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Projeto promete reduzir para 15 min diagnóstico de malária – 17/01/2026 – Equilíbrio e Saúde

Em muitas comunidades no interior da amazônia, um paciente com febre, calafrios e dor no corpo costuma enfrentar uma corrida contra o tempo. Entre a coleta do sangue e a confirmação da malária podem se passar de três a cinco dias, período em que há risco de a doença evoluir para formas graves.

Um projeto liderado pelo Einstein Hospital Israelita promete mudar esse cenário ao usar inteligência artificial para reduzir esse intervalo do diagnóstico para cerca de 15 minutos. Batizada de Malar.IA, a iniciativa reúne também a Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), de Manaus, a Positivo Tecnologia e a startup Hilab.

A proposta é treinar um algoritmo capaz de identificar o parasita da malária em lâminas de sangue analisadas por um microscópio digital portátil, o Hilab Lens, que já é usado em milhares de unidades de saúde no país para exames rápidos.

Na prática, isso significa que o exame tem potencial de ser feito em trânsito, em unidades itinerantes. Hoje, a malária ainda é diagnosticada, em grande parte, pela leitura manual de lâminas ao microscópio. Além de demorado, o processo exige profissionais experientes e estruturas fixas.

Além de acelerar o diagnóstico e o início do tratamento, a ferramenta também pode ser usada para ampliar a vigilância em saúde em um território onde se concentram 98% dos casos de malária no Brasil. Dos 112.490 casos registrados até 22 de dezembro de 2025, 109.932 foram na região amazônica.

O projeto, iniciado em outubro último, terá duração de 24 meses. Ao longo desse período, serão coletadas cerca de 1.400 amostras de sangue em Manaus e em São Gabriel da Cachoeira, município do Alto Rio Negro com alta incidência da doença. Dessas amostras sairão cerca de 30 mil imagens microscópicas que servirão para treinar e validar o algoritmo.

“O objetivo de desenvolver um algoritmo não é apenas ganhar agilidade, mas ampliar o acesso”, diz Rodrigo Demarch, diretor executivo de Inovação do Einstein. “Estamos falando de populações que vivem a até 72 horas de barco de um laboratório. Ter um dispositivo portátil, que pode ser levado até onde as pessoas estão, muda completamente a capacidade de rastreamento e diagnóstico.”

A rapidez também é decisiva para o desfecho clínico. “Quanto mais cedo você faz o diagnóstico, mais rápido consegue iniciar o tratamento e menores são as chances de complicações. Reduzir de quatro ou cinco dias para 15 minutos pode ser a diferença entre um caso simples e uma internação grave.”

Um dos diferenciais da ferramenta é a capacidade de identificar os dois principais tipos do parasita no Brasil, o Plasmodium vivax e o Plasmodium falciparum. “O vivax é mais frequente e costuma ser menos grave, mas o falciparum é uma emergência médica“, explica Demarch. Quando ele é detectado, o paciente precisa ser encaminhado imediatamente para atendimento especializado.

O tempo prolongado até o diagnóstico também compromete a qualidade do exame. “As células do sangue podem se degradar, perder o formato, o que dificulta a identificação do parasita e dos seus estágios”, diz o médico. “Antecipar a leitura da lâmina melhora não só a velocidade, mas a precisão.”

Segundo Leandro Rosa dos Santos, vice-presidente de Estratégia e Inovação da Positivo Tecnologia, a iniciativa já tem um caminho aberto para chegar à rede pública uma vez que o Ministério da Saúde está ampliando as unidades básicas de saúde itinerantes, inclusive fluviais, dentro da estratégia de saúde digital.

O impacto vai além da clínica. “Quando o diagnóstico é feito na hora, o paciente não precisa voltar outro dia nem esperar pelo resultado. O médico já define o tratamento e isso reduz custos para o sistema e aumenta a chance de recuperação.”

O projeto ainda está em fase de pesquisa e desenvolvimento. “São cerca de 24 meses para coleta de dados, construção do algoritmo e validação clínica”, afirma Demarch. “Se tudo correr como esperamos, ao final desse período a ferramenta estará pronta para uso.”

Para ele, o projeto materializa uma visão de inovação voltada ao impacto real. “Estamos treinando um algoritmo a partir de dados da própria amazônia e integrando isso a uma plataforma portátil. É uma inteligência artificial pensada desde a origem para ser aplicada no SUS, validada no campo e escalável.”

A tecnologia pode ajudar ainda no enfrentamentos dos novos desafios impostos pelas mudanças climáticas, que têm ampliado a área de dispersão do mosquito transmissor e alterado a dinâmica da doença, exigindo respostas mais ágeis.

Nos próximos meses, o Malar.IA entrará em uma etapa crucial: a validação clínica. Cerca de 320 participantes terão seus exames analisados tanto pelo algoritmo quanto pelos métodos laboratoriais tradicionais, permitindo medir a acurácia da inteligência artificial.

O projeto também inaugura uma frente de investimentos privados em pesquisa na região, ao ser o primeiro desenvolvido pelo Einstein e pela Positivo sob o escopo da Lei de Informática na Amazônia. A expectativa é que a experiência abra caminho para a aplicação da mesma lógica em enfermidades como tuberculose, leishmaniose e doença de Chagas, todas com grande impacto em populações vulneráveis.

Autor: Folha

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