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Se tarifas são tão ruins, por que os países as adotam?

Do ponto de vista estritamente econômico, as tarifas são difíceis de defender. Na prática, elas funcionam como um imposto sobre produtos produzidos fora do país e consumidos internamente. O resultado é conhecido: preços mais altos para o consumidor, menor variedade de bens, perda de eficiência produtiva e redução do bem-estar geral. A teoria econômica clássica — e a evidência empírica acumulada ao longo de décadas — são bastante claras nesse diagnóstico.

Ainda assim, as tarifas seguem sendo um instrumento amplamente utilizado. Praticamente todos os países mantêm estruturas tarifárias complexas e, muitas vezes, elevadas, sobretudo em setores considerados “sensíveis”. Por quê?

A resposta está mais na política e menos na economia.

As tarifas são usadas para proteger a indústria nacional da concorrência externa, preservar empregos em setores específicos ou dar tempo para que determinados segmentos se tornem competitivos.

Em outros casos, cumprem funções geopolíticas, servindo como instrumento de pressão diplomática ou de retaliação. Há também justificativas sanitárias, ambientais ou regulatórias que, muitas vezes, se misturam — de forma legítima ou oportunista — com o protecionismo puro e simples.

Nada disso é novo. O curioso é que, por muito tempo, a discussão sobre tarifas ficou relativamente adormecida no debate público internacional. Elas estavam lá, altas em muitos países, mas raramente no centro das atenções. Bastou Donald Trump anunciar aumentos tarifários generalizados para que o mundo redescobrisse, quase de forma súbita, que as tarifas são ruins, distorcivas e prejudiciais ao comércio global.

A ironia é evidente. As tarifas praticadas por países europeus, pela China e pelo Brasil eram, em média, significativamente mais elevadas do que as tarifas americanas antes dessas medidas. Ainda assim, foi apenas quando os Estados Unidos elevaram suas barreiras que o tema passou a ser tratado como uma ameaça sistêmica à economia mundial.

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  • O tarifaço de Trump: culpados, efeitos e a soberania

Mais intrigante ainda foi a reação internacional. Se as tarifas são tão nocivas — como corretamente passaram a ser descritas —, seria razoável esperar uma onda global de redução tarifária, em nome da coerência e da eficiência econômica. O que se viu foi o oposto: a maior parte dos países respondeu aumentando ainda mais as próprias tarifas, aprofundando a lógica de retaliação e escalada.

Isso nos leva à pergunta central: se as tarifas são ruins, por que o mundo insiste em adotá-las?

Porque as tarifas são politicamente convenientes. Seus custos são difusos — espalhados entre milhões de consumidores —, enquanto seus benefícios são concentrados em grupos organizados, barulhentos e politicamente influentes. Além disso, as tarifas geram receita, sinalizam “defesa do interesse nacional” e são ferramentas rápidas de ação governamental, especialmente em momentos de crise ou tensão internacional.

O que chama ainda mais atenção é o viés seletivo no debate público e midiático. Descobriu-se que as tarifas eram ruins quando Trump as elevou. Mas houve silêncio diante das altas tarifas brasileiras, silêncio diante das múltiplas barreiras tarifárias e não tarifárias europeias e silêncio frente a práticas da economia chinesa que nem sempre seguem padrões de concorrência leal ou de reciprocidade comercial.

As tarifas não ficaram ruins de repente. Elas sempre foram economicamente ineficientes. O que mudou foi quem as utilizou e em que contexto político

Esse duplo padrão enfraquece o debate, empobrece a análise e transforma uma discussão econômica séria em uma disputa ideológica seletiva.

A integridade da defesa do livre comércio reside na sua consististência. Se as tarifas só são consideradas prejudiciais quando partem do “outro”, nossa defesa deixa de ser técnica para se tornar puramente seletiva. Nesse caso, não estamos protegendo a economia; estamos apenas escolhendo quais distorções estamos dispostos a ignorar.

Autor: Gazeta do Povo

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