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Psicodélicos: o risco da rota problemática da Cannabis – 12/02/2026 – Virada Psicodélica

Nesta segunda-feira (9) o New York Times publicou o editorial “Está na hora de os EUA admitirem que têm um problema com maconha”. Não recuava da defesa da descriminalização, mas alertava para os efeitos deletérios do comércio autorizado. Sairá algum dia um editorial dizendo algo parecido sobre psicodélicos?

Há 13 anos, diz o texto, nenhum estado autorizava uso recreativo de Cannabis. Hoje a maioria dos americanos pode fumar seu baseado legalmente, e 18 milhões deles (7% da população adulta) fazem uso quase diário –o triplo do que se observava em 2012. Há mais gente lá usando maconha todo dia do que bebendo álcool.

As consequências só vêm depois, diria o conselheiro Acácio. Entre as não previstas está a síndrome de hiperêmese (vômitos contínuos) por abuso de maconha, que acomete 2,8 milhões nos EUA. Aumenta também o atendimento hospitalar de surtos psicóticos relacionados com Cannabis.

Observa-se tendência semelhante com psicodélicos, como a psilocibina de cogumelos “mágicos”, e isso antes de qualquer regulamentação federal. Cresce a repercussão positiva de estudos clínicos para depressão, ansiedade e estresse pós-traumático, e com ela o uso clandestino (7 milhões de indivíduos, nos EUA).

Serviços de emergência reportam mais casos de surtos de pânico e paranoia após ingestão de cogumelos e outros psicodélicos. Um contingente pequeno, porém: apenas 1,6% do total de atendimentos relacionados com uso de substâncias.

O paralelo revela-se imperfeito. São drogas bem diferentes: maconha não induz, a não ser talvez em altas doses, o grau de dissociação e exuberantes manifestações visuais deslanchadas por psilocibina, LSD ou DMT (presente na ayahuasca).

Difícil imaginar tais compostos vendidos em lojas especializadas, para consumo individual livre, como ocorre lá com maconha. Mesmo onde cogumelos se tornaram disponíveis após referendos, como Oregon e Colorado, só podem ser ingeridos em centros autorizados e sob supervisão de um “facilitador” licenciado.

Noutros estados, como Novo México, o modelo em discussão segue o paradigma clínico de países como Austrália, Alemanha, Canadá, República Tcheca e Suíça. Sob regras que variam de país a país, médicos podem receitar psilocibina e MDMA em situações muito especiais.

Em todos os casos, o acesso se faz com preços elevados, raramente cobertos por seguros de saúde, pois se trata de substâncias ainda proibidas. Uma aplicação de psilocibina ou MDMA, em geral precedida por ao menos um encontro de preparação e sucedida por outro de integração, dificilmente sai por menos de mil dólares (R$ 5.200) e pode alcançar vários milhares.

Pessoas com transtornos mentais, como veteranos de guerra, recorrem a igrejas e retiros espirituais onde as substâncias são “consagradas”. No Brasil e nos EUA, a ayahuasca está legalizada para uso religioso, mas há grande variedade de centros alternativos e comunidades indígenas –e noutros países como Peru, Costa Rica e México– que a oferecem, além de cogumelos, peiote, jurema-preta e rapé com DMT.

Costuma ser seguro, mas nem sempre. Num levantamento com 48 retiros que anunciam psicodélicos, a maioria (73,5%) excluía pessoas com certas condições médicas e exigia interrupção de antidepressivos (87,8%), mas por períodos que variavam de 1 dia a 6 semanas. Mais preocupante é que um quarto funciona sem pessoal residente capacitado para atendimentos de emergência.

Quanto mais tempo demorar a regulamentação terapêutica de psicodélicos, maior o incentivo para a proliferação de centros em que o uso dessas substâncias poderosas nada tem de responsável. Mesmo quem defende a descriminalização de seu uso adulto deve preocupar-se com as consequências não pretendidas.

Ao subestimar o poder do mercado de massificar e corromper o consumo de plantas e substâncias psicoativas em uso há milênios, como tabaco, álcool, coca e maconha, há risco de ver a reputação de psicodélicos, hoje em alta, despencar ladeira abaixo. Aí virão os editoriais e artigos de mea-culpa, quiçá neste blog.

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Autor: Folha

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