Uma comitiva de senadores brasileiros usou a vitrine política da COP30 em Belém para pregar a defesa da natureza em veículos de comunicação oficiais e redes sociais, apesar da falta de emendas desses mesmos congressistas para a pasta que cuida da área ambiental.
Dos 20 senadores que confirmaram presença neste mês na delegação brasileira na conferência, incluindo o presidente do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), apenas 5 direcionaram verbas ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima ao longo de uma década.
O valor repassado por eles à pasta somou apenas R$ 2,5 milhões —enquanto o montante direcionado para à compra de máquinas pesadas na Amazônia foi de R$ 21,9 milhões, segundo dados da plataforma de transparência TransfereGov.
Agentes de fiscalização, autoridades, ambientalistas e lideranças indígenas ouvidos pela Folha associam a farta distribuição dos equipamentos ao desmate e à abertura de estradas ilegais por prefeituras e outros órgãos públicos, aliando discursos desenvolvimentistas a violações da lei.
A maioria dos parlamentares atuou nos bastidores da COP30 junto a negociadores brasileiros e estrangeiros, além de setores da sociedade civil, defendendo interesses dos grupos que os apoiam.
Na capital paraense, Alcolumbre se sentou ao lado de Lula e da primeira-dama Janja na cerimônia de abertura da conferência e tirou fotos com autoridades. Abordado na saída do evento, ele se recusou a falar.
Segundo texto publicado pela Agência Senado com imagens dele na COP30, o congressista afirmou que “sem dúvida, o Brasil é exemplo para o mundo: reduzimos em 50% o desmatamento da Amazônia nos últimos três anos, ampliamos o uso de biocombustíveis, energia solar e energia eólica e lançamos o Fundo Florestas Tropicais para Sempre”.
Em seu mandato como senador, porém, Alcolumbre não destinou nenhuma emenda individual para o ministério brasileiro da área ambiental.
A última vez que ele endereçou uma emenda foi há dez anos, quando deputado federal, e ainda assim com um valor irrisório na comparação com as dezenas de milhões que teve ao seu dispor no período, de acordo com dados do portal Siga Brasil.
Em 2015, ele reservou R$ 50 mil para o programa Quelônios da Amazônia, do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), no Amapá. O valor corresponde a 0,01% de todas as emendas já utilizadas pelo parlamentar, um total de R$ 364 milhões.
Entre os presentes na conferência, o senador Fabiano Contarato (PT-ES) foi quem mais direcionou verba ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, com R$ 1,3 milhão para ações de reciclagem e castração de animais domésticos no Espírito Santo. A senadora Leila Barros (PDT-DF) direcionou R$ 684 mil para ações de melhoria ambiental e ecoturismo no Distrito Federal.
O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) empenhou R$ 400 mil para educação ambiental em Sergipe, e o senador Marcelo Castro (MDB-PI) enviou R$ 100 mil para a manutenção de unidades de conservação no Piauí.
Além disso, o senador Efraim Filho (União Brasil-PB) tem uma emenda de 2022 inscrita para receber R$ 600 mil em restos a pagar para a defesa animal na Paraíba, mas o valor ainda não foi empenhado ou executado, de acordo com o Portal da Transparência.
Da mesma forma, o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) tem uma emenda de 2019 no valor de R$ 288 mil autorizados para apoiar unidades de conservação no Amapá, embora o montante ainda não tenha sido efetivamente empregado, segundo os dados oficiais.
Entre os membros da delegação, o senador Wellington Fagundes (PL-MT) foi quem mais enviou dinheiro para a compra de máquinas pesadas, que podem na prática ser usadas para desmatamento.
Foram R$ 8,8 milhões em emendas, entre 2016 e 2024, para equipamentos como pá carregadeira, motoniveladora e rolo compactador, distribuídos por municípios do Mato Grosso. Em vídeo na COP à TV Senado, Fagundes afirma que o Brasil precisa de parcerias e investimentos internacionais de longo prazo na área ambiental.
O senador Beto Faro (PT-PA), que não enviou verba individual ao meio ambiente, mas financiou máquinas na Amazônia com R$ 2,3 milhões em emendas, tem quatro publicações no Instagram divulgando sua presença na COP. Nos vídeos, ele defende o desenvolvimento sustentável e a justiça climática.
Enquanto deputado federal, em 2021, Faro foi relator setorial da Comissão Mista de Orçamento da Câmara e pediu a alocação de R$ 8 milhões da verba da comissão para a prevenção de incêndios e recuperação do meio ambiente.
O senador Jader Barbalho (MDB-PA), que enviou R$ 7,8 milhões, tem oito postagens em que aparece na conferência com familiares e autoridades. Nas redes, ele destaca seu projeto de incentivo à agricultura regenerativa, apresentado durante a última semana da conferência.
O senador Chico Rodrigues (PSB-RR) também aparece no vídeo da TV Senado e defende o desenvolvimento na Amazônia. Ele não direcionou emendas ao ambiente, mas enviou R$ 2,8 milhões ao Ministério da Defesa para a aquisição de equipamentos agrícolas, como tratores de pneus plataformados.
Os senadores foram questionados sobre os valores, mas a maioria não respondeu à reportagem.
Eduardo Braga (MDB-AM) afirmou que propôs à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado uma emenda de R$ 200 milhões no orçamento do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio para estimular projetos de economia verde e preservação ambiental em municípios.
Ângelo Coronel (PSB-BA) informou que destina verbas às prefeituras da Bahia para medidas que fortaleçam a atuação dos municípios, “inclusive em ações que visam melhorar áreas como saneamento básico, dimensão que também representa cuidado com o meio ambiente”.
Considerando todo o Congresso brasileiro, apuração da Folha mostrou que apenas 0,17% das emendas parlamentares foi direcionado à pasta do meio ambiente na última década. No mesmo período, os congressistas enviaram três vezes mais verba para a compra de 1.648 equipamentos pesados só na Amazônia Legal.





