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Renaturalização é usada para salvar praias na Espanha – 11/04/2026 – Ambiente

A cada inverno, as tempestades apagam trechos inteiros do litoral espanhol, que são reconstruídos às pressas com mais areia e cimento antes da chegada do turismo. Um círculo vicioso contra o qual municípios como Calafell, em Tarragona, começam a se rebelar e testar alternativas.

Ao norte de Barcelona, a situação é especialmente crítica no histórico trecho ferroviário Barcelona-Mataró, onde os trilhos correm colados ao mar e o espaço entre os trens e as ondas diminui a cada ano. Em Montgat, a praia praticamente desapareceu e as tempestades deixam à mostra rochas antes enterradas sob areais largos e extensos.

Nesse pequeno pedaço de areia que sobrevive à erosão costeira, Bruno Cambre, 37, pesca quase diariamente com dois amigos.

“O mar engoliu toda a areia e erodiu as pedras. Causou muito estrago, não só aqui, mas em todo o litoral”, conta à AFP.

“Há quatro ou cinco anos você ia a essas praias e a areia se estendia por muito longe, 500 ou 700 metros. Agora não restam mais de 20”, lamenta. Também teme pelas casas de pescadores. “[Elas] vão desaparecer, com o tempo vão desaparecer”.

Entre mar e concreto

Já ao sul de Barcelona, as construções na orla são um problema. Os calçadões e prédios encurralam as praias, que são atingidas por águas cada vez mais ferozes e elevadas.

“Começaremos a perder praias nos próximos dez anos”, alertou o braço local do Greenpeace em 2024 em seu relatório “O litoral espanhol em risco”.

De acordo com Carla García Lozano, professora de geografia física da Universidade de Girona, continuar despejando na praia toneladas de areia vinda de outros lugares —que o clima invernal do início do ano levará embora— e repor pisos no calçadão todos os anos é uma solução pouco eficaz e muito custosa.

Há seis anos, ela supervisiona a regeneração das praias de Calafell, uma localidade de 30 mil habitantes que vive essencialmente do turismo. Para frear a erosão, a cidade está tentando devolver a dinâmica natural às suas praias.

“Durante as épocas de tempestades de inverno elas sofrem erosão e durante as épocas de bonança, em que não há tantas tempestades, que costumam ser na primavera e principalmente no verão, elas se regeneram de forma natural”, explica Lozano. Essa reparação, porém, só acontece em espaços muito naturais.

Assim, Calafell começou a testar alternativas para que as praias voltem a ser esses lugares: desconstruir 800 metros quadrados do calçadão, eliminar dois espigões subterrâneos, colocar barreiras de bambu ao longo da praia para reter areia e criar dunas, transferir areia de onde há de sobra para onde falta, mas sempre próxima e do mesmo tipo, e usar drones para observar a evolução dos areais.

“Em uma área de 4.500 metros quadrados, foram ganhos 1.000 metros cúbicos de areia”, explica ela, ressaltando que é uma quantidade significativa. “Na média isso representa 25 centímetros, mas em algumas áreas chega a um metro e meio de altura”.

Outros municípios costeiros próximos estão adotando estratégias semelhantes e eliminando estacionamentos à beira da praia, espigões ou quiosques.

Praia tem papel social

O vereador de Calafell Aron Marcos Fernández, que atua com foco em meio ambiente, explicou que a demolição de uma parte do calçadão funcionou. “Antes o mar batia no calçadão e agora há areia”, disse, acrescentando que está sendo estudada a demolição de outra parte da estrutura.

Ele defende um equilíbrio entre a renaturalização e os usos turísticos da praia. “Temos que entender qual papel social a praia desempenha no município”, sustentou.

Em Sitges, uma bela localidade também ao sul de Barcelona, a aposta é parecida: restaurar dunas e buscar soluções naturais. Apesar disso, a possibilidade de eliminar parte de seu calçadão foi descartada.

“Temos um calçadão centenário, onde há muita atividade dos cidadãos”, explicou a prefeita, Aurora Carbonell. “É parte da história de Sitges e é parte dos cidadãos. Então, para nós, retirar calçadões é uma ação difícil”.

O problema é das praias, mas também da economia espanhola. O país recebe quase 100 milhões de turistas por ano, a maioria dos quais busca sol e areia. Sem as praias, portanto, é possível estimar que haveria um impacto numa parcela de 12,6% do PIB da Espanha, que representa mais de 200 bilhões de euros anuais e 2,7 milhões de postos de trabalho, segundo o Instituto Nacional de Estatística.

Autor: Folha

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