Meu médico me aconselhou a não comer chocolate nem doce. Bem, desde que eu parei de beber, um jeito de repor todo aquele açúcar do álcool foi o doce. E agora? Comecei a pensar nos últimos acontecimentos (a dissociação que contei na coluna passada) e me bateu uma saudade grande da minha avó. Ela não era exatamente a pessoa mais doce do mundo, mas comigo, na grande maioria das vezes, era o conforto de que eu precisava. E com essa de não comer doce, me lembrei das tardes de quando eu era pequena e recolhíamos amora dos pés que tinha perto da casa dela para fazer geleia.
Os adultos inventam mil coisas para distrair as crianças, e o processo todo da geleia me animava muito. Então resolvi ir atrás de amoras para fazer a geleia da infância, porque posso fazer sem açúcar (mel, adoçante, etc. A semana toda fiquei com minha avó na cabeça e foi com ela em mente que procurei amora. As árvores de onde pegávamos as frutas ainda existem, acontece que não é época e elas estavam apenas com folhas… Pelo mesmo motivo os mercados e feiras não tinham. Para dizer que não achei nenhuma, encontrei duas caixinhas em um sacolão, só que elas estavam verdes.
E sem as amoras maduras, nada teria graça. Na verdade, nesse processo, fui me aproximando das lembranças com minha avó, que faleceu pouco antes da pandemia, e de quem eu era tão próxima. Isso me ajudou a superar o meu lapso da semana passada, aquela tristeza de hospital, remédios, etc.
Mas não desisti da geleia. Pensei em fazer com morangos, mas não achei nenhum bom. Caminhando no mesmo sacolão das míseras duas caixinhas verdes, me deparei com a gôndola das goiabas: É isso! Vou fazer geleia de goiaba, que dispensa adoçantes.
Escolhi quatro goiabas das mais molinhas e fui para casa. A goiaba ainda apresenta o desafio dos caroços, o que me ajudou no processo de esquecer coisas ruins. Piquei todas elas e fui descartando os caroços que consegui. Não foi fácil, mas funcionou como uma distração. Os caroços que sobraram seriam peneirados depois.
Passei boa parte da tarde fazendo a iguaria e, para me acompanhar, resolvi ouvir músicas de que minha avó gostava. Fiz uma rápida playlist (facilidades que temos hoje em dia) e fiquei ali, entre choros e sorrisos, lembrando de frases e de momentos vividos ao lado da figura ímpar que foi minha avó. Pensei no privilégio que tive de poder conviver tanto tempo com ela. Muitas vezes, quando estava com alguma angústia, ela logo tratava de me animar. “Para com isso e vá viver, Alice.”
Tenho um grande amigo em Alcoólicos Anônimos que me sugeriu, depois de saber do meu episódio, fazer uma lista de gratidão. Das coisas que ganhei em estar sóbria. E é a mais pura verdade. Quando é que eu iria atrás de amoras ou morangos ou goiabas para contornar a falta que o chocolate vai me fazer? Desde me lembrar da geleia da infância, porque o álcool destrói a memória, até cozinhar ouvindo música.
As minhas dores não são maiores nem menores do que as de ninguém. Dor só sabe quem passa, não é? Então, em vez de ficar possessa, me recusar a não comer doces, eu dou uma choradinha e esperneada, porque ninguém é de ferro, mas depois tento achar outros caminhos que me saciem de forma parecida. E vida que segue!
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Autor: Folha




















