É tarefa difícil escovar os dentes de criança, em especial quando elas têm entre seis meses e três anos. Nesta fase, cospem, choram, mordem a escova e a empurram com a língua. Em alguns casos, estapeiam o que estiver por perto e há até quem vomite no meio da missão.
A escovação pode ser um momento traumático para adultos e crianças se não iniciada corretamente, segundo especialistas em saúde bucal. Porém, quanto mais cedo é introduzida, mais tranquila se torna.
Há truques que podem ajudar, como transformar o ato em brincadeira e fazê-lo em família. O importante é não deixar de fazer. Falta de higiene bucal em crianças pode causar traumas irreversíveis na estrutura do dente, um problema precoce e prevenível. Veja, a seguir, como escovar os dentes de criança.
Quando começar a escovar?
Os cuidados com os dentes das crianças devem se iniciar ainda no útero, durante a gestação, explica Laura Heleno D’Ottaviano, especialista em cirurgia e traumatologia bucomaxilofacial (que trata lesões físicas na região da face), do hospital Vera Cruz.
“Embora os dentes apareçam apenas por volta dos seis meses, os de leite começam a se formar a partir da sexta semana de gestação e os permanentes entre o 4º e o 6º mês “, explica Laura. Neste período, é importante que a mãe tenha uma boa ingestão de flúor, que contribui para a boa formação dos dentes da criança.
Uma dica é beber água da torneira. “As estações de tratamento adicionam a quantidade certa de flúor que precisamos ingerir”, afirma Laura.
Antes que saiam os dentes, não há necessidade de utilização de escova ou creme dental. “O leite materno já tem todo o necessário para manter a saúde bucal do bebê”, diz Laura. Assim, recomenda-se uma higienização leve, com gaze ou algodão umedecidos com soro fisiológico.
Quando nasce o primeiro dente, é hora de começar. “No primeiro momento, é uma escovação leve e simples. Deve-se usar uma escova pequena com cerdas bem macias. O ideal é que a escova caiba na boca com folga”, explica Mariana Minatel Braga, professora de odontopediatria da faculdade de odontologia da USP (Universidade de São Paulo).
Já neste momento é necessário utilizar creme dental com flúor 1.000 ppm —informação presente no verso da embalagem—, porém em quantidade pequena. Do tamanho de um grão de arroz, no máximo, segundo a especialista.
Como fazer?
Nos primeiros dentes, basta passar a escova em movimentos de vai e vem ou circulares, com leveza e devagar. Conforme os dentes molares –do fundo– vão nascendo, é preciso expandir a escovação também para eles, com movimentos de vai e vem.
É normal que, durante o processo, crianças de até 3 ou 4 anos engulam o creme dental. Isso explica a pequena quantidade. “Engolir pasta e, portanto, flúor está relacionado com o desenvolvimento da fluorose. Com pequena quantidade, a criança dificilmente vai desenvolver”, afirma Mariana.
A fluorose causa manchas nos dentes que jamais desaparecem. Ela atinge dentes ainda em formação, motivo pelo qual os pais devem ficar atentos com as quantidades de pasta até o início da adolescência.
Conforme os dentes vão surgindo, a escovação deve ser intensificada, higienizando um por um.
O que usar?
O bom e velho conjunto: escova e pasta. Se apenas com esses dois elementos a tarefa já pode ser difícil, introduzir mais tende a complicar. Além disso, não há comprovação de que o fio dental, por exemplo, ajude na prevenção contra cáries em crianças.
“A criança tem espaços entre os dentes que a própria escova alcança. Por isso, odontopediatras geralmente não recomendam o fio dental nos primeiros anos. Não há evidências de que ele ajude em algo”, explica Mariana.
O mesmo é válido para o enxaguante. Com flúor, ele pode ajudar a combater alguns microrganismos que causam cáries, porém, também não há muitas evidências sobre seus benefícios.
“Há alguns tipos de bocheco que podem ser aliados. Além de ajudar na higienização, mostram onde está a sujeira, auxiliam na escovação”, afirma Mariana.
Porém, o mesmo cuidado indicado para o creme dental é válido para o enxaguante. Se a criança ainda não tiver condição de utilizá-lo sem engolir, melhor evitar.
Como fugir da birra?
O melhor remédio é criar hábito desde cedo, para evitar os acessos de raiva. Mesmo assim, eles podem acontecer. Pais precisam ser pacientes nesses momentos.
Antes de dormir, uma criança com sono, por exemplo, pode se recusar a escovar. É importante não forçar a criança, algo que pode gerar uma lembrança ruim associada à escovação.
A recomendação é fazer aos poucos e com calma, da melhor forma possível possível.
Quando deixar escovar sozinho?
Não antes dos 6 anos, dizem as especialistas. “Os pais podem deixar a criança ir brincando com a escova, aprendendo a utilizá-la, mas não sem supervisionar. O ideal é sempre o pai ficar responsável pela finalização”, explica Laura.
Entre os 6 e os 8 anos é que se deve começar a transferência dessa responsabilidade, à medida que a criança se mostra preparada para isso.
Como se divertir escovando os dentes?
Sugerindo atividades lúdicas durante a escovação. Bebês, por exemplo, podem segurar uma escova enquanto os pais fazem uma higienização. Assim, se sentem parte do processo. Personagens também costumam atrair a atenção dos pequenos.
Outra dica é fazer a escovação em família, para que a criança enxergue a necessidade desse hábito para todos e também se sinta abraçada ao fazê-lo em conjunto.
A escova elétrica também pode funcionar, tanto para atrair a atenção para algo diferente, quanto para realizar uma limpeza mais eficaz.
Riscos de não escovar
Segundo Laura, ignorar a escovação pode resultar em agravos severos à saúde bucal. Além de permitir a presença de microrganismos causadores de cárie, pode causar infecções e atrapalhar o nascimento dos dentes permanentes.
“O dente é um elemento vivo. Conforme a cárie o destrói, ele vai ficando deformado, deixando a boca desprotegida. Uma vez que microorganismos quebram o dente, podem se infiltrar na corrente sanguínea e causar uma infecção”, explica a especialista.
No caso do dente de leite, ele tem uma função de guardar espaço para o permanente. Quando danificado, há possibilidade de resultar em má formação dos dentes permanentes.





