Indígenas e representantes de grupos sociais protestaram, na noite desta sexta-feira (20), em frente ao escritório da Cargill na zona sul de São Paulo. O ato apoia os povos da região do Tapajós, no Pará, contra o plano de hidrovias, do governo federal, para escoar produtos em rios da amazônia.
Em Santarém (PA), a mobilização na porta da sede da gigante do agronegócio começou em 22 de janeiro.
Nesta noite, na capital paulista, os manifestantes chegaram a bloquear duas vias de acesso ao prédio da empresa na avenida Dr. Chucri Zaidan. Eles também pintaram portas com as mãos, simbolizando sangue indígena derramado por grandes empreendimentos na amazônia e outros biomas.
“Nossos parentes indígenas estão lá no Pará, há um mês ocupando a Cargill [em Santarém]. E hoje a gente veio aqui na sede, em São Paulo, dizer para os povos do Baixo Tapajós que não estão sozinhos”, afirmou a ativista Txai Suruí, colunista da Folha e uma das organizadoras do ato.
“A gente não pode permitir que uma empresa siga lucrando com a destruição dos nossos rios, enquanto não sobra nada para povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas, apenas a destruição”, disse também.
Desde janeiro, 14 povos indígenas do oeste do Pará ocupam a sede da Cargill em Santarém contra o decreto nº 12.600/2025, que incluiu trechos hidroviários nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização (PND).
Na última sexta (13), a Justiça Federal acatou pedido da Cargill e determinou a desocupação forçada, no prazo de 48 horas, de vias de acesso ao complexo portuário da cidade, onde fica a sede da empresa. O MPF (Ministério Público Federal) recorreu e conseguiu derrubar a decisão. Contudo, no domingo (15), o recurso do MPF foi anulado, e a determinação da Justiça voltou a valer.
Em uma nova decisão, na tarde desta quinta (19), a Justiça reforçou o prazo de 48 horas para a saída dos manifestantes, o que levou o MPF interpor novamente um recurso, alegando que a medida ignora ritos obrigatórios de mediação e coloca em risco a integridade física dos manifestantes.
Procurada pela reportagem, a Cargill não comentou o ato em São Paulo.
Na quinta, cerca de 400 indígenas interceptaram e ocuparam, por algumas horas, balsas que transportavam produtos agrícolas no rio Tapajós, em Santarém. As embarcações, segundo os manifestantes, eram da Cargill. A empresa negou.
Em reação às críticas, o governo federal disse, em nota, que o decreto não autoriza obras nem privatiza a hidrovia do rio Tapajós. “O normativo trata exclusivamente da realização de estudos técnicos sobre uma possível concessão dos serviços de navegabilidade.”
Ainda segundo a gestão Lula (PT), qualquer decisão futura dependerá do cumprimento das exigências legais, ambientais e sociais, incluindo a realização de consulta livre, prévia e informada às comunidades, conforme determina a Convenção nº 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho).
Em quase um mês de ato, os indígenas se reuniram com representantes do governo federal e bloquearam vias (entre elas, a de acesso ao aeroporto do município). As discussões, porém, não levaram ao fim do plano do governo federal, como pedem os manifestantes.
O governo Lula suspendeu, no último dia 6, a licitação que habilitou uma empresa para a dragagem do rio Tapajós, medida que é considerada insuficiente pelos indígenas.
O Cita (Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns), entidade representante de 14 povos do Baixo Tapajós, afirma que a contraproposta dos manifestantes busca, além da anulação do pregão, a revogação do decreto e a publicação dos atos no Diário Oficial.
O projeto de hidrovias já foi alvo de protestos na COP30, conferência do clima das Nações Unidas realizada em novembro em Belém. Na ocasião, as ministras Sônia Guajajara e a Marina Silva, do Meio Ambiente, afirmaram que a consulta prévia com as comunidades seria feita. Contudo, a promessa até agora não foi cumprida.
Autor: Folha








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