O teste de genotipagem molecular para HPV de alto risco identificou cerca de seis vezes mais infecções do que o número de alterações celulares detectadas pelo exame de papanicolau convencional entre mulheres das regiões administrativas de Brasília. Os dados fazem parte de um estudo do Projeto Tenda+, apresentado nesta sexta-feira (20) no Eurogin 2026, congresso mundial sobre papilomavírus humano realizado na Áustria.
A pesquisa foi desenvolvida por uma equipe multidisciplinar de instituições, como o Instituto Butantan e a Universidade Campo Real, e analisou 753 amostras cervicais coletadas em tendas itinerantes instaladas em localidades do Distrito Federal que fizeram a coleta em mulheres entre 18 e 79 anos (média de 48 anos).
O principal achado está na comparação entre os dois métodos. Enquanto a genotipagem do DNA do HPV identificou positividade em 16,6% das amostras, foram detectadas apenas 2,92% de alterações celulares pelo papanicolau.
O dado é relevante porque, segundo o Ministério da Saúde, quase 100% dos casos de câncer do colo do útero são causados pelo HPV e, quando a infecção é identificada precocemente, as chances de prevenir o desenvolvimento do tumor são altas. Em 2025, 7.249 mulheres morreram em decorrência das complicações do tumor.
No estudo, das 125 mulheres com infecção confirmada pelo teste de DNA-HPV, a faixa de 40 a 60 anos concentrou 54,4% dos casos. Os genótipos mais prevalentes foram HPV-16 (17,6%), HPV-68 (16,01%), HPV-66 (12,80%), HPV-58 (11,20%) e HPV-39 e HPV-52 (9,6% cada).
O Ministério da Saúde está substituindo como principal forma de rastreio do câncer do colo do útero no SUS (Sistema Único de Saúde) o exame de papanicolau pelo teste de DNA-HPV. Até o momento, Pernambuco, Pará, Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Rio de Janeiro oferecem o exame, com meta de chegar a todos os estados do país até dezembro de 2026.
Os métodos, no entanto, não são concorrentes. “A citologia de papanicolau e a genotipagem são complementares e serão melhor indicadas de acordo com o subtipo do vírus com o qual a mulher teve contato”, explica Maria dos Anjos, ginecologista dos laboratórios Delboni e Lavoisier.
O novo modelo do Ministério da Saúde prevê que mulheres com resultado positivo para HPV-16 ou HPV-18, responsáveis pela maior parte dos casos de câncer do colo do útero, sejam encaminhadas diretamente para a colposcopia, exame que permite visualizar o colo do útero. Já aquelas com outros genótipos de alto risco passam primeiro pela citologia, com o papanicolau. A estratégia busca não só ampliar a detecção do vírus, mas também dar mais rapidez ao diagnóstico de quem tem maior risco e evitar exames desnecessários nas demais.
A vacina é a principal forma de prevenção ao HPV. No SUS, podem se imunizar pessoas de 9 a 14 anos. Até junho deste ano, o Ministério da Saúde ampliou o público para pessoas até 19 anos, para vacinar os jovens que perderam a chance quando estavam na faixa etária indicada. No sistema privado, o imunizante pode custar cerca de R$ 3.000 o esquema completo, com indicação até os 45 anos.
“Quando ampliamos o acesso à prevenção e ao diagnóstico precoce, damos às mulheres a oportunidade de evitar um câncer que na maioria das vezes pode ser prevenido”, afirma a ginecologista Maria dos Anjos.
Autor: Folha



















