). Um levantamento feito pelo Ministério dos Transportes no ano passado, entretanto, mostrou que empresas ainda enfrentam altos custos portuários, tarifas e tributos que reduzem a competitividade do modal em comparação com o transporte rodoviário.

Na gestão atual, o governo tem tentado acelerar investimentos em ferrovias por meio de parcerias e do Novo PAC, com projetos em andamento em diferentes regiões do país.

No entanto, a mudança na matriz de transportes esbarra em entraves burocráticos, jurídicos e ambientais que dificultam o avanço das obras. O principal exemplo é a Ferrogrão, ferrovia planejada para ligar o centro produtor de Mato Grosso aos portos do Arco Norte, que segue paralisada e enfrenta questionamentos de órgãos de controle e disputas judiciais.

“O governo está trabalhando duramente para que o STF decida acerca da execução dessa obra. É uma obra de interesse nacional, do Novo PAC, que o presidente Lula deseja fazer. Assim que o STF decidir, nós estamos com o projeto pronto para a gente avançar com ela”, disse o ministro dos Transportes, Renan Filho, nesta terça-feira (24).

No último dia 12, no entanto, o Ibama afirmou à Infra S.A. que o processo de licenciamento ambiental do empreendimento só será retomado após a realização de novos estudos demográficos e climáticos, o que poderia levar anos para ser concluído.

Autor: Gazeta do Povo

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