O fim do ano é sempre cheio de confraternizações entre amigos, de trabalho e festas em família. Com o círculo social mais agitado e a chegada do verão, nutricionistas, dermatologistas e cirurgiões plásticos relatam uma alta procura por dietas restritivas e procedimentos estéticos para mudar a aparência em pouco tempo.
O psiquiatra Fábio Salzano, coordenador do Programa de Transtornos Alimentares do IPq-HCFMUSP (Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), diz que o aumento da exposição do corpo em praias e piscinas aumenta o risco de pessoas com insatisfação de sua imagem corporal buscarem alternativas. “A aparência física acaba se tornando mais importante do que valores internos, como se fosse a melhor maneira de passarem pelo julgamento de seus pares”, afirma.
Para alcançar o corpo desejado em poucos dias, as pessoas podem recorrer a dietas detox (abreviação para desintoxicantes) e com restrições calóricas severas. A nutróloga Marcella Garcez, diretora da Abran (Associação Brasileira de Nutrologia), diz que mesmo após perder o peso, a insatisfação corporal pode persistir se não houver educação alimentar, manejo emocional e expectativas realistas.
A médica alerta que essas dietas podem reforçar o ciclo restrição-compulsão (comer pouco por um tempo e depois comer demais para compensar), e gerar perda de massa magra, déficits nutricionais e descompensar o metabolismo.
“Os riscos imediatos envolvem fadiga, irritabilidade, compulsão alimentar, tonturas e piora do desempenho cognitivo”, complementa. À longo prazo, explica Garcez, o comportamento pode causar sarcopenia —que é perda de massa, força e função muscular—, flutuações bruscas do peso, desregulação hormonal e aumento de risco de transtornos alimentares.
Segundo Salzano, quando o comportamento alimentar ou a imagem corporal passa a ser relacionada a um sofrimento físico e psicológico, com investimento exagerado de tempo, isolamento social, alteração de humor e busca incessante por uma mudança física, sem satisfação, pode caracterizar um transtorno alimentar.
“Quando falamos de um transtorno alimentar como a anorexia nervosa, sabemos que a presença da distorção da imagem corporal é muito intensa, e cada vez que a pessoa perde peso e chega à meta escolhida, continua a se ver diferente do que imaginava”, diz. Ele alerta que os adolescentes e jovens são os mais vulneráveis, principalmente por geralmente passarem mais tempo em redes sociais, ambiente de constante comparação.
O psiquiatra diz que entrar em dietas restritivas para as férias de verão e as festas de fim de ano pode ser um comportamento que se repete quando outras vivências sociais se aproximam, como casamentos, formaturas ou aniversários. “O risco de manter esses comportamentos em determinadas ocasiões é que isso de fato se transforme em um transtorno médico.”
A busca pela melhora da aparência vai além do emagrecimento e dietas restritivas. A dermatologista Flávia Brasileiro, membro da SBD (Sociedade Brasileira de Dermatologia), diz que esse período no consultório é marcado pela busca de procedimentos estéticos.
“Muitas vezes o paciente não sabe dizer exatamente o que deseja, mas chega pedindo para ficar com menos rugas, com o rosto mais firme, diminuir a papada ou aumentar os lábios”, diz. Procedimentos corporais, como melhorar a flacidez da pele, reduzir gorduras localizadas, preenchedores de glúteos com ácido hialurônico também ficam em alta.
A cirurgiã plástica Beatriz Lassance também recebe pacientes buscando procedimentos estéticos quando o fim do ano se aproxima. Ela atende pacientes preocupados em estarem com uma boa aparência em eventos e confraternizações, principalmente para causar uma boa impressão em pessoas que veem apenas nesse período do ano.
“Esse é o maior estresse no consultório. Seja a formatura do filho em que o ex-marido vai estar com a atual esposa, 20 anos mais nova; ou uma prima invejosa que repara em tudo, a nora que praticamente mora numa clínica de estética”, relata.
A necessidade de agradar ao próximo pode se transformar em uma expectativa irreal do resultado do procedimento, o que as médicas julgam ser um risco. Brasileiro diz que expectativas irreais são um dos principais motivos de frustração no pós-procedimento. “A pressa pode levar o paciente a procurar profissionais sem formação adequada, aumentando ainda mais o risco de intercorrências.”
Lassance lembra que muitos procedimentos, como as cirurgias, demoram para que o resultado final apareça, e que o tempo de repouso é importante de ser respeitado. Para quem busca algo imediato, o ideal é manter as expectativas realistas e optar por procedimentos menos invasivos. As médicas dizem que o profissional de saúde, neste momento, deve orientar os pacientes e impor limites, se necessário.
Para Salzano, quando uma pessoa se depara com a urgência de realizar um procedimento estético, deve analisar se há de fato uma necessidade médica. “O autoconhecimento com psicoterapia pode ampliar o caminho para chegar a uma satisfação pessoal que não exija uma mudança externa, na busca da validação do que outros pensam”, afirma .





