Um oligarca russo que mudou a cara do futebol com gastos desenfreados antes de ser sancionado e forçado a vender seu time pelo governo britânico violou regras regularmente enquanto construía o clube, o Chelsea, transformando-o em um colosso esportivo, de acordo com uma investigação da Premier League.
As violações cometidas pelo oligarca, Roman Abramovich, incluíram dezenas de milhões de dólares em pagamentos não contabilizados a jogadores, técnicos, executivos, agentes não licenciados e investimentos secretos em jogadores registrados em outros times.
Os novos proprietários do Chelsea identificaram e alertaram a liga sobre algumas das irregularidades antes de comprar o time em 2022 por cerca de US$ 3 bilhões (R$ 15,6 bilhões), o maior valor já pago por um clube de futebol. A liga então iniciou sua investigação.
A Premier League cresceu nas últimas três décadas e se tornou a liga de futebol mais rica e mais assistida do mundo, sendo considerada uma das maiores exportações culturais da Grã-Bretanha. Esse status atraiu a atenção de uma classe global de investidores que inclui alguns dos indivíduos, empresas e governos mais ricos do mundo.
Ser dono do Chelsea permitiu que Abramovich —que, como outros oligarcas, fez bilhões na era caótica de privatização de antigos ativos estatais após a queda da União Soviética— alcançasse uma proeminência e um status que iam além de sua riqueza. O governo britânico impôs sanções a Abramovich dias após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, citando a “relação próxima” do oligarca com o presidente russo Vladimir Putin.
Abramovich teve um impacto imediato no futebol britânico após comprar o Chelsea em 2003, gastando somas enormes para transformar o time, sediado no oeste de Londres, em uma potência nacional e internacional. Sob sua gestão, o Chelsea conquistou cinco títulos da Premier League e também a Champions League, a competição mais prestigiada do futebol europeu, duas vezes. O clube havia conquistado o campeonato inglês apenas uma vez antes de sua chegada.
O Chelsea pagou alguns dos maiores salários e taxas de transferência por jogadores, catapultando o time para o escalão superior do futebol e tornando-o um ímã para estrelas internacionais.
Mas muitos desses contratos foram garantidos com base em grandes violações de regras, disse a Premier League ao publicar detalhes de um acordo de conciliação com os novos proprietários do Chelsea, liderados pela firma de private equity Clearlake Capital, com sede na Califórnia, e pelo investidor americano Todd Boehly. A investigação da liga, que levou quase três anos para ser concluída e envolveu a análise de milhares de documentos, descobriu que o clube havia feito cerca de US$ 66 milhões (R$ 343 milhões) em pagamentos secretos.
A Premier League disse que o Chelsea pagará uma multa de cerca de US$ 14 milhões (R$ 73 milhões), a maior da história da competição. O time também foi proibido de contratar jogadores para seu elenco principal —embora essa penalidade tenha sido suspensa por dois anos— e foi atingido por uma proibição imediata de nove meses para registrar jogadores mais jovens da base.
Em comunicado, a liga disse: “Foi estabelecido que, entre 2011 e 2018, pagamentos não divulgados por terceiros associados ao clube foram feitos a jogadores, agentes não registrados e outros terceiros”.
O Chelsea disse que “divulgou voluntária e proativamente a todos os reguladores aplicáveis possíveis violações históricas de regras, incluindo relatórios financeiros incompletos que ocorreram há mais de uma década”, acrescentando que entregou milhares de documentos.
Rola Brentlin, porta-voz de Abramovich, recusou-se a comentar.
A Premier League disse que a punição teria sido muito mais severa se os atuais proprietários não tivessem cooperado com a investigação. Ainda assim, outros times receberam penalidades mais duras em temporadas recentes, incluindo deduções de pontos na liga, por violações possivelmente muito menos graves, gerando críticas de alguns de que a punição foi muito branda.
“Quando você permite que pessoas contornem as regras com penalidade mínima, isso envia todas as mensagens erradas”, disse Niall Couper, CEO da Fair Game, um grupo de campanha que busca melhorar a governança no futebol inglês.
Para a Premier League, que tem audiências e receitas que superam em muito as de competidores em outros países, os detalhes revelados na investigação arriscavam manchar sua reputação. O relatório de 28 páginas que acompanhou o comunicado da liga mostrou que o Chelsea vinha violando regularmente regras fiscais e de divulgação sem que a liga descobrisse qualquer problema.
Vários dos principais assessores de Abramovich também ocuparam cargos seniores no futebol inglês. A Premier League disse que esses ex-executivos do Chelsea não cooperaram com sua investigação.
“A preocupação é: quem sabia?”, disse Couper. “Pessoalmente, acho que as pessoas tinham medo de descobrir o que Roman Abramovich estava fazendo.”
As revelações surgem enquanto o futebol inglês aguarda os resultados de um caso potencialmente ainda maior, envolvendo o Manchester City. Assim como o Chelsea, o City passou por uma transformação após grandes gastos de seus proprietários, a família governante dos Emirados Árabes Unidos, que adquiriu o clube em 2008. A Premier League acusou o City, o time mais dominante da última década, de cerca de 130 violações de seus regulamentos em um caso que começou a investigar há oito anos. O Manchester City negou todas as irregularidades.
Autor: Folha








.gif)












