Na primeira cena da série “The Beauty: Lindos de Morrer”, a modelo americana Bella Hadid encarna uma mulher ensandecida que tenta aliviar uma dor excruciante jogando água da privada no rosto. Não dá certo. Ela deixa o banheiro mancando e se depara com policiais com as armas em riste. Frustrada, faz cara de choro, solta sangue pelos olhos e explode. As tripas caem nas pessoas ao redor.
Mais adiante na série, que estreia nesta quarta-feira no Disney+, um rapaz gordo, muito solitário, ouve um cirurgião plástico dizer que ele só vai perder a virgindade quando mudar radicalmente o próprio corpo. O homem, então, topa fazer uma cirurgia que deixa seu queixo quadrado. Mas ele segue feito de chacota pelas mulheres com quem tenta se relacionar.
A alternativa, afirma o médico, é um processo caríssimo que alteraria toda a sua composição corporal —trata-se de um vírus transmitido por relações sexuais que transforma o esqueleto dos infectados.
Uma transa depois, o homem perde dezenas de quilos e vê músculos brotarem nos bíceps. O tal vírus é o mesmo que acometeu a mulher morta no começo da série. Ele começa a se espalhar pelo mundo, e destrói outros corpos aparentemente perfeitos.
Magreza extrema, genitais enormes e dentes perfeitamente alinhados são apenas alguns dos desejos dos personagens da nova série do produtor e roteirista Ryan Murphy, conhecido por debater obsessões e loucuras em suas obras.
Murphy não economiza na acidez em “The Beauty”. No primeiro episódio, por exemplo, faz piada com o Mounjaro, medicamento que ficou famoso no ano passado por ajudar pessoas —especialmente celebridades— a emagrecerem com velocidade assustadora.
“Ryan gosta de falar da estética que rege as nossas vidas, no sentido de que o corpo, a moda e a imagem despertam encanto, interesses e prazeres genuínos”, diz o ator Ashton Kutcher, que está no elenco da série.
Escrita também por Matthew Hodgson, “The Beauty” pega carona no sucesso do filme “A Substância”, em que Demi Moore faz uma atriz mais velha que passa a ser rejeitada por causa de sua idade. Ela apela, então, a um composto misterioso que a permite rejuvenescer.
Perseguir a beleza inalcançável é, afinal, um assunto caro à Hollywood do mundo real, diz Kutcher, que se considera uma vítima das críticas feitas pela série. Kutcher ficou conhecido como galã de filmes de comédia romântica dos anos 2000, caso de “Jogo de Amor em Las Vegas” e “Sexo sem Compromisso”.
“Há, entre nós, uma busca por uma estética inatingível criada por filtros, iluminação e edição”, ele afirma. “Não diria que isso chega a guiar a minha vida, mas, sabendo que posso ser fotografado na rua, sempre penso muito bem no que vou vestir antes de sair de casa.”
Kutcher interpreta o milionário criador da droga que acaba gerando o vírus mortal. Ao descobrir que agentes do FBI estão investigando a epidemia, ele contrata um assassino de aluguel, vivido por Anthony Ramos, para impedir que arruínem o seu império.
Para chocar, “The Beauty” recorre ao erotismo e às cenas cheias de sangue e nojeiras. “Existe uma sedução em certas escolhas do Ryan na hora de filmar”, diz Ramos. “O suor no rosto, o brilho nos lábios, a camisa molhada, o jeito que usamos ou não maquiagem. Tudo isso desperta reações no público.”
Autor: Folha







