Nos últimos dois anos, a Austrália tem permitido que psiquiatras tratem o transtorno de estresse pós-traumático com MDMA, o composto químico mais conhecido como ecstasy. Os resultados iniciais têm sido impressionantes, dizem os pesquisadores, com mais da metade dos pacientes que receberam MDMA junto com psicoterapia relatando alívio significativo do TEPT.
Igualmente notável é que os reguladores de medicamentos australianos não registraram nenhum evento adverso grave entre os quase 200 pacientes que passaram pelo programa, que inclui até três sessões de dosagem com MDMA, um estimulante sintético que promove empatia, conexão emocional e sensações de euforia.
“Comparados aos tratamentos convencionais, os resultados que estamos vendo até agora com a terapia assistida por MDMA têm sido extraordinários”, diz Ranil Gunewardene, psiquiatra em Sydney que tratou mais de 40 pacientes desde que os reguladores australianos criaram um caminho legal para a droga.
O MDMA não é um psicodélico clássico como a psilocibina e o LSD, que induzem alucinações e outras mudanças na percepção sensorial. O MDMA é um empatógeno, uma classe de drogas que produz sentimentos de conexão social e abertura emocional. A droga inunda o cérebro com serotonina, dopamina, ocitocina e outros neurotransmissores que desempenham papéis fundamentais na regulação de euforia, movimento e memória. Também reduz a atividade na amígdala, frequentemente referida como o “centro do medo” do cérebro.
Os efeitos colaterais comuns incluem frequência cardíaca elevada, náusea, tensão na mandíbula e visão turva. Mas muitos especialistas dizem que há necessidade de mais pesquisas sobre efeitos a longo prazo.
Inventado no início do século 20, a promessa terapêutica do MDMA nasceu nos anos 1970, quando terapeutas de San Francisco descobriram que a droga permitia aos pacientes confrontar um trauma profundamente enterrado que frequentemente era a raiz não reconhecida de sua depressão ou angústia.
Gunewardene, o psiquiatra de Sydney, diz que o MDMA tinha efeitos calmantes e ansiolíticos em pacientes cujo trauma —abuso na infância, por exemplo— os havia deixado dissociados de suas emoções. “Você acaba desconectado das pessoas, da natureza, da música, das emoções e do seu próprio corpo”, disse. “É como viver em uma prisão de vidro denso.”
Mas o experimento da Austrália com medicina psicodélica também destaca as limitações e restrições que o campo nascente provavelmente enfrentará à medida que ganha maior atenção de reguladores e profissionais. Como a Austrália é o primeiro país a legalizar e regulamentar a terapia com MDMA, os pesquisadores têm estado especialmente ansiosos por dados do mundo real sobre uma droga que foi pejorativamente associada à cultura rave.
Com um custo médio de US$ 20 mil (cerca de R$ 105 mil) para até três sessões com MDMA e 40 horas de psicoterapia, o tratamento com MDMA está em grande parte fora do alcance dos cerca de 1 milhão de australianos que sofrem de TEPT, uma condição de saúde mental que costuma ser difícil de tratar e está associada a altas taxas de suicídio.
Outra questão é o acesso. Menos de 50 psiquiatras estão autorizados a prescrever as drogas em um país de 28 milhões de pessoas.
Outras regras também contribuem para os altos custos do programa, como exigir que o psiquiatra prescritor permaneça no local durante as sessões de seis a oito horas, junto de dois psicólogos que acompanham o paciente.
Em comunicado, a TGA (órgão regulador australiano) diz que a supervisão rigorosa é necessária, dado que o MDMA é considerado um medicamento experimental. Pelas regras atuais, apenas pacientes que não experimentaram melhora significativa com tratamentos psiquiátricos convencionais são elegíveis para terapia psicodélica.
A Mind Medicine Australia, um grupo de defesa que fornece assistência financeira a pacientes que buscam terapia psicodélica, tem pressionado os reguladores para reduzir custos e ampliar o acesso, flexibilizando as restrições sobre quem pode administrar a droga e quem se qualifica para o tratamento.
“Dado o imenso sofrimento de pacientes que potencialmente podem acabar tirando suas próprias vidas, a falta de acesso é inaceitável”, diz Tania de Jong, diretora executiva da Mind Medicine Australia, que desempenhou um papel fundamental no esforço para persuadir os reguladores a flexibilizar as restrições ao MDMA.
Maddison Bright, sobrevivente de abuso sexual que foi diagnosticada com TEPT complexo, havia tentado praticamente todas as intervenções terapêuticas para ansiedade e depressão, desde antidepressivos convencionais até betabloqueadores, hipnoterapia e estimulação eletromagnética cerebral.
Ela tornou-se a primeira paciente na Austrália a passar por um tratamento psicodélico e, nos dois anos desde sua última sessão com MDMA, Bright disse que encontrou paz. Ela não toma mais medicação psiquiátrica e se descreve como “centrada, conectada e transformada”. Sua ansiedade não foi completamente vencida, mas ela disse que a terapia com MDMA lhe deu as ferramentas para lidar com os ataques de pânico ocasionais.
O programa de terapia assistida por MDMA da Austrália é baseado em protocolos desenvolvidos pela Maps, uma organização sem fins lucrativos dos EUA que passou quatro décadas desenvolvendo um modelo terapêutico para MDMA que pudesse passar pelo crivo da FDA (agência reguladora americana).
Em 2023, especialistas da Maps viajaram para a Austrália para fornecer o primeiro treinamento para profissionais de saúde mental de lá. Cerca de um ano depois, por volta da época em que a terapia com MDMA estava sendo introduzida na Austrália, a FDA recusou aprovar a solicitação, alegando dados insuficientes sobre eficácia e segurança.
Desde então, a Lykos Therapeutics, empresa de desenvolvimento de medicamentos desmembrada da Maps, tem conduzido ensaios clínicos adicionais solicitados pela FDA.
Autor: Folha








.gif)












