
Nos últimos anos, o Banco Master cresceu exponencialmente, oferecendo CDBs com taxas muito acima do mercado, alegando que não havia risco, pois os títulos contavam com a garantia do FGC (Fundo Garantidor de Crédito). Evidentemente, a justificativa é falaciosa, uma vez que a garantia do FGC não significa ausência de risco de crédito.
Numa crise sistêmica, por exemplo, envolvendo vários bancos, o FGC não teria recursos para pagar todo mundo. Além disso, a garantia vai até R$ 250.000 por CPF e por instituição financeira, limitada a R$ 1.000.000.
Mas, num país com carência de educação financeira, o Master não tinha dificuldades para vender seus títulos aos investidores. Com a captação bilionária de recursos, o banco de Daniel Vorcaro comprava ações de segunda linha, precatórios e títulos de crédito duvidosos.
O problema é que essa estratégia gerou um descasamento brutal entre ativos e passivos. De um lado, ativos de longo prazo com qualidade duvidosa; de outro, passivos de curto vencimento, com taxas elevadas.
Como é de se esperar de um sistema financeiro sólido, o Banco Central identificou o problema e liquidou o banco. Mas, até o fechamento da instituição financeira, muitas estranhas coincidências ocorreram.
A primeira foi a tentativa de parlamentares de passar um projeto de lei que aumentava o valor do FGC de R$ 250.000 para R$ 1.000.000 de garantia para os credores, em caso de quebra de um banco. Outra coincidência foi o lançamento de um projeto de lei dando poderes a deputados e senadores para demitirem diretores e o presidente do Banco Central. Graças ao papel vigilante da imprensa, essas medidas não avançaram. Mas as estranhas coincidências continuavam em outras esferas.
No mercado financeiro, o BRB — um banco estatal de Brasília — demonstrava um interesse incessante em comprar o Banco Master por bilhões de reais. Embora o negócio não tenha se concretizado, graças à atuação técnica do Banco Central, uma pergunta fica no ar.
Será que era uma tentativa de passar o prejuízo do Master para os cofres de Brasília, ou melhor, para nós, contribuintes, e livrar os controladores do banco de Daniel Vorcaro?
VEJA TAMBÉM:
- Banco Master: ganância e capitalismo de compadrio
- A herança maldita do PT para 2027
Mas as singularidades não se limitaram apenas ao campo político e ao poder legislativo. Na esfera judiciária, o banco contratou o escritório de Vivianne Barci de Moraes por R$ 129 milhões por 36 meses. Um contrato milionário, de fazer inveja a qualquer banca de advogados badalada de São Paulo.
Num país sério, jamais a mulher de um ministro do STF poderia ser advogada de um processo em andamento na corte em que seu marido é juiz. Aliás, o mesmo ministro que telefonou várias vezes para falar com Gabriel Galípolo. O que será que um ministro do STF tem tanto a falar com o presidente do Banco Central?
Chama a atenção também por que razão esse caso foi parar no STF, dado que Daniel Vorcaro não tem foro privilegiado.
É intrigante também que o processo tenha sido colocado em sigilo logo após o ministro Dias Toffoli — aquele que anulou os acordos de leniência da Lava Jato — ter pegado carona num jato particular em companhia de um dos advogados do Master para assistir à final da Libertadores, no Peru.
Apesar de todos esses episódios, o Banco Central seguiu com sua missão técnica e liquidou o banco Master. Entretanto, a história estava longe de acabar.
O Tribunal de Contas da União (TCU), formado por nove ministros, dos quais seis já tiveram carreira política antes de assumir o cargo — como ex-senadores, ex-deputados ou ex-ministros —, passou a questionar duramente a liquidação do Master pelo Banco Central.
Logo após o questionamento do TCU, coincidentemente vários influencers — pasmem, a maioria sem formação e experiência em finanças — passaram a questionar a liquidação do Master, alegando que o Banco Central teria agido apressadamente.
A tentativa de descredibilizar a liquidação era nítida, uma vez que a pergunta correta a ser feita era exatamente a oposta: por que o Banco Central demorou tanto para liquidar o Master? Os parágrafos anteriores ajudam a responder a essa questão.
Graças à coragem de dois influenciadores — o vereador Rony Gabriel e a jornalista Juliana Moreira Leite — em denunciar o esquema coordenado para deslegitimar a liquidação do Master nas redes sociais, somada ao papel vigilante da imprensa, o Banco Central seguiu com seu trabalho.
Entretanto, mesmo que a artilharia digital, política e jurídica contra o Banco Central fosse bem-sucedida e a liquidação fosse anulada, seria impossível o Master voltar a existir. Quem, em sã consciência, colocaria dinheiro no banco de Vorcaro depois de todos esses episódios? Instituição financeira, quando perde a credibilidade, vira pó, mesmo com decisão favorável do TCU e do STF. As leis de mercado estão acima das leis dos tecnocratas. A realidade se impõe.
Entretanto, se as leis dos togados não são suficientes para resgatar a credibilidade do Master e capitalizar o banco novamente, não se pode dizer o mesmo sobre a condenação dos envolvidos no suposto esquema fraudulento, ainda mais quando algumas ações da Justiça dão margem a suposições, como aquela na qual o ministro Toffoli determinou que as provas apreendidas do Master não ficassem nas mãos da Polícia Federal, como de praxe, mas sob custódia da PGR.
Vale lembrar que, inicialmente, o ministro havia determinado que as provas ficassem sob custódia do próprio STF, o que gerou repercussão bastante negativa na imprensa e no meio jurídico, levando, provavelmente, o ministro a voltar atrás em sua decisão.
O caso do Master deve ser investigado profundamente, e os envolvidos, punidos, pois muita gente saiu prejudicada às custas da vida luxuosa de Daniel Vorcaro e de outros envolvidos. Vários fundos de pensão e gestoras compraram ativos do Master e poderão quebrar, deixando muitos pequenos investidores sem suas economias.
Enquanto alguns fundos poderão fechar as portas por rombo, outros foram liquidados por envolvimento direto na fraude, como foi o caso da REAG.
O esquema entre a REAG e o Master envolvia uma engenharia financeira para dificultar a rastreabilidade do dinheiro e obter lucros artificiais com fraudes contábeis. O esquema se dava da seguinte maneira: o Master emprestava dinheiro a empresas que repassavam os recursos a fundos.
Os gestores e administradores desses fundos embolsavam parte do dinheiro e, em seguida, compravam ativos, maquiando lucros artificiais nos balanços para enganar os cotistas. Com retornos artificiais desses fundos, o Master conseguia mais captação, pois poderia mostrar que o ativo “empréstimos a receber” era de “boa qualidade”. Além disso, o Master ganhava argumentos para postergar a liquidação.
Nesse esquema, muita gente ganhou dinheiro às custas do prejuízo de trabalhadores que investiram seus suados recursos no Master ou em fundos ligados a ele. Já que estamos em ritmo de Oscar, é um enredo de fazer inveja ao roteiro do excelente filme A Grande Aposta.
Autor: Gazeta do Povo






