Os transtornos causados por bailes funks e pancadões clandestinos cresceram 9,2% em um ano na cidade de São Paulo e, segundo a Polícia Militar, vêm sobrecarregando os sistemas de denúncia corporação.
As queixas chegam aos montes em dias de evento, subindo ano a ano, de acordo com levantamento da PM paulista. De janeiro a dezembro de 2025, foram registrados 104.555 chamados relacionados aos eventos, ante 95.718 no ano anterior.
A PM alerta que os dados contêm duplicidades, ou seja, um mesmo solicitante ou moradores de um mesmo endereço podem realizar diversos chamados, o que gera mais de um registro para a ocorrência.
O total de chamadas por perturbação de sossego também cresceu de um ano para outro na cidade, passando de 534.543 em 2024 para 553.797 no ano passado —3,6% de aumento. Conforme a Polícia Militar, além do telefone 190, as denúncias também podem ser feitas pela internet, por meio do aplicativo 190 SP.
Bairros periféricos das zonas norte, sul e leste são os recordistas de reclamações relacionadas aos bailes funks ilegais. O som das potentes caixas instaladas principalmente em veículos se expande por várias quadras, incomodando até moradores a centenas de metros de distância do ponto principal.
Diante de tantos chamados, a PM disse realizar inúmeras operações voltadas à prevenção e à tentativa de inibir os bailes clandestinos. “Cada uma dessas ações mobiliza grande quantidade de efetivo policial, que deixa de atender outras ocorrências emergenciais para atuar nessas operações.”
A ocupação antecipada das vias por policiais militares muitas vezes se mostra ineficaz, uma vez que os organizadores avisam aos frequentadores e todos migram para regiões próximas.
Um morador de 53 anos do Jardim Elisa Maria, bairro da zona norte da capital paulista, disse que perde o sono às sextas, sábados e domingos, dias em que os bailes tomam conta da rua onde ele vive com a família.
Além do barulho das caixas de som, ele lista o zumbido de motos sem escapamento e o uso de drogas como problemas. O vizinho da aglomeração ainda afirmou que os participantes estão cada vez mais afrontosos, desrespeitando os moradores.
O homem se queixa de um jogo de empurra-empurra entre as autoridades no controle da situação. Ele relata que liga para a Polícia Militar em busca de ajuda, mas que o atendimento cai em uma mensagem eletrônica, que em nada auxilia na contenção do problema. Ao ligar para a GCM (Guarda Civil Metropolitana), ligada à prefeitura, a resposta é que a demanda deve ser direcionada para a PM.
Integrante da associação de moradores da Brasilândia, na zona norte, Henrique Deloste aponta que a falta de apoio da gestão Ricardo Nunes (MDB) na região está diretamente relacionada à busca de festas clandestinas pelos jovens.
“Os bairros de fundão são os que mais sofrem com a falta de entretenimento e equipamentos públicos. No fim de semana, o jovem não encontra opção de lazer e acaba procurando o pancadão. Pancadão que atrai gente boa e gente ruim. Por outro lado, a gente tem a ausência do poder público que, quando procurado, é omisso, não atende às reivindicações”, afirma.
Deloste deu como exemplo festas em sua região em dezembro e em janeiro em que foi solicitado apoio à Casa Civil da Prefeitura de São Paulo, mas o pedido não foi atendido.
“A gente depende muito de estrutura de palco, som, para conseguir organizar as ações. E quando a gente faz esse pedido de estrutura de palco junto à Casa Civil da Prefeitura de São Paulo, na maioria das vezes é negado.”
Procurada, a Prefeitura de São Paulo não se pronunciou sobre a falta de apoio apontada pelo representante da associação.
Uma moradora de 51 anos de Cidade Tiradentes, bairro na zona leste com alta incidência de queixas, classifica o barulho como insuportável. Uma mistura produzida por motocicletas, gritaria, quebra de garrafas e brigas. A mulher cita que as ações de dispersão feitas pela PM também trazem incômodos, como cheiro de gás lacrimogêneo e de spray de pimenta.
Em 1º de dezembro de 2019 uma ação da Polícia Militar dentro da favela Paraisópolis, na zona sul, durante um baile funk deixou nove pessoas mortas. O Ministério Público de São Paulo pediu à Justiça no final de janeiro deste ano que 12 policiais militares sejam levados a júri popular para o julgamento de sua responsabilidade no caso. A defesa afirma que os PMs não tiveram intenção de provocar mortes, e que a ocorrência teve início a partir de uma perseguição a uma motocicleta com dois suspeitos, que teriam atirado contra policiais.
A Polícia Militar disse reconhecer o baile funk como manifestação cultural popular e afirma que o enfrentamento dos eventos clandestinos exige uma ação integrada entre os mais diferentes órgãos públicos, como a Polícia Civil, para investigação, e a prefeitura, com a GCM, para fiscalização.
Em nota, a Secretaria Municipal das Subprefeituras afirmou que suas 32 unidades executam ações de fiscalização em adegas e bares, com o apoio da PM e da GCM, “de forma preventiva, antes da formação de aglomerações”.
A gestão Ricardo Nunes disse que, nos casos em que já há ocorrência desses eventos, a fiscalização das subprefeituras não é feita devido aos riscos que a operação pode oferecer às equipes e ao público. “Nestes casos, o poder público recomenda que o munícipe acione a Polícia Militar”.
O município ainda acrescenta que não possui dados segmentados por tipo de ocorrência.
Procurado, o Ministério Público afirmou que os transtornos causados pelos eventos são analisados pela Promotoria de Justiça de Habitação e Urbanismo da Capital.
Autor: Folha








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