Algo de novo no front dos psicodélicos: Hystelica, uma ONG de pesquisa para estudar impactos peculiares dessas substâncias nos corpos e nas mentes das mulheres. Já se sabe que hormônios femininos como estradiol e progesterona modulam o efeito dos modificadores de consciência, mas não exatamente como e por quê.
Encabeçando a iniciativa está uma neurocientista e reservista do Exército britânico de 34 anos, Grace Blest-Hopley. Ela chefia ainda as áreas de pesquisa na empresa NWPharmaTech e noutra ONG, Heroic Hearts Project, que se dedica à saúde mental de veteranos de guerra, entre os quais é alta a taxa de suicídios (18 por dia nos EUA e 14 por ano no Reino Unido).
Blest-Hopley apresentou os argumentos em favor do campo pioneiro em artigo de 16 de janeiro no boletim da Maps, a Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos. Ela quer saber se períodos do ciclo hormonal afetam o metabolismo de drogas como ayahuasca, psilocibina e MDMA, muito usadas em estudos clínico e em retiros para tratar ex-combatentes com depressão e estresse pós-traumático.
O estrogênio, grupo hormonal do estradiol, influencia a ação da serotonina, neurotransmissor estreitamente relacionado com o efeito psicodélico, além de outros como dopamina e glutamato. Esse estado alterado de consciência envolve a ativação do receptor de serotonina 5HT2a em células neurais, o que reforça a hipótese de hormônios femininos modularem esse processo –e vice-versa.
Mulheres consumidoras de psicodélicos relatam mudanças em seus ciclos menstruais, como regularização do período. Cabe lembrar que Albert Hofmann descobriu o LSD enquanto conduzia estudos em busca de medicamentos ginecológicos para a farmacêutica Sandoz a partir de um fungo parasita do centeio, em 1938 (e faria com ele a primeira viagem psicodélica intencional, em 1943).
A neurocientista quer agora ir além das evidências anedóticas e de ensaios animais para desvendar o que ocorre em fêmeas humanas. A pesquisa psicodélica não difere da ciência normal nessa omissão, pois estudos raramente discriminam resultados levando em conta o sexo de voluntários, para não falar da participação majoritária de homens nas amostras e até da exclusão de mulheres menstruadas.
Em parceria com o King’s College de Londres, a Hystelica lançou uma pesquisa com mulheres em que elas responderão a quatro questionários, antes e depois de experiências psicodélicas planejadas. O propósito é identificar riscos potenciais para a saúde feminina implícitos nas viagens subjetivas.
“Para que os psicodélicos cumpram sua promessa, o sexo precisa deixar de ser tratado como uma variável de confusão e começar a ser reconhecido como um fator determinante”, escreveu Blest-Hopley no Maps Bulletin.
Resultados preliminares sugerem que a psilocibina de cogumelos Psilocybe (apelidados de “mágicos”) pode amortecer a volatilidade emocional antes do período menstrual e até a depressão pós-parto. Dores crônicas femininas e sintomas do climatério também estão na mira da pesquisadora.
Quatro anos atrás, em entrevista para o boletim Blossom, questões de gênero não apareciam ainda no radar de Blest-Hopley. Ela se limitou então a falar com entusiasmo do envio de soldados britânicos traumatizados para se tratar em retiros psicodélicos, viagens ao exterior que a Heroic Hearts começava a organizar no país.
Se trabalhasse nos EUA, a neurocientista talvez precisasse retomar esse foco militar, ora a maior promessa de avanço para terapias psicodélicas. Já estudos fundados em gênero, como o seu, pelejariam para encontrar financiamento, se é que não seriam proibidos como incursão no terreno minado da diversidade, equidade e inclusão.
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Autor: Folha








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