O ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega relacionou a condução econômica ao longo dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e do Partido dos Trabalhadores à permanência do país em um ciclo de baixo desenvolvimento. “O PT é uma das causas de o Brasil continuar pobre”, disse o economista, que lança um novo livro no qual revisita a trajetória econômica do país e os obstáculos que impedem o país de enriquecer.
Maílson sustenta que o país precisa de “um partido de esquerda moderno, competitivo para se contrapor à direita e equilibrar o jogo político”, mas afirma que “o PT não é esse partido”. “O PT tem ideias equivocadas, precisa mudar para o bem dele e do país”, disse ao Poder360.
Para o ex-ministro, a principal causa da armadilha do baixo crescimento está “na má qualidade da educação”, que é “peça fundamental para a preparação de mão de obra qualificada, lideranças empresariais e do setor público e para a inovação”. Sem avanço consistente nessa área, afirma, o país compromete a produtividade e o crescimento de longo prazo.
O cenário de fundo, no enanto, é a orientação econômica do PT, que “nasceu com ideias que já estavam ultrapassadas nos anos 80” e mantém uma visão centrada no gasto público. “Lula, dia sim, outro também, diz que a economia funciona se você puser dinheiro na mão dos pobres. Mas a economia tem dois lados: demanda e oferta”. Para ele, estimular apenas a demanda, sem aumento da produtividade e da oferta, gera desequilíbrios e inflação — “que prejudica sobretudo os pobres”.
Essa visão, para ele, tem reflexo direto na falta de controle orçamentário e, consequentemente, na política monetária. “A explicação da taxa de juros alta no Brasil é a insustentabilidade fiscal”. O crescimento das despesas obrigatórias e as vinculações constitucionais engessam o roçamento e promovem um cenário em que não sobrará espaço para investimentos, “sem sobrar 1 centavo para cultura, ciência, investimentos”.
O caminho, defende, são reformas estruturais. “É preciso outra reforma da previdência.” A do governo Bolsonaro, segundo ele, não surtiu todos os efeitos esperados e parte foi corroída pelo restabelecimento da vinculação de aposentados e pensionistas no governo Lula”,a firma. “O Brasil é o único país que vincula receitas de impostos a gastos com educação e saúde.”
Sem isso, afirma, o país tem encontro marcado com uma crise fiscal. “Essa crise está anunciada desde a Constituição de 1988” e decorre de escolhas feitas na redemocratização. “Acompanhei a formulação de dentro do governo”, diz, ao lembrar que o Brasil optou por “montar um Estado de bem-estar semelhante ao europeu em um país que não tinha ficado rico”.
Segundo ele, os constituintes queriam “eliminar a pobreza e a desigualdade” — “Nada contra, isso é bom”. O problema foi o caminho adotado. “Em outros países, isso aconteceu pelo desenvolvimento”, afirma, citando a China, que “tirou 800 milhões de pessoas da pobreza promovendo o crescimento acelerado da economia, não Estado de bem-estar”.
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Agro é uma exceção de competividade, diz Maílson
Maílson da Nóbrega reconhece que o Brasil possui setores com competitividade global, mas afirma que isso não resolve o problema estrutural de baixa produtividade da economia. Ele aponta o agronegócio como um dos poucos segmentos com eficiência e destaque internacional, sem o qual o país “não vai conseguir alavancar um ciclo de crescimento sustentado”.
Segundo o economista, o avanço do agro não foi casual. Ele atribui o salto de produtividade ao trabalho da Embrapa, destacando que o resultado veio de “pesquisa” e “tecnologia” adaptadas ao clima tropical, que permitiram transformar o Cerrado em área produtiva. Para Maílson, foi essa base científica que tornou o setor eficiente e competitivo no cenário internacional.
Ainda assim, ressalta que se trata de um caso isolado: “o agronegócio se tornou um dos mais relevantes do mundo”, porém, sem educação de qualidade e reformas que elevem a competitividade de forma ampla, “o Brasil continuará preso a um desempenho fraco”.
Outro problema que aprofunda a crise de competitividade é o tamanho do Estado e a resistência do PT às privatizações. “Não há razão de natureza política, econômica ou estrutural para ter empresas estatais no Brasil”, disse, acrescentando que “é um anátema falar de privatização no PT”.
Sócio da Tendências Consultoria, Maílson afirma que uma das teses do grupo é que, mesmo se o PT vencer as eleições de 2026, dificilmente será competitivo em 2030. “Vai ser preciso que haja um colapso de expectativas, uma fuga de capitais, uma crise financeira para o PT se convencer que tem que fazer alguma coisa. Aí pode ficar tarde.” E conclui: “Nós aqui da Tendências temos a avaliação que, mesmo se o PT ganhar as eleições em 2026, duvidamos que será competitivo nas eleições de 2030.”
Autor: Gazeta do Povo








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