Era o dia 25 de março de 2023 e 5 dos 26 convocados por Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo deste ano estavam em campo na derrota por 2 a 1 para o Marrocos, primeiro amistoso da seleção brasileira após a saída de Tite. Weverton, Ibañez, Lucas Paquetá, Casemiro e Vinicius Junior foram titulares. Além deles, Ederson e Bremer ficaram no banco.
No sábado (13), em Nova Jersey, a equipe voltará a encontrar justamente o Marrocos na estreia, pelo Grupo C, que abre a reta final desse ciclo da Copa de 2026 e a busca pelo hexacampeonato 24 anos depois do penta.
Entre a saída de Tite e a estreia no torneio deste ano, o Brasil teve quatro treinadores, viu disputas pelo comando da CBF, sofreu derrotas inéditas e doloridas para Colômbia e Argentina nas Eliminatórias, perdeu Neymar por quase dois anos após uma grave lesão no joelho e encerrou a classificação sul-americana em quinto lugar, a pior campanha na competição.
Sob o comando de Tite, o Brasil terminou as Eliminatórias para as Copas de 2018 e 2022 na liderança e sem derrotas.
Nem sempre, porém, uma campanha turbulenta nas Eliminatórias impediu o sucesso em Copas do Mundo. A última vez que o Brasil não terminou a disputa sul-americana na liderança havia sido antes do Mundial de 2002, quando a seleção também teve quatro comandantes até conquistar o pentacampeonato na Coreia do Sul e no Japão com Luiz Felipe Scolari.
Entre 1983 e a Copa de 1986, a seleção passou por outros quatro treinadores. Naquela época, Carlos Alberto Parreira, Edu Coimbra, Evaristo de Macedo e Telê Santana comandaram a seleção em diferentes momentos do ciclo.
“Parreira, Edu, Evaristo e Telê eram todos efetivos. Neste atual ciclo, o que foi realmente chocante foi ficar com três treinadores interinos por tanto tempo”, analisa Ademir Takara, bibliotecário do CRFB (Centro de Referência do Futebol Brasileiro), que considera ter sido Dorival, mesmo efetivado no cargo, um plano B à espera da negociação com Ancelotti.
O ciclo também produziu uma renovação parcial do elenco. Endrick estreou pela seleção principal durante a passagem de Diniz, marcou na estreia de Dorival Júnior contra a Inglaterra e chega ao Mundial após balançar as redes no amistoso contra o Egito, último compromisso antes da Copa.
Além dele, nomes como Luiz Henrique, Danilo Santos, Rayan e Igor Thiago ganharam espaço ao longo da reconstrução, enquanto Matheus Cunha vai à sua primeira Copa do Mundo após ficar fora da lista de 2022.
A preparação para o Mundial sob Ancelotti incluiu oito amistosos. A equipe venceu Coreia do Sul, Senegal, Croácia, Panamá e Egito, empatou com a Tunísia e perdeu para Japão e França. O último compromisso antes da Copa foi a vitória por 2 a 1 sobre os egípcios. Wesley se machucou na partida e foi cortado, com a chegada de Éderson para substituí-lo.
Escolhas no meio da turbulência
Enquanto tinha Carlo Ancelotti como o então principal alvo da entidade já com a saída de Tite, o presidente Ednaldo Rodrigues recorreu a soluções interinas. Ramon Menezes, técnico da seleção sub-20, comandou derrotas para Marrocos e Senegal, além de uma vitória sobre a Guiné.
Depois dele, Fernando Diniz assumiu a equipe sem deixar o comando do Fluminense. A expectativa era de que permanecesse apenas até a chegada de Ancelotti, cuja contratação era tratada pela CBF como questão de tempo e já com data certa: a Copa América de 2024.
O início de Diniz foi promissor. O Brasil venceu Bolívia e Peru nas duas primeiras rodadas das Eliminatórias. A reação, porém, durou pouco.
Em outubro, a seleção empatou com a Venezuela e perdeu para o Uruguai. A derrota em Montevidéu também marcou a última partida de Neymar com a camisa da seleção até hoje —ainda não é certo quando ele poderá jogar nesta Copa. O atacante sofreu ruptura do ligamento cruzado anterior e do menisco do joelho esquerdo.
A crise se aprofundou no mês seguinte. O Brasil perdeu para a Colômbia pela primeira vez na história das Eliminatórias e, dias depois, foi derrotado pela Argentina no Maracanã. O revés encerrou a invencibilidade da seleção como mandante em toda a história da competição e representou a terceira derrota consecutiva da equipe, algo inédito na disputa das Eliminatórias.
Em 7 de dezembro, Ednaldo Rodrigues foi afastado da presidência da entidade por decisão judicial. No fim do mês, Ancelotti renovou contrato com o Real Madrid até junho de 2026, adiando novamente a possibilidade de assumir a seleção.
Ednaldo foi reconduzido à presidência da CBF pelo STF em janeiro. Pressionado pela sequência de resultados negativos, Fernando Diniz foi demitido. Sem Ancelotti, coube a Dorival Júnior, campeão da Copa do Brasil pelo São Paulo, assumir a bronca.
A estreia trouxe sinais de recuperação. Em março, o Brasil venceu a Inglaterra em Wembley e empatou com a Espanha em Madri. Os resultados encerraram uma sequência de quatro partidas sem vitória e deram início ao trabalho que culminaria na disputa da Copa América.
Nos Estados Unidos, porém, a seleção voltou a conviver com oscilações. Empatou com Costa Rica e Colômbia, goleou o Paraguai e avançou às quartas de final sem convencer. Diante do Uruguai, ficou no empate sem gols e foi eliminada nos pênaltis.
A campanha aumentou a pressão sobre Dorival, que iniciou o segundo semestre de 2024 tentando recuperar terreno nas Eliminatórias. O Brasil venceu Equador, Chile, Peru e Colômbia, mas também acumulou tropeços contra Paraguai, Venezuela e Uruguai. A irregularidade impediu que a equipe se aproximasse dos líderes da competição.
Em março de 2025, um novo baque. Depois de derrotar a Colômbia em Brasília, a seleção foi goleada por 4 a 1 pela Argentina em Buenos Aires. O resultado encerrou a passagem de Dorival e ampliou a pressão para que a CBF finalmente resolvesse quem seria responsável por levar a seleção à Copa do Mundo.
Ancelotti, Ednaldo e Samir Xaud
A instabilidade não se restringiu ao campo e seguiu definindo também o ciclo da entidade do futebol brasileiro. Em dezembro de 2024, Ronaldo anunciou a intenção de disputar a presidência da CBF, mas abandonou o projeto meses depois, sem apoio suficiente das federações estaduais.
O bicampeão mundial afirmou ter encontrado “23 portas fechadas” entre as 27 federações do país e desistiu da candidatura antes da eleição que reconduziu Ednaldo Rodrigues ao cargo.
Reeleito, Ednaldo tentou de tudo para se manter no cargo e enfim anunciou a contratação de Carlo Ancelotti em 12 de maio de 2025. Ele correu com o anúncio em tentantiva de desviar a atenção da audiência que teria com o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, mas não foi suficiente. O novo afastamento veio três dias depois. Samir Xaud foi eleito para o cargo na sequência.
A estreia de Ancelotti ocorreu em junho, com empate sem gols diante do Equador. Na rodada seguinte, venceu o Paraguai e encaminhou a classificação para a Copa do Mundo. O Brasil ainda derrotou o Chile e encerrou as Eliminatórias com derrota para a Bolívia, resultado que confirmou a quinta colocação —a pior campanha da história da seleção na competição.
Autor: Folha








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