O filho de um rei, quem diria, já teve vergonha do pai.
Era início da década de 1980. O menino Edinho, um dos três filhos do casamento de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, com Rosemeri Cholbi, vivia em Nova York, cidade do Cosmos, time onde seu pai havia jogado alguns anos antes.
A passagem do craque pelo clube de Manhattan havia dado mais visibilidade ao futebol nos Estados Unidos, mas não tinha sido o suficiente para que o esporte fizesse frente ao basquete, por exemplo.
Na escola, ora um colega falava que o pai era médico; ora outro dizia que o pai era engenheiro. “Eu ficava pensando: ‘Meu pai é jogador de futebol, aqui ninguém sabe bem o que é isso’. Eu tinha vergonha!”, conta o ex-goleiro, atualmente treinador.
Essa é uma das passagens curiosas de “Rei – o Livro sobre o Homem Incomparável a quem Tentam se Comparar Há 70 Anos”, recém-lançado pelo jornalista Paulo Vinicius Coelho, o PVC.
A publicação lembra os principais episódios da carreira extraordinária do atleta, que morreu em dezembro de 2022. Aborda ainda os casamentos, as relações com os sete filhos, a convivência com os fãs e as atuações como ministro, empresário e comentarista de TV.
Trata-se de uma biografia, embora PVC evite classificar a publicação dessa forma. “Li as biografias feitas por Ruy Castro e Fernando Morais, por isso tenho um certo pudor [de me referir ao livro dessa maneira].”
É certo que “Rei” não se aproxima, por exemplo, da quantidade de informações e do esmero narrativo de “Estrela Solitária”, livro sobre Garrincha assinado por Ruy. De qualquer modo, o trabalho cumpre os requisitos básicos de uma biografia, ao retratar a trajetória de Pelé com base em entrevistas e pesquisas em jornais e documentos antigos.
O autor descreve a vida bastante modesta do casal Dondinho e Celeste em Três Corações (MG), onde Edson nasceu em 1940. Foi em Bauru (SP), no entanto, que passou a maior parte da infância. O mirrado Dico, seu apelido na época, começou a virar notícia no time de garotos do BAC, o Bauru Atlético Clube.
Com 15 anos, ele foi levado por Waldemar de Brito, então técnico do BAC, para o Santos. Pepe, o Canhão da Vila, conta ter ouvido o anúncio de Brito em julho de 1956: “Eu vim trazer um gênio”.
Pepe, Clodoaldo e Lima, que jogaram ao lado de Pelé no Santos, estão entre os cerca de 25 nomes entrevistados por PVC, lista que inclui o já mencionado Edinho.
Nos capítulos dedicados às Copas, o autor revive os lances desconcertantes, mesmo aqueles que não se converteram em gol.
Na estreia da seleção em 1970, contra a Tchecoslováquia, o placar indicava 1 a 1 no final do primeiro tempo. A partida estava tensa.
Pelé, escreve PVC, “caminhou com a bola, pouco atrás do meio de campo”. “Parecia olhar para o chão, mas sua visão de 360º percebeu o goleiro Viktor perto da risca da grande área. Chutou. A bola percorreu 60 metros voando desde o grande círculo até beijar a trave esquerda e sair em tiro de meta, ante o olhar perplexo do arqueiro tcheco”.
Na goleada por 4 a 1 contra os tchecos, Pelé foi o melhor em campo.
O autor também contempla situações em que o rei deixou a nobreza de lado. Há, por exemplo, um capítulo dedicado a Sandra Regina, filha só reconhecida depois de cinco anos de batalhas judiciais.
No final da entrevista sobre o livro, vem a pergunta óbvia e inevitável: Pelé ainda é o maior jogador de futebol da história?
PVC não responde diretamente. Prefere lembrar um trecho do texto que está na contracapa do seu novo livro. “Ser Rei é viver 82 anos e passar 66 deles ouvindo que Di Stéfano pode ter sido melhor; que Puskás pode ter feito mil gols, mas não tem lista; que Eusébio pode ter sido mais rápido; Cruyff, mais cerebral; Maradona, mais carismático; Messi e Cristiano Ronaldo terem mais gols em partidas oficiais, com súmula. E, durante esses 66 anos, o ponto de comparação é sempre o mesmo: Pelé. Isso é ser Rei. Isso é ser Pelé.”
Autor: Folha











