sábado, dezembro 27, 2025

Psicodélicos: exigir termo ‘enteógeno’ é autoritário – 18/12/2025 – Virada Psicodélica

Faz certo tempo que venho sendo censurado nas redes sociais por manter o uso do termo “psicodélico” para qualificar substâncias que zelotes preferem chamar de “enteógenos”. Alguns, talvez, com a boa intenção de aliviar tal vocabulário de sua bagagem contracultural –mas no geral é mesmo uma tentativa de santificar sua radicalidade com um manto místico, de sabedoria ancestral.

Imagine se alguém iria ler um blog intitulado Virada Enteogênica. Nem pensar. Embora poucos consigam dar definição inequívoca de psicodélico, o adjetivo sentou praça há sete décadas no imaginário social, substantivamente, e não serão puritanos da ciência ou da espiritualidade a conseguir erradicá-lo.

Palavras têm história, não só etimologia. Começando pela última, cabe lembrar que o neologismo surgiu na década de 1950 na correspondência entre Humphry Osmond e Aldous Huxley, em que o médico prevaleceu sobre o escritor ao defender as raízes gregas para exprimir algo capaz de revelar (dêlon) a alma (psiquê).

Osmond criou o vocábulo por insatisfeito com “psicotomimético” (indutor de psicose) e com “alucinógeno” (gerador de imagens falsas), termos mais usados para se referir com forte carga negativa aos compostos LSD, mescalina e psilocibina. Seriam quando muito expressões de aspectos parciais da multifacetada experiência psicodélica, que aliás negligenciam o principal, sua capacidade de iluminar conteúdos mentais latentes.

A promessa de autoconhecimento e belas visões coloridas (não necessariamente alucinações) capturou a imaginação dos hippies, que elegeram a psicodelia como marca da geração que lutou contra a guerra do Vietnã e pelo amor livre nos anos 1960/70. Deu ruim: Nixon declarou guerra às drogas, e o proibicionismo venceu.

Foi após tamanho revertério que surgiu “enteógeno” (algo como gerador do divino interno), uma palavra com etimologia e história não menos carregadas. Vacas sagradas do campo psicodélico como Albert Hofmann, Gordon Wasson, Jonathan Ott e Richard Evans Schultes pretendiam com ela contornar o estigma associado a “uso recreativo” e reabilitar uma origem nobre, o emprego ritual de “plantas de poder” como peiote, chacrona e jagube (da ayahuasca) por povos originários.

O próprio Ott, porém, combateu num texto de 2011 o que alcunhou de “neocalvinismo xamânico”. Ao popularizar receitas para produzir “anahuasca” (análogos de ayahuasca), ele afirmou: “Eu desejava ajudar as pessoas a se esquivarem da proibição de enteógenos e das tentativas da parte de grupos religiosos modernos de cooptar e monopolizar a ‘tecnologia xamânica’, que é um patrimônio comum de toda a humanidade”.

Hoje, a exigência peremptória de falar sempre de enteógenos e não de psicodélicos evoca essa atitude carola de domesticar substâncias, enclausurando-as no cercadinho dos rituais religiosos e das experiências místicas. Pressupõe que seu uso só se justifica se tiver um propósito elevado, de entrar em contato com deidades, a luz divina, a realidade última, a verdade eterna etc. Ateus? Credo.

Puritanismo semelhante inspira a proposta de trocar “psicodélicos” por “psicoplastógenos”, substituição esta de ordem farmacológica e não linguística. Trata-se de livrar de efeitos psicodélicos compostos inspirados nos alteradores de consciência, modificando as moléculas para diminuir ou eliminar sua afinidade com um receptor de serotonina (5HT2a) tido como mecanismo de ação comum aos psicodélicos clássicos LSD, mescalina, psilocibina e dimetiltriptanima (a DMT da ayahuasca e do vinho da jurema-preta).

Circunscrever à experiência mística o uso e o efeito psicodélicos, de um lado, e eliminá-los de vez formulando comprimidos mais palatáveis ao conservadorismo neuropsiquiátrico e à indústria farmacêutica, de outro, são sintomas graves do autoritarismo que veda a indivíduos autônomos fazer com seus corpos e mentes o que bem entenderem.

Não que eventuais psicoplastógenos não possam tornar-se opção para mitigar o sofrimento psíquico de quem recusa viagens lisérgicas. Que continuem as pesquisas. Mas é fundamental manter o campo aberto para protocolos de tratamento que concebem a experiência subjetiva e sua integração com psicoterapia como componente imprescindível do processo de cura.

E também, por que não, para o uso adulto, leigo, não clínico nem religioso, como de resto consagrado na radicalidade libertária da tradição… psicodélica.

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