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Toffolão

Venho alertando, denunciando e combatendo há anos aquilo que, apenas agora, virou consenso na grande mídia brasileira: as ilegalidades, abusos e inconstitucionalidades de quem deveria fazer Justiça. Com exceção desta Gazeta, além de outras honrosas companhias, o que estamos vendo desde abril de 2019, com a abertura do Inquérito das Fake News, é uma complacência e até mesmo um apoio aos métodos autoritários de ministros do STF, a começar por Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. Foram eles os grandes protagonistas daquele inquérito original, usado para censurar a Revista Crusoé, que trazia em sua capa, justamente, uma denúncia contra Dias Toffoli por recebimento de propina de Marcelo Odebrecht.

Mesmo com a cortina de ferro imposta pela mídia, segui denunciando os abusos, as relações promíscuas, o ativismo judicial e a corrosão silenciosa das instituições brasileiras promovidos pelo STF. Quem aludia à verdade foi frequentemente tratado como conspiracionista, golpista e radical. A implacável perseguição a quem ousou, nesses últimos anos, manter-se fiel à verdade e íntegro resultou em censura, multas pesadas e até mesmo prisões ilegais e arbitrárias.

Chegado 2026, a caixa de Pandora foi aberta. Ninguém pode ignorar mais o escândalo que envolve o Banco Master e enreda altíssimas figuras da outrora República — inclusive ministros do Supremo Tribunal Federal e, especialmente, mais uma vez, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.

Enquanto a mídia brasileira desperta de seu sono profundo, é, ironicamente, a revista The Economist, um dos mais respeitados e antigos veículos internacionais, quem descreve, com frieza e método, aquilo que, até pouco tempo atrás, preferiu-se ignorar nos meios nacionais: o escândalo do Banco Master não é apenas financeiro. Longe disso: é também político e institucional, consequência das mazelas criadas pela própria Corte, que a tornaram intocável, fora do alcance de qualquer fiscalização externa. Como dizia Lord Acton: “o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente”.

E o que foi que tornou o caso do Banco Master o exemplo mais acabado da crise e bandalheira institucional que vivemos? O texto da The Economist escancara o que já denunciamos há anos: o Brasil vive uma teia de relações espúrias entre poder econômico, classe política e Judiciário. Quando um ministro do STF mantém relações indiretas com personagens centrais de um escândalo bilionário; quando contratos milionários são firmados com escritórios ligados a familiares de magistrados; quando há viagens em jatos privados de advogados de partes interessadas; quando processos “caem por sorteio” sempre nos mesmos colos; quando investigações são arquivadas sem explicações convincentes, não estamos mais falando de coincidências. Estamos falando de uma verdadeira captura institucional.

O caso envolvendo Alexandre de Moraes é emblemático. Um contrato de dezenas de milhões de reais entre o Banco Master e o escritório de sua esposa, seguido de contatos frequentes com o presidente do Banco Central antes da liquidação do banco, levantou suspeitas legítimas. A reação do ministro, em lugar de esclarecer a situação, levantou ainda mais suspeitas. Partiu-se para a intimidação, inclusive com investigação contra órgãos de controle para apurar supostos “vazamentos”. É o velho método autoritário: em vez de explicar os fatos, ataca-se quem pergunta.

A situação de Dias Toffoli não é menos constrangedora. Viagens em jato privado com advogado ligado ao banco. Relatoria de processos sensíveis envolvendo o caso. Investimentos de familiares de Vorcaro em empreendimento turístico associado a parentes do ministro — o agora famoso Resort Tayayá. Pode até não haver prova cabal de dolo, ainda, mas há algo igualmente grave em uma democracia: a perda completa da aparência de imparcialidade. À esposa de César não é dado apenas ser honesta; ela deve parecer honesta também. E, assim, um novo escândalo nasce no Brasil, batizado de Toffolão.

O mais revelador de tudo é que foi preciso um escândalo financeiro bilionário, com repercussão internacional, para que parte da grande imprensa começasse a, finalmente, “perceber” o problema. A matéria da The Economist não nos surpreende. E não deveria surpreender a ninguém, pois ela apenas confirma que o Brasil precisa urgentemente de um Judiciário contido pela Constituição, de um Congresso que volte a exercer suas prerrogativas e de uma cultura política que rejeite o conluio entre Estado e interesses privados.

O sistema reagirá, como sempre reage. Mas a verdade, uma vez exposta, ainda mais ao olhar internacional, tem um efeito corrosivo sobre o arbítrio. E nós — a Gazeta do Povo, eu e tantos outros — continuaremos denunciando. Não porque agora “virou moda”, mas porque sempre foi necessário. A diferença é que, hoje, felizmente, quem jamais poderia ter dormido dá sinais de que está acordando.

Autor: Gazeta do Povo

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