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Sistema de defesa antimísseis dos EUA: bala contra bala?

Em 15 de março de 2026 ocorrerá a nonagésima oitava cerimônia da Premiação da Academia, ou Oscar 2026. Um filme que, até o final do ano passado, estava cotado na disputa da premiação foi o lançamento da empresa de streaming Netflix, Uma casa de dinamite, que trata do sistema de defesa antimísseis dos EUA. A direção do filme é da diretora norte-americana Kathryn Bigelow, com roteiro de Noah Oppenheim. Bigelow foi vencedora do Oscar de 2010 de melhor filme e melhor direção pelo filme Guerra ao Terror e diretora também de A Hora Mais Escura, de 2012, além de vários outros filmes.

Afora o próprio filme como um produto de entretenimento cinematográfico, a mensagem transmitida pelo roteiro é de desolação, de insegurança a que a população norte-americana estaria sujeita diante de um ataque nuclear massivo de algum país inimigo dos Estados Unidos da América (EUA). Na verdade, nem precisaria tanto: como no filme, bastaria um Míssil Balístico Intercontinental (ICBM) para destruir a cidade de Chicago, de quase 3 milhões de habitantes, podendo chegar a 10 milhões se considerada a Grande Chicago. E o pior dessa tragédia iminente é a aparente normalidade com a impotência de impedir o previsível, um certo conformismo com um destino há muito prenunciado, mas inexplicavelmente inevitável.

Em uma guerra aberta entre dois países detentores de armamento nuclear com alta tecnologia embarcada (velocidade hipersônica, múltiplas ogivas, dissimuladores) e com capacidade de envio dessas armas a milhares de quilômetros, nenhum deles estaria nem razoavelmente seguro

Ainda que o roteiro do filme não deixe claro, seus minutos finais levam a crer que, a partir desse incidente, inicia-se uma guerra nuclear mundial. O quanto da incapacidade de defesa norte-americana contra um ataque de mísseis inimigos, como exibida no filme, corresponde à realidade é difícil saber com precisão, até porque, se esse sistema de defesa antimísseis fosse ineficiente, esse fato jamais seria revelado pelo governo federal. O lançamento do filme provocou uma polêmica nos EUA sobre a veracidade da inaptidão do sistema de defesa antimísseis como uma espécie de escudo protetor do território norte-americano e de sua população.

A partir do momento em que se torna claro que um ICBM se dirige ao solo americano, dois mísseis interceptadores são lançados de base terrestre em direção a ele, quando faltam em torno de 18 minutos para o impacto. Embora fique a dúvida sobre o desfecho final de um evento tão catastrófico, é natural acreditar que o ICBM seria destruído: afinal, os EUA, a maior potência militar do planeta, deveria ser capaz de se defender de um único míssil nuclear; mas não é o que ocorre. Nenhum sistema de defesa militar responde por uma taxa de 100% de acerto. Por essa razão, o fato de os dois interceptadores terem falhado em atingir o ICBM é perfeitamente plausível: quando tratamos de probabilidade, não estamos nos referindo a certezas, mas a chances.

No filme, a probabilidade relatada de cada interceptador é de 61%. Esse número parece surpreender negativamente o Secretário de Defesa dos EUA. Ele menciona o valor de mais de 50 bilhões de dólares investidos nessas armas de defesa para, no final das contas, jogar cara ou coroa contra ICBMs.

Ao custo de 63 bilhões de dólares, os Estados Unidos mantêm 44 interceptadores baseados em terra, sendo 40 em Fort Greely, no Alasca, e 4 na Base Aérea de Vanderberg, na Califórnia. Esse sistema de defesa, segundo o governo dos EUA, tem a finalidade de se proteger de lançamentos acidentais e do modesto arsenal da Coreia do Norte.

Quando dois interceptadores são lançados, como mostrado no filme, a probabilidade de acerto aumenta para 85%, uma vez que a chance de acerto de um independe do outro. Se três interceptadores fossem lançados, a probabilidade de atingir o ICBM aumentaria para 95%; com quatro, 98%; com cinco interceptadores, 99%; e assim por diante. Entretanto, para se ter certeza desses percentuais, um grande número de lançamentos teria de ser efetuado e, dentro destes, com certeza ocorreriam lançamentos conjuntos com dois, três, quatro ou cinco interceptadores que poderiam errar o alvo. É assim que a probabilidade funciona. O aspecto positivo do lançamento de conjuntos de mísseis defensivos está no fato de que a interceptação de um ICBM não é equivalente a lançar uma bala contra outra bala: além do aumento da probabilidade de acerto, um míssil interceptador não depende da “pontaria do atirador”, mas de radares em terra e sensores de orientação nele instalados.

Segundo uma matéria da empresa de multimídia Bloomberg, de título “Pentágono se preocupa com filme apocalíptico nuclear – A House of Dynamite”, a Agência de Defesa Antimísseis do Pentágono (MDA – Missile Defense Agency), com o intuito de “abordar suposições falsas, fornecer fatos corretos e uma melhor compreensão”, divulgou um memorando interno no qual afirma que a taxa de precisão dos testes antimísseis há mais de uma década tem sido de 100%. Esse é um número que levanta suspeita de sua veracidade: não existe 0% nem 100% de probabilidade de um evento ocorrer uma vez iniciado o processo que desencadeia esse evento. No caso de mísseis interceptadores, se cada um tem, digamos, 60% de chance de atingir o ICBM, significa que, entre 10 interceptadores lançados, 6 podem atingir o alvo e 4 podem errar o alvo. Mas também pode acontecer que os 10 primeiros mísseis errem o alvo e 18 atinjam o alvo nos próximos 20 lançamentos, número de acertos e erros que mantêm a probabilidade de 60%: 18/30 = 0,6. Matematicamente, esse resultado é provável, mas é evidente que uma série de lançamentos com essa característica teria de ter seus protocolos de operação e parâmetros técnicos revisados.

VEJA TAMBÉM:

  • 80 anos sem guerra mundial graças à invenção da bomba atômica?

A polêmica sobre a eficácia da defesa dos EUA contra mísseis nucleares inimigos se estendeu ao Senado norte-americano. O senador democrata pelo estado de Massachusetts, Edward J. Markey, enviou uma carta ao Secretário de Defesa Pete Hegseth em 30 de outubro de 2025, cobrando informações precisas a respeito do sistema de defesa antimísseis do país, em contraposição ao que é mostrado no filme de Bigelow. Markey solicitou ao secretário informações sobre o histórico do Sistema de Defesa Baseado em Terra (GMD – Ground-based Midcourse Defense) nos últimos 30 anos, incluindo sucessos e falhas, e se esses testes são realizados simulando situações reais, uma vez que mísseis reais têm sistema de iscas falsas e de dissimulação; dados que comprovem a alegação de 100% de eficácia feita pela Agência de Defesa Antimísseis do Pentágono; e os planos para testes do GMD nos próximos cinco anos.

Acredito que a mensagem do filme de Bigelow tenha sido mais focada em pautar um perigo em nível mundial e octogenário, qual seja, uma guerra nuclear mundial, do que representar fielmente a reação das instituições de defesa norte-americanas quando da constatação de que os dois interceptadores tinham falhado. A decisão sensata e o dever dos responsáveis pela defesa do país deveria ter sido o envio de vários interceptadores, e não a resignação em aceitar passivamente a catástrofe que se afigurava.

Apesar de várias críticas ao filme, associadas, por exemplo, ao visível despreparo psicológico de algumas figuras-chave do governo federal em situações de altíssimo risco, à inércia de reação quando da constatação de que um dos interceptadores teria falhado ainda na atmosfera e à dúvida em relação ao final da história, vale a pena assistir ao filme. Ele se diferencia de todos os filmes de mesmo tema até agora feitos. O gerenciamento estratégico para evitar a tragédia iminente é apresentado de forma bastante original, ao mostrar as etapas dos diferentes protocolos de ação dos órgãos de comando e controle responsáveis pela defesa do território norte-americano. Além disso, nos lembra da importância de as nações resguardarem e fortalecerem a diplomacia de Estado e da existência de instituições supranacionais (EU – União Europeia) e internacionais (ONU – Organização das Nações Unidas) atuando, conflito por conflito, justamente para evitar uma ocorrência tal qual a mostrada no filme.

Uma coisa é certa, independentemente do desfecho de qualquer obra de ficção com o tema abordado no filme: em uma guerra aberta entre dois países detentores de armamento nuclear com alta tecnologia embarcada (velocidade hipersônica, múltiplas ogivas, dissimuladores) e com capacidade de envio dessas armas a milhares de quilômetros, como são os EUA, nenhum deles estaria nem razoavelmente seguro. E essa certeza é boa. O artigo de título 80 anos sem guerra mundial graças à invenção da bomba atômica? publicado neste jornal em 02/08/2025 discute sobre o assunto.

Dinis Gomes Traghetta, doutor em Física, é professor e autor do livro “A Bomba Atômica Revelada” – finalista do Prêmio Jabuti de 2014.

Autor: Gazeta do Povo

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