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Terra indígena: pecuária no Burareiro devasta região – 09/01/2026 – Txai Suruí

A Terra Indígena Uru Eu Wau Wau, uma enorme floresta com nascentes e animais e uma das maiores terras indígenas, vive há anos um conflito envolvendo a sobreposição de seu território e parte do PAD (Projeto de Assentamento Dirigido) Burareiro, da época da ocupação da Amazônia. A situação do PAD Burareiro é um quadro grave de distorção do propósito original de reforma agrária, concentração fundiária e significativos danos ambientais.

Em 1991 foi demarcada a Terra Indígena Uru Eu Wau Wau, dos povos Jupaú, Amondawa, Oro In, Cabixi, Oro Nao e de quatro povos indígenas em isolamento voluntário. Com o reconhecimento do território indígena, a área ficou sobreposta a uma parte do PAD Burareiro, especificamente 115 lotes destinados às famílias assentadas pelo Incra em 1978. Tendo em vista essa sobreposição, a FUNAI ajuizou ação de reintegração da posse e desconstituição dos títulos de domínio outorgados pelo Incra.

Para subsidiar o CNJ, a Associação Kanindé, Conectas Direitos Humanos e o Instituto Dados desenvolveram uma Análise Fundiária e Perfil de Ocupação do PAD Burareiro para esclarecer o perfil socioeconômico dos ocupantes e analisar a perda de cobertura florestal da região ao longo do tempo. Foram utilizados dados públicos provenientes do Cadastro Ambiental Rural (CAR) de 2019 e 2025, da Guia de Trânsito Animal (GTA), de embargos do Ibama e os dados de desmatamento do Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (PRODES).

A análise demonstra que agentes que não estavam entre os beneficiários originais representam a maior parte da ocupação do PAD atualmente. Apenas três assentados iniciais foram identificados. Em seu lugar, consolidou-se um perfil de médios e grandes pecuaristas. Evidências disso são imóveis que ultrapassam quatro módulos fiscais (como um de 1.143 hectares, formado pela fusão de cinco lotes) e a constatação de que muitos ocupantes possuem várias outras propriedades fora e inclusive dentro da própria terra indígena.

A atividade econômica dominante é a pecuária extensiva. Entre 2008 e 2022, 36 imóveis dentro do Burareiro movimentaram mais de 11 mil cabeças de gado, com um único lote sendo responsável por 23% desse total. A rede de negócios dos ocupantes é ainda maior, movimentando mais de 34 mil animais no período, o que gerou um volume financeiro estimado em centenas de milhões de reais.

Esse modelo de ocupação provocou um impacto ambiental devastador. Dados oficiais mostram que, até 2024, aproximadamente 61% da floresta original dentro dos limites do PAD Burareiro foi derrubada, restando apenas fragmentos. A recorrente ilegalidade é confirmada pela existência de 33 embargos ambientais do Ibama na área.

Políticos usam a situação do PAD Burareiro para se beneficiar eleitoralmente, disseminando fake news e colocando a população contra os indígenas, argumentando que se trate de um assentamento familiar, quando na verdade é um polo de pecuária empresarial que derruba a floresta e está sobre um cemitério indígena sagrado, violentando os povos indígena física, territorial e espiritualmente. A desintrusão é um dever do Estado, que precisa garantir o direito dos povos indígenas e da floresta.

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