A série “Tremembé“, lançada no fim de outubro, narra a história de alguns dos criminosos mais famosos do Brasil, que ficaram no presídio homônimo à série. Mas especialistas alertam que espetacularizar não só os crimes, mas a punição, pode trazer riscos.
Como a maior parte dos seriados baseados em fatos reais, o roteiro usa de artefatos narrativos para deixar a história mais fluida e palatável para a população. O sucesso foi tanto que, na semana de estreia, as buscas pelo termo Tremembé na internet aumentaram 23 vezes.
Tornar assassinatos uma forma de entretenimento em larga escala pode ter um impacto positivo naqueles que os cometerem. A psicóloga forense Maria de Fatima Franco dos Santos diz que, para pessoas narcisistas, o sucesso de uma exposição em série ou filme pode trazer uma sensação de orgulho e satisfação. “E isso, infelizmente, pode até contribuir para que quando ela sair da prisão em que ela está, ela voltará a cometer um crime como esse.”
O psicólogo Nelson Hauck Filho, professor da Universidade São Francisco e especialista em avaliação psicométrica e psicopatia, explica que o narcisismo grandioso é um ponto comum nas pessoas que têm traços de psicopatia, apesar de não ser uma regra. A literatura acadêmica considera que a psicopatia pode ser definida em três conjuntos de características, diz ele.
O primeiro envolve manipulação, falta de empatia e de apego a outras pessoas. O segundo, impulsividade, desregulação emocional e irresponsabilidade. E o terceiro envolve dominância social, resiliência emocional e busca de sensações.
“Alguém que pontua alto nesses três conjuntos da psicopatia vai tender a ter ambos os transtornos [psicopatia e narcisismo]. Mas também vai ter muita gente psicopática sem transtorno de personalidade narcisista.”
O psicólogo lembra do caso do assassino Ted Bundy, que parecia contente com a atenção recebida da mídia durante seu julgamento, entre as décadas de 1970 e 1980. Sua história foi contada em diversas obras audiovisuais, incluindo um longa de 2019 estrelado por Zac Efron.
Para ele, nem todas as pessoas que cometem crimes são de fato psicopatas ou narcisistas, mas Filho diz que há revisões da literatura que evidenciam uma forte associação entre homicídios envolvendo tortura ou violência sexual e a psicopatia. Principalmente em casos premeditados.
O impacto de assistir à obra, para as pessoas que não cometeram esses crimes, também traz alguns riscos. Santos afirma que a exposição recorrente a este tipo de cena pode levar a uma dessensibilização da violência, o que pode levar à naturalização.
“Mas apenas a exposição frequente não vai, evidentemente, deixar algo natural. A pessoa deve ter uma disponibilidade interna para ser uma pessoa que poderia repetir aquela violência ou defender uma situação violenta”, afirma ela.
Filho afirma que há estudos que mostram que a longa exposição a conteúdos violentos pode aumentar a ocorrência desses comportamentos nos espectadores, principalmente em jovens, que ainda estão em desenvolvimento de personalidade.
“Mas não é possível culpabilizar uma mera série pela violência de algumas pessoas”, diz. “Limitar a exposição das pessoas a conteúdo violento vai surtir pouco efeito em uma sociedade se outras políticas sociais muito mais importantes não forem apropriadamente implementadas.”
Ambos os especialistas concordam que uma forma mais ética de retratar esses crimes é retratá-los pelo lado da vítima, sem enfatizar a figura do criminoso.
“A arte tem a licença poética para contar a história que quiser, e cabe às pessoas saberem discernir aquilo que lhe parece mais apropriado para gastar suas horas livres”, diz Filho. “Porém, são limitadas as possibilidades de aprendizado pessoal e aprimoramento socioemocional ao assistir a algo cuja mensagem final é que o crime compensa.”





