O machismo estrutural faz com que os homens cresçam sem ser incentivados a perceber demandas, antecipar necessidades e assumir responsabilidades cotidianas. Desde cedo, eles são autorizados a ocupar o espaço doméstico como usuários, não como gestores. O resultado é uma rotina sustentada pelo trabalho feminino —emocional, logístico e intelectual—, muitas vezes invisível.
Mas as mulheres estão exaustas. Tanto de carregar esse peso quanto de precisar reivindicar o óbvio: a distribuição igualitária da carga mental, das tarefas da casa e dos cuidados com todos que vivem dentro dela. E também de ter que ensinar, lembrar, delegar, supervisionar e agradecer pelo mínimo. No mês da mulher, nada mais oportuno do que um manual de instruções para ser um adulto de verdade.
‘Ajudar’ não é suficiente
Não é só lavar a louça ou a roupa quando alguém pede, mas fazer a lista de compras, saber onde as coisas estão guardadas (a começar pelas suas próprias), marcar consultas, resolver problemas e dar conta de responsabilidades que são de todos, independentemente do gênero.
Se você só se levanta do sofá e realiza suas tarefas quando uma mulher pede, não se vanglorie. Ser funcional é assumir as demandas com autonomia, e não esperar alguém dar a mão e guiar o caminho. A lógica da “ajuda” mantém a ideia de que a responsabilidade original é da outra pessoa —e isso é exatamente o que precisa mudar.
Lavou um prato, trocou uma fralda, foi o primeiro a perceber que o lixo estava cheio e colocou para fora? Ótimo. Mas você está apenas fazendo a sua parte. Não espere aplauso por comportamentos que são, na verdade, obrigações de qualquer adulto. Normalizar o básico é um passo importante para relações mais equilibradas.
O invisível que sustenta o todo
Mais do que ir ao mercado, é preciso saber quando ir e o que comprar. Planejar refeições, lembrar horários, antecipar imprevistos, saber onde guardar as coisas: tudo isso faz parte de uma carga mental que recai majoritariamente sobre as mulheres —muitas vezes sem que os homens sequer percebam.
Essa gestão constante consome energia cognitiva e emocional. Dividir tarefas sem repartir o planejamento ainda é desigualdade. Quem pensa, organiza e coordena continua sobrecarregada.
Quem não sabe aprende
Fazer arroz, fritar um ovo e escolher o produto certo para limpar o chão: nenhuma mulher nasce sabendo essas coisas. Aprender leva tempo, é verdade. Mas repetir o básico mal feito também pode ser estratégia —consciente ou inconsciente— para ser dispensado da função no futuro. Competência doméstica se constrói com prática, exatamente como qualquer outra habilidade na vida adulta.
Cuidar também é papel do homem
Ler o entorno, antecipar necessidades e agir sem ser solicitado são atitudes que fazem parte do cuidado com a casa, com os filhos e com os mais velhos —e nada disso ameaça a masculinidade. Pelo contrário: responsabilidade, confiabilidade e presença são atributos de maturidade (o que é extremamente sexy). Além de não diminuir ninguém, o cuidado ainda fortalece relações e cria ambientes mais saudáveis para todos.
Seu trabalho não é mais importante
Todo adulto tem responsabilidades profissionais. É hora de buscar a criança na escola e ambos estão presos em demandas de trabalho? É preciso debater e encontrar uma forma de se revezar. Não é dever apenas da mulher abrir mão do resto da vida em prol do cuidado. Além de tudo, ao priorizar a carreira, muitas mulheres são criticadas socialmente por “delegar” a criação dos filhos a outra pessoa.
Tudo seria diferente caso a divisão de tarefas fosse realmente igualitária, desde políticas públicas (como licença-paternidade mais longa e efetiva) até a rotina doméstica.
Não subestime sua capacidade
Homens são seres humanos perfeitamente capazes de memorizar a agenda de uma criança, saber onde as fraldas estão guardadas e entender quanto tempo a papinha precisa ficar no micro-ondas —sem precisar perguntar para uma mulher.
A responsabilidade sempre é sua também
Ao deixar milhares de decisões e tarefas na mão de uma mulher, seja por comodidade, seja por achar que “as coisas são assim”, saiba que, se algo der errado, a responsabilidade também recai sobre você.
Existe também uma dimensão emocional importante: quando um homem assume sua parcela de culpa pelas consequências espontaneamente, ele comunica parceria, respeito e compromisso. As relações saudáveis, afinal de contas, não se sustentam sem uma colaboração concreta.
Autor: Folha








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