sexta-feira, março 20, 2026
25.2 C
Pinhais

SUS terá canetas emagrecedoras com queda da patente? – 20/03/2026 – Equilíbrio e Saúde

O Rio de Janeiro se tornou a primeira cidade brasileira a oferecer o medicamento Ozempic pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Em ato simbólico na quarta-feira (18), o prefeito Eduardo Paes (PSD) aplicou a primeira dose da chamada caneta emagrecedora em uma paciente, marcando um passo inédito no combate à obesidade no país.

A iniciativa veio em um momento relevante: a patente da semaglutida, princípio ativo presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy, —usados para tratar diabetes tipo 2 e obesidade, respectivamente— expira no Brasil nesta sexta-feira (20). Com o fim da exclusividade da farmacêutica Novo Nordisk, outras empresas poderão desenvolver versões que trazem esse composto.

Na prática, isso abre caminho para concorrência e uma eventual redução de preços, embora isso não deva acontecer de imediato devido a entraves regulatórios e industriais. Na semana passada, durante um evento no Rio ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Paes pediu que o governo federal incorporasse o medicamento em toda a rede pública.

Lula, porém, tratou o tema como delicado e disse que o remédio “não é um prêmio para quem é relaxado”.

“Tem que ser dado para as pessoas que, por necessidade de saúde, não conseguem emagrecer. Mas o médico tem que dar a receita ensinando a andar. Por que as pessoas não andam meia hora todo dia? Por que é que não caminham? Por que não fazem ginástica? As pessoas têm que aprender a tirar a bunda da cadeira e andar um pouco”, disse o presidente.

No entanto, médicos lembram que a obesidade deve ser encarada como doença, e não como falha de caráter ou simples falta de esforço em emagrecer ou manter um peso considerado saudável.

“Não enxergar o tratamento da obesidade com a seriedade que ele tem que ser visto depois tantos anos de evolução, sem nenhum tratamento disponível no SUS, e ainda enxergar a obesidade como um problema estético, isso é praticamente criminoso, na minha opinião. Ainda mais agora quando ciência está escancarada na nossa frente, mostrando o quanto funciona e o quanto são importantes [esses medicamentos]”, opina a médica Cynthia Valério, presidente eleita da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade).

Apesar dos apelos para que as canetas sejam incluídas no Sistema Único de Saúde (SUS) do país todo, especialistas acreditam que isso ainda está distante da realidade.

O custo é um dos principais obstáculos. No Brasil, o tratamento mensal com essa medicação fica na casa dos R$ 1.400.

Isso dificulta o acesso principalmente pessoas mais pobres, que são cada vez mais afetadas pela obesidade.

“A gente está aqui falando sobre um dos tratamentos mais caros da história da humanidade, porque parte dos outros tratamentos, que são tratamentos de alto custo, são muitas vezes baseados um uma única dose de medicamento”, contextualiza Rafael Claro, professor da Escola de Enfermagem da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

“No momento, não há um tratamento que você vai ter que fazer por sessenta anos de vida, e que tem um custo mensal tão elevado quanto as canetas”, acrescenta.

Ainda assim, esse momento marca um novo capítulo das canetas emagrecedoras no Brasil, que tem transformado não apenas a saúde, mas a dinâmica de consumo dessas pessoas em diversos setores da economia, como você entende ao longo da reportagem.

Do preço de passagens aéreas a mudanças no supermercado, já existem diversos exemplos de como o uso ampliado desses remédios tem modificado não apenas a saúde, mas também a economia e a sociedade como um todo.

A revolução das canetas emagrecedoras

De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), 43% dos adultos tem sobrepeso e 16% são obesos.

No Brasil, o número é ainda mais preocupante. Dados do Atlas Mundial da Obesidade 2025 apontam que aproximadamente um a cada três brasileiros (31%) vive com obesidade.

Esse acúmulo de gordura no corpo não é apenas uma questão estética: ele está diretamente relacionado a doenças como diabetes, câncer e problemas cardiovasculares, responsáveis por quase 4 milhões de mortes todos os anos no planeta.

Durante décadas, quem enfrentava a obesidade tinha poucas alternativas, que muitas vezes se limitavam a dietas restritas e exercícios físicos —medidas importantes, mas insuficientes para os casos mais complexos, segundo estudos.

Um estudo britânico realizado em 2015 com mais de 280 mil pessoas, mostrou que apenas um em cada 210 homens e uma em cada 124 mulheres com obesidade consegue manter um peso saudável só com dieta e exercício.

Segundo Valério, para a grande maioria das pessoas, principalmente aquelas que convivem há muito tempo com sobrepeso e obesidade, é cada vez mais difícil manter uma dieta tão restritiva, enquanto o organismo pede por mais e mais comida, e faz de tudo pra estocar qualquer excedente de calorias consumidas.

“As pessoas que têm maiores índices de obesidade, elas vão, de fato, enfrentar uma resistência muito maior para conseguir perder e sustentar o peso perdido. Isso é fisiológico, e aí é que entra a importância de tratamento eficaz para essas pessoas”, afirma a médica.

Só que, até uns dez anos atrás, os remédios disponíveis tinham uma ação bem limitada, e levavam a uma perda de 5 a 10% do peso corporal. Até que surgiram as chamadas canetas emagrecedoras.

Inicialmente desenvolvidos para tratar o diabetes, esses medicamentos mostraram um efeito adicional poderoso: a perda de peso significativa.

Nos estudos que serviram de base pra aprovação do Wegovy, a perda de peso entre os voluntários foi de até 17%. Já nos testes clínicos do Mounjaro, outra medicação dessa classe, fabricada pela farmacêutica Eli Lilly, os pacientes que fizeram o tratamento tiveram uma redução de peso de até 26%.

Isso acontece porque, além de mexer no metabolismo da insulina e atrasar o esvaziamento do estômago, essas substâncias agem em áreas como o hipotálamo, uma região do cérebro que controla a saciedade e a fome —e, com isso, reduzem o apetite.

Mas além da perda de peso, as canetas emagrecedoras têm transformado a forma como as pessoas se relacionam com atividades físicas e provocado mudanças nesse setor.

Em entrevista ao jornal The New York Times, pessoas que utilizam medicamentos como a semaglutida para tratar obesidade ou diabetes relataram uma mudança significativa na forma como encaram a prática de exercícios.

Sem a pressão constante de queimar calorias ou perder peso, elas passaram a se envolver com atividades físicas de maneira mais positiva —enxergando como uma forma de bem-estar e não mais como uma punição por excessos alimentares.

A indústria fitness já começa a se adaptar a esse cenário em que promessas de emagrecimento rápido já não são o principal atrativo.

Nos Estados Unidos —e, mais recentemente, no Reino Unido— empresas de bem-estar têm criado programas e até “retiros” voltados especificamente para usuários de canetas emagrecedoras.

“Passamos a treinar nossos instrutores para oferecer o melhor suporte possível a esse público”, afirma Will Orr, diretor-executivo do The Gym Group.

Enquanto isso, mudanças no setor também ficam evidentes em outros aspectos: nos EUA, por exemplo, o Vigilantes do Peso, um tradicional programa de suporte ao emagrecimento, declarou falência no ano passado.

Mudanças nos hábitos de consumo

O uso desses medicamentos também têm gerado uma mudança significativa nos hábitos alimentares das pessoas, afetando a forma como elas gastam seu dinheiro com alimentos e bebidas.

Um relatório recente da consultoria OC&C apontou um menor interesse nos supermercados por comidas não saudáveis, como salgadinhos e bolachas.

Pacientes que usam as injeções para emagrecer relataram que têm comprado mais alimentos frescos e menos opções de refeições prontas, por exemplo.

Essa mudança fez com que supermercados britânicos lançassem linhas de refeições prontas em porções menores e ricas em nutrientes.

“O mercado teve que responder a essa mudança de comportamento, que, no fundo, é genuína, porque é uma mudança que busca a saúde de toda a população. Então fazer porções menores de comida e mais saudáveis, isso é absolutamente desejado”, pontua Cynthia Valério.

Há também um impacto na frequência com que usuários desses medicamentos vão a restaurantes e pedem comida em casa, por aplicativos de entrega.

Uma pesquisa realizada no ano passado pela consultoria KAM Insight revelou que quase um terço das pessoas que usam as canetas emagrecedoras passou a sair com menos frequência para comer e beber fora.

No Reino Unido, isso levou o restaurante The Fat Duck —premiado com uma estrela Michelin e comandado pelo famoso chef Heston Blumenthal— a lançar um novo menu para pessoas que buscam uma alimentação mais consciente, incluindo aquelas que fazem uso de supressores de apetite.

No Brasil, já existe até um movimento de restaurantes que oferecem rodízios —como de comida japonesa, pizza ou churrasco— com descontos para clientes que utilizam medicamentos como Wegovy ou Mounjaro, mediante apresentação de receita médica.

“É sinal que tem um público muito grande numa determinada bolha, que possivelmente é a bolha que a gente vive, que está fazendo o uso dessas canetas e que, por isso, deixava de ir no rodízio, já que sabia que ia comer uma quantidade pequena de comida. Já não fazia mais sentido ir lá. E os rodízios estão percebendo isso”, comenta Rafael Claro.

Estudos demonstram ainda que usuários de Mounjaro e Wegovy estão consumindo cada vez menos bebidas alcóolicas.

Uma pesquisa realizada em fevereiro de 2025 pela empresa de pesquisa de mercado Worldpanel by Numerator constatou uma queda de 15 pontos percentuais no volume de compras de bebidas alcoólicas entre famílias com usuários das canetas em comparação com um grupo de controle.

Outros setores também devem sentir os efeitos, como moda e beleza.

Analistas apontam que a perda de peso em larga escala pode impulsionar a demanda por roupas novas – e até fortalecer o mercado de segunda mão, à medida que consumidores substituem peças que já não servem mais.

Também há projeções de aumento na procura por cirurgias para remoção de excesso de pele após um emagrecimento significativo.

Redução no preço do açúcar e até de passagens aéreas

A popularidade das chamadas canetas emagrecedoras também vem sendo apontada como um fator que influencia a queda de preços de alguns produtos, como o açúcar.

No Brasil, os valores atingiram em fevereiro o menor nível desde 2019, segundo o Cepea/Esalq.

Em Nova York, os contratos futuros do açúcar bruto de cana caíram para menos de 14 centavos de dólar por libra, o patamar mais baixo desde outubro de 2020 e menos da metade do registrado no fim de 2023.

Enquanto isso, o mercado de laticínios segue na direção oposta. Reportagem do jornal Financial Times mostrou que os preços do soro de leite dispararam, impulsionados tanto pelo uso desses medicamentos quanto por tendências mais amplas de saúde, que favorecem produtos ricos em proteína.

De acordo com John Lancaster, da corretora StoneX, a demanda “aumentou dramaticamente”, e produtos com alto teor proteico à base de soro —usados em pós e barras— atingiram níveis próximos de recordes na Europa e nos Estados Unidos.

Os efeitos desses fármacos podem chegar até a setores menos óbvios, como o de viagens de avião.

Um estudo do banco de investimentos Jefferies aponta que as quatro maiores companhias aéreas dos Estados Unidos —American Airlines, Delta Air Lines, Southwest Airlines e United Airlines— poderiam economizar até US$ 580 milhões por ano em combustível caso os passageiros, em média, fiquem mais leves.

Isso ocorre porque o peso total da aeronave impacta diretamente o consumo de combustível.

Segundo o estudo, essas empresas devem consumir juntas cerca de 16 bilhões de galões em 2026, a um custo estimado de US$ 38,6 bilhões —quase 20% de suas despesas totais.

A economia gerada pelo eventual emagrecimento dos passageiros representaria cerca de 1,5% desse valor.

Ainda assim, pequenas variações de peso são relevantes: quanto mais leve o avião, menor o esforço necessário para mantê-lo em voo.

O relatório também sugere possíveis ganhos para investidores: uma redução de 2% no peso médio das aeronaves poderia elevar o lucro por ação em cerca de 4%.

Isso tem alimentado especulações de que, no futuro, parte dessa eficiência no uso dos combustíveis possa até se refletir em passagens mais baratas.

Embora ainda haja muita especulação —e nem todas essas tendências necessariamente se concretizem—, é inegável que esses medicamentos já estão provocando mudanças relevantes.

“A gente pode ou estar diante de uma situação muito semelhante com a pílula anticoncepcional, que não mudou simplesmente a taxa de natalidade. Ela mudou a sociedade como um todo e teve um impacto social gigantesco”, afirma Fernanda Scagliusi, pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Alimentação, Corporalidades e Cultura da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo).

Mas, se o impacto for negativo, Scagliusi pontua que poderíamos viver algo muito parecido à crise dos opioides nos EUA.

“E que foi colocada de uma maneira de marketing muito semelhante ao atual: ‘Você não precisa viver com dor’, ‘Não aceite a dor, há a solução para isso’. Assim como hoje em dia se fala: ‘Você não precisa viver com obesidade, há a solução para isso’. Porém, naquele caso, foi um desastre”, analisa a pesquisadora.

Apesar das mudanças na saúde e dos bons resultados relacionados à perda de peso, as canetas emagrecedoras trouxeram à tona uma das principais preocupações em torno dessa nova geração de tratamentos contra a obesidade: o uso com finalidade estética.

Especialistas destacam que embora esses medicamentos tenham sido desenvolvidos para tratar uma doença crônica, muitas pessoas têm recorrido a eles sem indicação médica adequada, como uma solução rápida “para perder alguns quilos”.

Segundo Cynthia Valério, o principal problema desse uso indiscriminado é afastar do tratamento quem realmente precisa.

“A pessoa que precisa e já é resistente ao tratamento, e tem inseguranças, vai ficar ainda mais assustada quando tiver notícias dessas pessoas que tinham peso normal, sem indicação e sem acompanhamento, e que acabam muitas vezes com muito mais efeitos colaterais. Porque, afinal de contas, o remédio foi estudado para quem tinha obesidade”, destaca.

Para Renata Pereira, farmacêutica especialista em estética, esses medicamentos são vistos hoje como um objeto de consumo, o que leva muitas pessoas a consumirem sem entender o que isso envolve.

“A informação hoje em torno das canetas emagrecedoras não está sob controle. Você acaba gerando aquele sonho de consumo. Então a pessoa que quer emagrecer, mesmo que ela não esteja no estágio de obesidade, ela vê ali um caminho mais fácil, porque de fato funciona, elas têm resultado”, diz Renata Pereira, farmacêutica especialista em estética.

E é justamente esse resultado que ajudou a impulsionar um mercado multibilionário desses medicamentos.

No Brasil, o Conselho Federal de Farmácia apontou que as vendas desses medicamentos cresceram 88% em 2025 na comparação com o ano anterior.

O aumento da demanda também atraiu a atenção de criminosos, dando origem a um mercado paralelo. A Associação Brasileira de Farmácias e Drogarias estima prejuízos de quase R$ 69 milhões relacionados ao roubo dessas canetas apenas no Estado de São Paulo.

Além disso, cresce a preocupação com produtos falsificados, que têm sido alvo de operações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e de outros órgãos de fiscalização.

“Ninguém tem o número de medicamentos irregulares sendo utilizados no Brasil, ninguém tem. Quantas pessoas estão comprando isso?”, questiona Pereira.

Por meio de nota, a Novo Nordisk, responsável pela produção do Ozempic e do Wegovy, disse que não endossa, promove ou apoia o uso fora da bula de seus produtos em nenhuma circunstância. Segundo eles, o uso fora dessas indicações aprovadas não conta com o mesmo respaldo científico e de segurança.

A Lilly, fabricante do Mounjaro, mostrou “profunda preocupação com uso de medicamentos pra fins estéticos”, e diz não promover nem incentivar o uso não aprovado de seus produtos, além de cooperar com a Anvisa pra coibir o mercado de contrabando, roubos e canetas falsas.

Já a Anvisa informou que determinou a retenção de receita no ato de venda desses medicamentos para estimular o uso racional e ter maior controle sobre o uso.

Além disso, disse estar atuando ativamente na fiscalização de anúncios de vendas desses remédios na internet —algo que é totalmente proibido no Brasil— e também tem coibido a entrada de canetas emagrecedoras importadas de outros países.

Este texto foi publicado originalmente aqui.

Autor: Folha

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas