Sorocaba, no interior de São Paulo, já foi o maior reduto de manicômios do Brasil. A cidade abrigava quatro hospitais, onde foram internadas milhares de pessoas entre os anos 1950 e 2018. Retalhos desse trauma comunitário, entre cartas de pacientes e formulários médicos, são amontoados em uma plataforma sinuosa como um rio, da qual emergem fotos de pessoas segurando cartazes de protesto.
A obra coletiva “Memórias do Rio: Ecos de Resistência”, erguida no Sesc Sorocaba, compõe o “Frestas – Trienal de Artes”, mostra que está na sua quarta edição e que exibe obras de artistas do interior de São Paulo junto a trabalhos dos nomes mais pop do mundo da arte no país atualmente, em um movimento que rompe, ainda que temporariamente, com o monopólio da capital paulista sobre as grandes exposições de arte.
São 188 obras no total de 102 artistas —28 deles da região de Sorocaba, Campinas, Votorantim, Salto de Pirapora e Eldorado. Sob o tema “Do Caminho um Rezo”, os trabalhos refletem sobre o peso que a história de um território pode ter sobre a vida das pessoas que nele habitam.
“Memórias do Rio: Ecos de Resistência”, por exemplo, além de ser uma espécie de monumento à memória dos ex-pacientes, também reflete sobre o drama atual da cidade, a construção da margem direita do rio Sorocaba, símbolo da região.
A estrutura orçada em R$ 33 milhões que visa conectar diferentes partes da cidade vem sendo criticada por ativistas ambientais, que alertam para o risco de aumento de enchentes e destruição da vegetação local. “A cidade pode se reconhecer dentro da exposição”, diz Cadu Gonçalves, que integra o time curatorial ao lado de Lucinara Ribeiro, Naine Terena, Khadyg Fares e Cristina Fernandes.
Em entrevista a jornalistas, a equipe criticou a ação de mostras que, ao acontecerem fora das grandes metrópoles do país, introduzem apenas artistas renomados sem dar espaço às criações locais.
Em “Frestas – Trienal de Artes”, mesmo as obras de artistas de fama nacional dialogam, de alguma forma, com os fantasmas de Sorocaba. É o caso de um lambe-lambe com imagens do Brasil colonial de Denilson Baniwa, um dos curadores do pavilhão do Brasil na última Bienal de Veneza, que conversa com “Sete Cantos para o Pai João de Camargo”, de Moisés Patrício, uma pequena capela dentro da exposição com vários santos católicos negros.
A obra homenageia João de Camargo, ex-escravizado que se tornou um líder religioso em Sorocaba e um símbolo de resistência negra na região. Não muito longe está um livro enorme com uma série de fotos 3×4 amareladas. “3×4: Memória do Trabalho Negro”, de Guilherme Bretas, reúne retratos de sorocabanos que viveram entre 1920 e 1940. Na parede ao lado, usando inteligência artificial, ele projeta animações desses rostos.
São exibidos também trabalhos do Sertão Negro, coletivo artístico liderado por Dalton Paula que tem sido figurinha carimbada em grande parte das exposições de arte pelo país, da Bienal de São Paulo a Inhotim, e obras de Gervane de Paula, matogrossense que vem aumentando seu destaque nacional desde sua primeira retrospectiva na Pinacoteca de São Paulo, há dois anos.
Paula faz esculturas de tom irônico com materiais diversos, como madeira e embalagens, para criticar a violência dos conservadores no interior do Brasil, liderados pelo agronegócio. Em “Frestas”, por exemplo, uma enorme cruz feita de pregos, com as mãos e pés de Cristo esculpidos em madeira, exibe a escrita “arte aqui eu mato”.
Outros destaques são as telas de Tomoo Handa, artista japonês que migrou para o interior do Brasil e pintou a vida camponesa, as pinturas de cenas cotidianas da comunidade libanesa de Asmahen Jaloul, sobrepostas por molduras de janelas ou grades e, ainda, as cadeiras ornamentadas com animais esculpidos dos Carpinteiros da Amazônia, coletivo que também constrói casas ribeirinhas coloridas.
Entre os artistas internacionais estão presentes a argentina Luciana Lamothe, que representou seu país na última Bienal de Veneza, e o inglês Richard Long, precursor da cena da land art no Reino Unido. O movimento consiste em fazer intervenções em paisagens, que funcionam como material criativo.
Em “Frestas” estão expostos registros fotográficos de Long. Em um deles, vemos um círculo de pedras no deserto do Saara. Em outro, uma linha reta se desenha no meio do gramado de um parque em Londres e relembra as marcas deixadas pela trajetória humana —caminho que a exposição parece querer investigar.
Autor: Folha








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