Desde que mamãe adoeceu, Juliana diz que só sei falar sobre morte.
“Não estou falando sobre morte, estou falando sobre vida”, respondo toda vez.
Minha irmã acha que a deixo ansiosa. Como se, do dia para a noite, ela tivesse que resolver todas as pendências da vida, porque tudo ficou urgente.
“Não ficou urgente, Juliana. Sempre foi. Você que só está percebendo agora”.
Falo com a autoridade de quem nunca evitou o assunto. Pode ser chato, eu sei, mas nem sempre consigo controlar. Tenho medo? Tenho. Morro de medo de meus filhos ficarem sem mãe, morro de medo de ficar sem a minha mãe. Por isso mesmo penso sempre na morte. Para evitar os arrependimentos futuros.
Juliana sempre desviou de tudo que a faz lembrar que as pessoas acabam na base do “vira essa boca pra lá”. Acho que ela realmente acredita que a Dona Morte fica vagando por aí, de olho em quem a chama para aparecer e bu!, levar mais um.
Talvez eu devesse respeitar mais, só que agora é diferente. Ela age como se fôssemos duas crianças com a vida inteira por viver. Eu tenho 48, ela tem 52. Nossa mãe faz 80 anos em alguns meses e vem dando reiterados sustos.
No lugar de viver a mãe que tem agora, minha irmã fica esperando voltar a mãe que um dia tivemos. Quando ela estiver mais forte, quando estiver andando melhor, quando puder comer pipoca, quando estiver menos cansada, aí sim!, você não entende que me faz mal ver ela desse jeito.
Assim, frágil. Assim, velha. Assim, humana.
Eu acho que deve ser muito difícil pra Juliana. Ela evita o assunto, porque não consegue imaginar um mundo em que mamãe não exista. Mas eu também não consigo. A diferença é que sei que isso está fora do meu controle. E por isso mesmo aproveito o mundo em que ela ainda está aqui.
Juliana não, acha que quanto menos falar, menos gente morre. Quem dera. Ela acha que essa coisa de viver com urgência faz a gente perder a espontaneidade das coisas. Faz a gente ter medo de futuro. Talvez esteja certa. É cansativo, às vezes, ter tanta necessidade de presente.
Faz tempo que passamos o Natal juntas, nós três. Este ano não vai acontecer. Juliana preferiu viajar só com o marido e os filhos. Ensaiei dizer que poderia ser nosso último Natal com a mamãe, mas não consegui.
Desde que papai morreu, é como se ela tivesse fechado a porta da morte. “Se eu não aceitar que pode acontecer, talvez não aconteça. É por isso que eu sinto tanta raiva de você. Porque você aceita”. Foi isso que ela me disse quando ele não voltou. Que ele tinha morrido, porque eu tinha aceitado sua morte.
Não me senti culpada, mas talvez eu devesse ter sido mais sensível. Eu não queria que ele morresse, claro; mas queria menos ainda que vivesse sem nunca mais conseguir levantar da cama ou se comunicar.
É difícil esse negócio de se acostumar com o fato de que as vidas terminam. Muda nossa linguagem, nossa percepção de mundo, muda as relações. Temos que tomar cuidado para não construirmos muros entre a nossa aparente naturalidade e os medos que quase todo mundo carrega.
Juliana não sabe que um dos meus maiores medos com a morte da mamãe é perder o vínculo que nos une. Se este for o último Natal com ela viva, teremos outro Natal juntas, eu e minha irmã?
Derramo uma lágrima ou outra enquanto termino a mesa que receberá poucas pessoas para a ceia deste ano. Mamãe, eu e minha filha mais nova. Lembro de quando ainda era casada e chegamos a ter mais de vinte.
Sempre gostei muito de viver o Natal. Mas não sei o que esperar dos próximos anos. Sinto que hoje teremos uma sensação de vazio maior do que o vazio que minha mãe deixará quando se for.
Estou tão presa nos meus pensamentos que não escuto o interfone tocar. Combinei com o cuidador de deixar mamãe aqui antes da ceia da sua família. Ela dormirá conosco.
Quando atendo, o porteiro diz que o pessoal está subindo pra festa. “Pessoal”, repito debochada. Peço para Mariana abrir pra avó. Ouço um grito meio assustado e saio correndo da cozinha. Então eu vejo: Juliana, mamãe, mais um pequeno pessoal atrás, com sacolas que espero que sejam o restante de comida que não tenho para oferecer.
Enquanto Mariana abraça os primos, minha irmã cochicha no meu ouvido: “eu só não queria que você agisse como se fosse nosso último Natal“.
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