sábado, novembro 29, 2025

Tom pelas ruas – 29/11/2025 – Ruy Castro

A desmemória chega e, outro dia, num papo com amigos sobre as ruas onde Tom Jobim morou no Rio, fugiu-me o nome de uma, entre Leblon e Gávea, de fins dos anos 1960. Era uma casa que conheci, ao entrevistá-lo para a Manchete em 1968. E não era qualquer casa —nela, Tom havia composto “Wave”, “Sabiá”, “Retrato em Branco e Preto”, “Chovendo na Roseira” e outras maravilhas. Não me preocupei com o lapso. Aprendi que, hoje, quando não sabemos algo, é só ir ao Google. Ele encaminha a pergunta para a IA e esta nos responde. Daí escrevi: “Em que ruas Tom Jobim morou no Rio de Janeiro?”

Veio a resposta: “Tom Jobim nunca morou nas ruas do Rio de Janeiro. Morou em apartamentos e casas nas ruas Nascimento Silva e Barão da Torre, em Ipanema, na rua Codajás, no Leblon etc.” Codajás, era essa que eu queria lembrar. Mas o que me fascinou foi a informação de que Tom Jobim “nunca morou nas ruas do Rio”. Claro —filho de uma família classe-média, pai poeta e mãe professora, e, depois, autor de “Garota de Ipanema”, quem o imaginaria um dia em situação de rua? Concluí que, sendo a lógica da IA tão exata e burra, talvez ainda tivéssemos chance contra ela.

Além disso, a IA não sabia da intensa relação de Tom com a rua. Certa vez, já famoso, ele passou por um grupo tocando samba numa esquina e parou para escutar. A turma tocava bem, mas o violonista se atrapalhou numa passagem. Tom lhe disse: “Também toco um pouco, posso te dar uma ideia para aquele acorde?”. O homem lhe passou o violão e, em dois segundos, Tom produziu uma solução mágica. O outro se abismou: “Cara, você toca muito! Quer fazer parte do nosso grupo?”. E Tom, baixando os olhos: “Obrigado, amigo. Mas minha família não quer que eu mexa com esse negócio de música“.

Tom podia não viver na rua, mas vivia pelas ruas, principalmente as do Leblon. Era íntimo de jornaleiros, floristas, farmacêuticos, empregados de padarias, peixeiros, garçons, cozinheiros de botequins.

E falava com eles por música —ou seja, na língua de cada um.


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