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Racismo contra Vinicius Junior escala na Europa – 18/02/2026 – Esporte

Os insultos racistas contra Vinicius Junior se tornaram revoltantemente comuns nos gramados europeus. O craque brasileiro já abriu mais de duas dezenas de processos junto à Justiça espanhola, e dois deles resultaram em condenações históricas. No jogo entre Benfica e Real Madrid, nesta terça-feira dia 17 em Lisboa, a infâmia escalou a um novo padrão. Pela primeira vez as acusações de Vinicius se dirigiram a um companheiro de profissão.

Enquanto os companheiros de equipe e até ídolos de outros clubes correram em apoio ao atacante da seleção brasileira, o lisboeta Benfica declarou “acreditar plenamente” na versão apresentada por seu jogador.

Aos cinco minutos do segundo tempo, Vinicius bailou de forma desconcertante à frente do lateral benfiquista Amar Dedic, acertou um chute em curva fora do alcance do goleiro adversário, o gigante Anatoliy Trubin, e anotou um dos gols mais bonitos desta edição da Liga dos Campeões, o maior torneio de clubes do mundo. Na comemoração, fez sua tradicional e bem-humorada dancinha, em frente à bandeira de escanteio, o que lhe valeu um cartão amarelo. O juiz francês François Letexier considerou que Vinicius provocara a torcida adversária.

Seguiu-se um momento de tensão entre os jogadores dos dois times. Quando todos se preparavam para reiniciar a partida, Vinicius correu em direção ao árbitro acusando de ofensas racistas Gianluca Prestianni, atacante argentino do Benfica. Letexier, acertadamente, interrompeu o jogo, levantando os braços cruzados em forma de X, sinal de protocolo racista. A partida ficou parada por cerca de dez minutos. Prestianni não foi punido porque cobriu a boca com a camiseta quando se dirigiu a Vinicius, impedindo que o VAR fizesse algum tipo de leitura labial.

Logo depois do jogo, o atacante francês Kylian Mbappé, protagonista do time do Real Madrid ao lado de Vinícius Júnior, deu uma entrevista dura em espanhol: “O número 25 do Benfica, não quero dizer o nome porque ele não merece, com a camiseta em frente à boca, chamou (Vinícius Júnior) de ‘mono’ (macaco) cinco vezes. Os jogadores ouviram, alguns do Benfica também”.

“Neste tipo de situações temos que falar de forma clara”, seguiu Mbappé. “Tenho o máximo respeito pelo Benfica, pelo seu treinador, que foi um dos melhores da história do Real Madrid. Tenho amigos portugueses, sempre fui bem tratado em Portugal, tenho o maior respeito pela torcida do Benfica. Mas este jogador para mim não merece jogar mais a Liga dos Campeões. Temos de dar os melhores exemplos aos jovens. Se deixarmos passar esse tipo de situação os valores do futebol não servem para nada.”

Como muitos outros jogadores, de Maradona a Neymar, Vinicius tem um perfil provocador, mas jamais mentiu sobre os casos de racismo contra ele. Mbappé estava ao lado de Prestianni quando este se dirigiu a Vinicius, assim como outro jogador do Real Madrid, o franco-angolano Eduardo Camavinga —que igualmente deu entrevistas depois do jogo defendendo o craque brasileiro. Para Camavinga, o juiz deveria ter decretado o final do jogo, e não apenas uma paralisação. A partida acabou com o placar de 1 a 0 para o Real Madrid.

“Racistas são, acima de tudo, covardes. Precisam colocar a camisa na boca para mostrar como são fracos”, escreveu Vinícius Júnior em suas redes sociais. “Não gosto de aparecer em situações como essa, ainda mais depois de uma grande vitória, quando as manchetes têm que ser sobre o Real Madrid, mas é necessário.”

Em suas redes sociais, Prestianni negou a ofensa racista: “Quero esclarecer que em nenhum momento dirigi insultos racistas ao jogador Vinícius Júnior, que lamentavelmente interpretou mal o que crê ter escutado. Jamais fui racista e lamento as ameaças que recebi de jogadores do Real Madrid”.

A UEFA, entidade que dirige o futebol europeu, declarou, através de seu porta-voz, que os relatórios do jogo estão sendo revistos para saber se é o caso de abrir um processo de investigação. A súmula do juiz Letexier será enviada ao Comitê de Controle, Ética e Disciplina da entidade. Pelo regulamento da UEFA, ofensas racistas devem ser punidas com pelo menos dez jogos de suspensão. Se o processo for aberto Prestianni será ouvido e poderá dar sua versão.

Vinicius não foi apoiado apenas por seus companheiros de clube. Thierry Henry, um dos maiores atacantes da história do futebol francês e ídolo máximo do Arsenal —e também do prefeito novaiorquino Zohran Mamdani, torcedor fanático do clube londrino— disse num programa esportivo da televisão britânica: “Este indivíduo (Prestianni) tem que responder ao que Mbappé disse. Por que você, Prestianni, tampou a boca? Eu não preciso especular, eu acredito em Kylian”.

Em nota, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) apoiou Vinicius. “Racismo é crime. É inaceitável. Não pode existir no futebol nem em lugar algum. Vini, você não está sozinho. Sua atitude de acionar o protocolo é exemplo de coragem e dignidade. Temos orgulho de você.”

O Benfica, por sua vez, publicou comunicado no qual diz que “apoia e acredita plenamente na versão apresentada” por Prestianni, jogador que, de acordo com a direção, sempre demonstrou “respeito pelos adversários, pelas instituições e pelos princípios que definem a identidade benfiquista.”

“O clube lamenta a campanha de difamação de que o jogador tem sido vítima”, assinalou o Benfica.

Em suas redes sociais, o clube português já havia afirmado que os jogadores do Real Madrid não estavam perto de Prestianni o suficiente para ouvir o que o argentino disse ao brasileiro —as imagens da televisão mostram o contrário.

Um perfil ligado ao clube também repostou a mensagem em que Prestianni nega a ofensa racista. Em entrevista dada depois do jogo, o técnico do Benfica, José Mourinho, disse que havia ouvido uma versão diferente de cada jogador e por isso se manteria “equilibrado” —e depois fugiu do assunto ao acusar Vinicius Junior de provocar a torcida do Benfica na comemoração do gol.

Na frente do Estádio da Luz, casa do Benfica, há uma estátua do maior jogador da história do clube, o atacante Eusébio, artilheiro da Copa de 1966 disputada na Inglaterra. Nascido em Moçambique, Eusébio era negro e, em entrevistas, disse ter sido vítima de racismo em vários momentos de sua carreira. No ano passado, a Federação Portuguesa de Futebol lançou uma nova versão da camiseta da seleção, na cor negra, em homenagem ao craque.

“O clube reafirma, de forma clara e inequívoca, o seu compromisso histórico e intransigente com a defesa dos valores da igualdade, do respeito e da inclusão, que vão ao encontro dos valores matriciais da sua fundação e que têm em Eusébio o seu símbolo maior”, destacou o Benfica no comunicado desta quarta.

Autor: Folha

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