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Trainees negros mudaram a cara da Redação da Folha – 27/02/2026 – Folha 105 anos

Sessenta e cinco jornalistas autodeclarados pretos e pardos passaram pelo Programa de Treinamento em Jornalismo Diário da Folha desde a primeira turma exclusiva para profissionais negros, em 2021. Desse número, quase 60% foram contratados e alguns foram promovidos a cargos de editor, editor-adjunto e editor-assistente ao longo dos últimos cinco anos.

O programa foi iniciado um ano após o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos, caso que suscitou discussões sobre racismo ao redor do mundo. No Brasil, a Folha foi pioneira entre os grandes veículos a anunciar uma política de contratação voltada à inclusão de pessoas negras.

“Num país campeão de desigualdades, tomar medidas concretas que diminuam ainda que minimamente esse cenário torna-se um imperativo moral”, afirma o diretor de Redação, Sérgio Dávila.

Era pandemia e o número de inscritos para participar do programa exclusivo para profissionais negros havia passado dos 2.500 —deles, 18 foram selecionados para a 65ª turma de treinamento. “Queríamos democratizar o perfil da Redação e acho que a Folha tem conseguido isso”, conta a repórter especial Flavia Lima, na época editora de Diversidade e responsável pela tutoria dos então novos trainees.

A turma exclusiva foi uma forma de atrair candidatos negros que não se sentiam à vontade para participar do programa, “como se não fosse voltado para eles”, diz Suzana Singer, então editora de Treinamento. A falta de pretos e pardos no programa, principal porta de entrada para o jornal, influenciava a composição racial da Redação.

No censo interno feito em 2014, 9% dos jornalistas da Folha se autodeclaravam pretos ou pardos. No levantamento mais recente, realizado em 2024, já com os programas inclusivos em andamento, o número subiu para cerca de 25%.

“Não é o ideal, mas caminhamos. Um dado interessante é que, entre os profissionais com 2 a 5 anos de casa, o percentual de pretos e pardos chega a 50%, um indicativo de que os programas têm dado resultados”, afirma Flavia.

Além de explicar o jornal e seu Manual da Redação para os recém-chegados, ela lembra que seu papel era receber os trainees, acompanhá-los e acalmar ansiedades. “Daí a importância, naquele início, de ter como líder do programa alguém que compartilhasse experiências comuns [de negritude] com aqueles profissionais e pudesse servir como uma espécie de espelho a eles”, completa a jornalista.

Novas turmas foram abertas nos dois anos seguintes até que, em 2024, a Folha passou a adotar o modelo de reserva de vagas, sendo 50% delas destinadas para profissionais autodeclarados pretos, pardos e, posteriormente, pessoas com deficiência e indígenas. “Identificamos a necessidade de ampliar o escopo da diversidade, passando a olhar também para religião, posição política e cidade de origem”, diz Dávila.

De acordo com os entrevistados, a contratação de profissionais diversos melhorou a qualidade do que é produzido pelo veículo, além de ter trazido novas perspectivas e pluralizado vozes.

“Diversidade leva a mais pontos de vista, o que é precioso no jornalismo”, Suzana Singer. “Para quem, como eu, está há muitos anos na Folha, é uma alegria ver a cara da Redação mudando, com maior diversidade de jornalistas. Fico feliz de ter feito parte desse processo.”

Para Flavia Lima, a consolidação do programa de treinamento na forma mista segue um caminho promissor. “Embora tenha receio, é claro, não acho que em algum momento a gente tenha que recomeçar do zero. Somos um grupo significativo, cheio de energia e construímos parcerias importantes”, completa.

Cinco anos depois, o cenário global tem mudado no que diz respeito à diversidade. A despeito disso, a expectativa de Flavia é que a Folha se mantenha aberta, não só em seus programas de treinamento, mas também em estágios, bancas de contratação e parcerias.

“Que as questões que afetam a comunidade negra e outros grupos minorizados se mantenham presentes em todas as áreas de cobertura, e que os novos profissionais caminhem para além de uma gramática que pode estreitar a forma como vemos e falamos sobre diversidade”, afirma a repórter especial.

“Apesar dos recuos que ocorreram no mundo recentemente nessa pauta, a busca pela diversidade é um compromisso que seguirá na Folha e será continuamente aperfeiçoado. A sociedade brasileira é muito diversa, em vários aspectos. A monotonia de experiências não tem mais lugar nos dias de hoje”, afirma Dávila.

Autor: Folha

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