domingo, novembro 30, 2025

Ramon Dino e o risco da popularização do fisiculturismo – 11/11/2025 – Bruno Gualano

O astro Ramon Dino conquistou o Mr. Olympia na categoria Classic Physique —hoje a mais popular do fisiculturismo. Cada homenagem rendida ao talentoso e perseverante atleta acreano é merecida. Sua veneração mundial é fruto de um desempenho impecável. Mas este texto não trata do feito de Dino, e sim do esporte que ele ajuda a impulsionar.

Para ciência do leitor não iniciado, o fisiculturismo (não confundir com musculação, que é mero treinamento com pesos) é um esporte centrado na estética, julgada pela simetria e proporção corporal, pelo volume e definição muscular e pela apresentação em palco, que inclui poses obrigatórias.

Para esculpir seus corpos, fisiculturistas seguem rotinas extremas, com treinos intensos, dietas rigidamente controladas e restrições à vida social e ocupacional. A pressão pela excelência torna regra o descontentamento com o corpo. Em um estudo com 38 mulheres, 84% relataram sofrimento por se perceberem insuficientemente musculosas ou magras. Entre homens, a insatisfação também é comum: Arnold Schwarzenegger, mesmo após cada título no Mr. Olympia, dizia olhar-se no espelho e pensar: “como esse monte de merda venceu?”. Essa condição, vivida pelo maior astro da modalidade e por muitos praticantes, tem nome: dismorfia muscular —a preocupação patológica de não ser “grande” ou “musculoso” o suficiente, mesmo quando a realidade diz o contrário.

Estima-se que 37% a 47% das mulheres fisiculturistas também estejam sob risco de transtornos alimentares, e quase metade recorra a métodos perigosos de controle de peso, como laxantes, diuréticos e vômito autoinduzido. Entre os homens, sejam competitivos ou recreativos, a prevalência pode chegar a 67%.

Até aí, o leitor poderia argumentar que nenhum esporte é sinônimo de saúde, pois a busca obstinada pelo máximo desempenho impõe custos físicos e mentais. Vai bem: dor, exaustão, lesão e burnout não são exclusividade do fisiculturismo, senão deste fenômeno chamado esporte de alto rendimento.

Entretanto, há, na prática do fisiculturismo, um risco aditivo nada trivial: o uso disseminado de esteroides anabolizantes e outras drogas para melhoria de desempenho. Ainda que se possa dizer que a presença de atletas dopados não se restringe ao fisiculturismo, nessa modalidade, não apenas o uso de substâncias dopantes não é controlado como também é um pilar fundamental da preparação do atleta. Daí que não se acha nem um fisiculturista sequer (excetuados aqueles da categoria “natural”) competindo na elite do esporte que não use hormônios. Como não há um único amador que se tornará profissional sem fazê-lo.

Para a surpresa de ninguém, atletas da Federação Internacional de Fisiculturismo e Fitness exibem maior mortalidade —principalmente cardiovascular— do que a população geral e outros esportistas. É o preço das práticas arriscadas adotadas na modalidade, sobretudo o uso abusivo de anabolizantes.

Dino tem falado abertamente sobre sua experiência com essas drogas. Reconhece-as como ossos do ofício e desencoraja iniciantes —ponto para ele. Mas se equivoca ao afirmar que “[anabolizante] faz mal se você fizer o uso incorreto”. O consenso científico é claro: não existe uso “correto” ou seguro de anabolizantes, nem mesmo sob tutela de médicos ou “especialistas” prescritores. Somente esses bombólogos, como devem ser chamados, negarão isso —negacionistas que são.

Pelo momento de êxtase que atravessa o fisiculturismo, soa antipático lembrar que se trata de uma atividade de alto risco. A gravidade das evidências, contudo, desautoriza romantizar a modalidade.


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