segunda-feira, janeiro 12, 2026

Relação do PT com Foro de SP engaja oposição na eleição de 26

A prisão do ditador Nicolás Maduro fez a oposição brasileira reacender o debate sobre a relação do Partido dos Trabalhadores com o Foro de São Paulo, grupo criado em 1990, por iniciativa do então presidente do PT Luiz Inácio Lula da Silva, hoje à frente do Executivo federal, em parceria com o ditador cubano Fidel Castro, reunindo partidos e movimentos de esquerda da América Latina.

Políticos e influenciadores de direita têm resgatado declarações antigas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas quais ele admite que a ascensão da esquerda no continente latino-americano teve participação direta do Foro.

“Quero, companheiro diretor do Foro de São Paulo, debitar parte da chegada da esquerda ao poder na América Latina pela existência dessa ‘cosita’ chamada Foro de São Paulo. Devemos muito aos companheiros cubanos”, disse Lula durante o XIX Encontro do Foro de São Paulo, em 2013.

Além do PT, o grupo reúne outras legendas brasileiras, como PDT, PCdoB e o antigo Partido Comunista do Brasil (PCB). Ao todo, 135 partidos de 27 países da América Latina integram a lista de membros oficiais, incluindo o Partido Socialista Unido da Venezuela, de Maduro, e o Colômbia Humana, do presidente colombiano Gustavo Petro.

Questionado sobre as relações de Lula com o Foro, o líder do PL na Câmara dos Deputados, deputado Sóstenes Cavalcanti (PL-RJ), afirmou que a sigla pretende explorar ao máximo o tema nas eleições de outubro. “O Lula está tentando se esconder para se descolar agora do Maduro, do ditador. Nós vamos explorar isso ao máximo ao longo do ano de 2026”.

Para o cientista político Elton Gomes, professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI), o fortalecimento desse debate que a direita brasileira quer suscitar no ano eleitoral ocorre em meio a uma mudança mais ampla do cenário político regional. Segundo ele, a América Latina vive um movimento de afastamento da esquerda, com avanço de governos de direita e centro-direita, o que pode isolar o Brasil e fragilizar o Foro de São Paulo.

“Há um deslocamento claro da “janela de Overton”, com a substituição da chamada “onda rosa” por governos mais à direita. Nesse contexto, o Brasil, com Lula, e o México acabam se tornando os principais remanescentes desse projeto político, o que aumenta a pressão e o isolamento”, afirmou.

A “janela de Overton” refere-se ao conjunto de ideias e posições políticas consideradas aceitáveis no debate público em um dado período. Já a “onda rosa” é a expressão usada para descrever o ciclo de governos de esquerda ou centro-esquerda que chegaram ao poder na América Latina no fim do século XX e início do XXI.

Para Gomes, esse novo cenário deve estimular a oposição a retomar a associação entre o PT, o Foro e regimes autoritários aliados, algo que, segundo ele, enfrentou restrições durante a campanha de 2022.

Já o cientista político Adriano Cerqueira, professor do Ibmec de Belo Horizonte, avalia que o tema deve continuar presente no debate eleitoral, ainda que de forma secundária. “Não diria que será um tema dominante, mas certamente será citado. Em 2022, virou um tabu, a ponto de haver censura sobre qualquer menção à existência do Foro ou às ligações do Lula com o Maduro”, afirmou.

Para Cerqueira, o contexto internacional mudou e pode abrir espaço para uma exploração mais direta do assunto. “Com a prisão do Maduro e a atuação mais clara dos Estados Unidos na região, ficou evidente que o hemisfério ocidental é tratado como área prioritária de interesse. Isso altera o tabuleiro político”, avaliou.

Ele acredita que a oposição deve explorar o tema sobretudo a partir da segurança pública. “O caminho mais provável é associar o chavismo ao narcotráfico, à violência e à insegurança. Segurança pública é um tema forte em eleições, e é por aí que essa ligação pode ser explorada”, disse.

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Foro de São Paulo foi alvo de debates em campanhas anteriores

Em 2022, o Foro ganhou destaque ao ser citado em processos abertos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pela campanha petista. À época, a direita expôs a relação de Lula com o ditador da Nicarágua, Daniel Ortega, também integrante do grupo. O ministro Paulo de Tarso Sanseverino atendeu ao pedido da coligação do então ex-presidente e determinou que Twitter e Facebook removessem 31 postagens.

A decisão atingiu inclusive um tuíte da Gazeta do Povo, de 22 de setembro daquele ano, que noticiava o corte do sinal da CNN pelo regime de Ortega. Na decisão, Sanseverino afirmou que as postagens apresentavam “conteúdos manifestamente inverídicos” e propagavam desinformação ao associar Lula à defesa de perseguição religiosa e à ditadura nicaraguense.

Com a volta de Lula ao Palácio do Planalto, em 2023, o Foro voltou a ganhar espaço nas redes sociais e passou a mobilizar protestos fora do ambiente digital. Em junho daquele ano, manifestantes protestaram contra a realização do 26.º encontro do Foro de São Paulo, realizado em Brasília.

Antes disso, já na campanha presidencial de 2018, o Foro já havia ocupado espaço central na propaganda política. No primeiro programa eleitoral exibido em rádio e televisão, o então candidato do PSL a presidente, Jair Bolsonaro, citou o grupo e criticou seus fundadores.

“O vermelho é um sinal de alerta para o que não queremos no país. A nossa bandeira é verde e amarela e nosso partido é o Brasil”, dizia a propaganda, que também classificava o Foro de São Paulo como um “grupo político com viés ideológico, comunista, de esquerda, liderado por Lula e Fidel Castro”.

As críticas se intensificaram durante o mandato de Bolsonaro. No discurso de estreia na Assembleia-Geral da ONU, em 2019, Bolsonaro chamou o Foro de São Paulo de “organização criminosa criada em 1990 por Fidel Castro, Lula e Hugo Chávez para difundir e implementar o socialismo na América Latina”.

Segundo o cientista político Marcelo Suano, professor de Relações Internacionais do Ibmec em São Paulo, a reaparição do Foro no debate público em 2026 não é um fenômeno espontâneo, mas acompanha investigações e possíveis revelações envolvendo o regime venezuelano e seus aliados no continente.

“À medida que avançar o processo contra o Maduro e houver esclarecimentos sobre eventual interferência da Venezuela em eleições ou financiamento de projetos políticos na América Latina, isso tende a ser explorado politicamente”, afirmou. Ele lembrou o depoimento do ex-general venezuelano Hugo “El Pollo” Carvajal, que apontou a existência de repasses financeiros para aliados ideológicos no continente.

O que é o Foro de São Paulo

O Foro de São Paulo foi fundado no início da década de 1990 pelo ditador cubano Fidel Castro (1926–2016) e pelo então líder sindical e presidente do Partido dos Trabalhadores Luiz Inácio Lula da Silva, logo após o colapso da União Soviética. O objetivo oficial do grupo era reorganizar a esquerda latino-americana diante do fim do bloco socialista soviético e criar um espaço permanente de articulação política, ideológica e estratégica no continente.

Na declaração final do primeiro encontro, realizado em São Paulo, o Foro afirmou que a construção de uma “sociedade justa, livre e soberana” e do socialismo dependeria da “vontade dos povos” e da renovação do pensamento de esquerda, rejeitando modelos liberais e criticando o que classificava como “imperialismo” dos Estados Unidos.

Desde então, o Foro passou a reunir partidos políticos, governos, movimentos sociais e organizações ativistas de esquerda de toda a América Latina e do Caribe. Ao longo de suas edições, no entanto, a atuação do grupo extrapolou o debate partidário e incluiu manifestações de apoio a organizações armadas e guerrilheiras atuantes na região.

No sétimo encontro do Foro, realizado em 1997, em Porto Alegre (RS), o grupo classificou as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) como “o grupo mais importante” de oposição aos Estados Unidos na Colômbia. À época, as Farc já eram internacionalmente conhecidas por sua atuação armada, envolvimento com o narcotráfico, sequestros, atentados e assassinatos.

Outras organizações guerrilheiras também receberam apoio explícito do Foro de São Paulo no passado, entre elas o Exército de Libertação Nacional (ELN), da Colômbia, e o Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR), do Chile.

O ELN, assim como as Farc, ficou conhecido por sua atuação guerrilheira contra o Estado colombiano. Embora atualmente não figure mais na lista oficial de membros do Foro, o grupo aparece com destaque em documentos e atas da organização. No VIII Encontro do Foro de São Paulo, realizado em 1998, o ELN foi classificado como um movimento “democrático” após a morte de seu então comandante-geral, Manuel Pérez Martínez.

“O VIII Encontro do Foro de São Paulo expressa suas condolências aos companheiros da UCLN da Colômbia, pelo falecimento do companheiro Manuel Pérez, Comandante Geral dessa organização e figura histórica da revolução e das lutas democráticas na Colômbia, durante as últimas décadas”, diz a ata do encontro.

Pérez Martínez é considerado o maior terrorista da história da Colômbia, apontado como responsável por mais de 500 atentados contra a infraestrutura petrolífera do país, além de sequestros, assassinatos e ataques a forças de segurança. Em março de 2023, o ELN voltou ao centro do noticiário internacional após um ataque que matou nove militares do Exército colombiano e deixou outros oito feridos.

O Foro também manifestou solidariedade ao Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR), organização responsável pelo sequestro do empresário Abílio Diniz, em dezembro de 1989, em São Paulo. A ação durou 36 horas e envolveu dez sequestradores, entre eles cinco chilenos, dois argentinos, dois canadenses e um brasileiro.

O sequestro foi liderado pelos irmãos argentinos Humberto Paz e Horácio Paz, ambos com histórico de atuação em diferentes grupos armados da América Latina. Os dois possuíam ligações com organizações como o Exército Popular Revolucionário (ERP), da Argentina, as Forças Populares de Libertação de El Salvador (FPL), o Sendero Luminoso, do Peru, além do braço chileno do próprio MIR.

Entre os chilenos envolvidos estavam Ulisses Gallardo Acevedo, Pedro Lembach, Héctor Ramón Tapia, Sérgio Olivares e Maria Marchi Badilla. Todos tinham histórico de militância em organizações armadas de esquerda e circulação por diferentes países da região.

Na mesma ata de 1998, o Foro de São Paulo não apenas se solidarizou com o MIR, como também exigiu que o governo brasileiro reconhecesse os sequestradores de Abílio Diniz como presos políticos, reforçando o alinhamento da organização com movimentos armados e a relativização do uso da violência como instrumento político.

Ao longo dos anos, o Foro também passou a criticar iniciativas internacionais de combate ao narcotráfico e ao terrorismo, como o Plano Colômbia, lançado em 1999 pelos governos da Colômbia e dos Estados Unidos. Em declarações oficiais, o grupo classificou essas ações como “ingerência” e “intervenção imperialista”, afirmando que o combate ao crime organizado serviria de pretexto para a militarização da região e a criminalização da chamada “luta popular”.

“Lutamos contra o Plano Colômbia, a Iniciativa Regional Andina e os demais mecanismos de ingerência impostos pelo imperialismo norte-americano, que utilizam como pretexto o combate ao narcotráfico e ao terrorismo para ampliar a militarização da região”, diz a declaração final do 13.º Encontro do Foro de São Paulo.

Suano também destacou que, mesmo nos períodos em que deixou de ser citado publicamente, o Foro de São Paulo manteve sua atuação. “O Foro nunca deixou de existir. Quando houve uma primeira onda de governos à direita, ele simplesmente saiu de cena, migrou para o México e passou a operar sob o nome de Grupo de Puebla. Com o retorno da esquerda ao poder, voltou a atuar abertamente como Foro de São Paulo”, disse.

Apesar de fundado na década de 1990, o Foro de São Paulo passou a ganhar maior repercussão no debate público após publicações do escritor e filósofo Olavo de Carvalho (1947-2022), em meados dos anos 2000. Com a expansão das redes sociais, o tema emergiu com força no campo da direita e, em 2015, chegou à tribuna da Câmara dos Deputados, quando o então deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) comentou um encontro da então presidente Dilma Rousseff com líderes da Unasul.

“Vejam como é preocupante a situação. Há poucas semanas, a nossa querida Dilma Rousseff esteve no Equador e assinou acordos na Unasul – que não tem muita diferença do pessoalzinho do Foro de São Paulo – criando uma unidade técnica de coordenação eleitoral para a América do Sul”, disse Bolsonaro durante a votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que instituiu o voto impresso.

Foro articula integração paralela e busca substituir organismos tradicionais

Para o escritor Pedro Henrique Araújo, autor do livro “O Foro de São Paulo e a Pátria Grande” (Ed. PHVOX, 2025), o Foro atua de forma organizada e documentada para influenciar os rumos políticos, eleitorais e diplomáticos da América Latina, por meio da criação de estruturas paralelas aos organismos internacionais tradicionais.

“Nas reuniões e atas do Foro há pontos estruturados para dirimir o futuro eleitoral, político e até diplomático da América Latina”, afirmou. Segundo ele, um dos exemplos é a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), cujo objetivo seria substituir a Organização dos Estados Americanos (OEA). “O intuito é criar um bloco sem a influência dos Estados Unidos e do Canadá, concentrando, do México para baixo, as decisões diplomáticas da região”, disse.

Araújo também citou o Grupo de Puebla, que, segundo ele, atua na construção de legitimidade institucional e narrativa pública. “O grupo trabalha com ex-presidentes, intelectuais e juristas ligados ao Foro para dar peso institucional, especialmente na mídia, além de avançar na agenda do lawfare.”

O autor lembrou ainda a tentativa de retomada da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), em 2023. “A Unasul surgiu dentro do Foro de São Paulo, patrocinada principalmente por Lula e Hugo Chávez, com a intenção de criar uma espécie de União Europeia da América do Sul”, afirmou.

Segundo ele, o projeto chegou a prever parlamento regional, banco próprio, moeda comum e até a criação de uma Corte Suprema latino-americana. “Essa é a parte institucional, que fica às claras. Não são crimes, mas são mecanismos de organização para a tomada e manutenção do poder”, concluiu.

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