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Riscos de usar retatrutida vendida ilegalmente – 20/02/2026 – Equilíbrio e Saúde

Usuários de redes sociais têm relatado o uso de retatrutida para emagrecer. Nas mesmas plataformas, também é possível encontrar fornecedores que dizem importar a fórmula, apresentada em forma de caneta e embalagem aparentemente comercial. A substância, no entanto, ainda não foi aprovada em nenhum país, já que ainda está em fase de estudo clínico.

No início deste ano, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) determinou a apreensão e proibição de todos os produtos com o princípio ativo. O FDA (órgão regulador de medicamentos dos Estados Unidos) declarou que a retatrutida não podem ser usada em manipulação farmacêutica e não está aprovada.

Já o EMA (órgão regulador europeu), também não aprovou a comercialização da substância e emitiu um alerta relacionado ao uso de canetas emagrecedoras vendidas de forma ilegal. “Pessoas que usam esses produtos correm um risco muito alto de falha no tratamento, problemas de saúde inesperados e graves e interações perigosas com outros medicamentos”, declarou.

De propriedade da Eli Lilly, a enzima é agonista dos receptores GLP-1, GIP e glucagon, sendo mais potente do que os medicamentos disponíveis no mercado hoje, como a semaglutida (Ozempic, Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro).

Resultados preliminares publicados no The New England Journal of Medicine, a fase dois do estudo da retatrutida demonstrou que a perda de peso entre a maior parte dos participantes foi superior a 24%, em comparação a 20% observado com o uso do Mounjaro.

Apesar dos resultados serem empolgantes, a substância deve enfrentar um longo caminho de pesquisa clínica para ser aprovada para comercialização e uso em seres humanos. Atualmente em fase três, o que significa que foram feitos testes em animais, avaliados a segurança e possíveis efeitos colaterais em voluntários saudáveis, testado a eficácia e definida a dose.

Ainda resta finalizar a última fase de pesquisa, que compara o novo medicamento com tratamentos existentes e amplia a análise de segurança, além da aprovação por agências reguladoras e a farmacovigilância.

“Temos centenas ou até mais de mil moléculas de laboratório sendo estudadas, mas até chegar na farmácia, sobra uma”, diz o endocrinologista Alexandre Hohl, diretor da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica).

Hohl chama a venda em mercado clandestino e uso de um medicamento ainda em fase de estudos como sendo uma atrocidade científica. Apesar de os resultados preliminares apresentarem um possível benefício, o médico afirma que o risco também é aumentado e ainda desconhecido, já que as pesquisas devem continuar.

O problema, aponta, não é apenas a retatrutida presente nesses produtos que estão sendo comercializados, mas as impurezas que podem estar no recipiente, já que a produção não foi regulada. “Essas impurezas podem acionar o sistema imune e ser um gatilho para uma doença autoimune, ou pior, para o câncer.” Ele afirma que esse potencial existe não só para essa substância, mas também para outras que são produzidas de forma ilegal, como a tizerpatida.

Paulo Miranda, coordenador da Comissão Internacional da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) lista diversos riscos associados ao uso de uma medicação que ainda não está aprovada.

Segundo Miranda, passar pela aprovação das agências reguladoras não significa que não existam efeitos adversos que devem ser monitorados e acompanhados, mas que assegura que o medicamento foi avaliado para a segurança em seres humanos.

“Quando [as canetas] são produzidas no mercado irregular, a gente não sabe o caminho percorrido, o ambiente envasado ou o grau de pureza dessa mistura”, afirma. “Como são indicações de uso injetável, elas precisam ser produzidas e mantidas em ambiente estéril, então há um risco de impurezas e aumenta o risco de reações alérgicas e infecções.”

A venda de um medicamento que ainda não está aprovado e que está patenteado por um laboratório é crime. Lays Serpa, advogada especialista em crimes contra a propriedade intelectual, explica que a prática não apenas viola direitos de patente, mas também coloca diretamente em risco a vida e a integridade física da população.

Ela diz que a imitação do chamado conjunto imagem, que inclui o formato de caneta, cores e embalagem, reforça a confusão e induz o consumidor a erro quanto à origem e à qualidade do produto.

“Grande parte dessas canetas contrabandeadas ingressa no país sem qualquer controle sanitário, muitas vezes sem garantia de origem, armazenamento adequado ou autenticidade”, afirma.

A Lilly do Brasil, em comunicado à Folha, afirma que a retatrutida está legalmente disponível apenas para os participantes dos ensaios clínicos. “Qualquer pessoa que alegue vender retatrutida para uso humano está violando a lei”, diz, complementando que produtos que não passam pelos testes e aprovações de autoridades regulatórias podem colocar pacientes em risco.

Autor: Folha

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