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Trump tem pressa, mas não terá paz na Ucrânia sem pressionar Rússia

Na última sexta-feira, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a pressionar o ucraniano Volodymyr Zelensky para que aceite um acordo de paz com a Rússia e encerre a guerra que está prestes a completar quatro anos. Respondendo a perguntas de jornalistas na Casa Branca, antes de decolar para uma visita a uma instalação militar na Carolina do Norte, Trump foi questionado sobre sua exigência de que a Ucrânia realizasse eleições ainda neste primeiro semestre. “Zelensky tem de agir. A Rússia quer chegar a um acordo, e Zelensky terá de fazer algo; do contrário, perderá uma grande oportunidade”.

A que acordo, no entanto, Trump está se referindo? Seria a lista de 28 pontos anunciada pelo próprio norte-americano em novembro do ano passado? Seria a contraproposta elaborada por Zelensky e por líderes europeus, com participação de representantes dos Estados Unidos, alguns dias depois? Seriam os 20 pontos divulgados por Zelensky em dezembro, antes de uma reunião com Trump? Ou seria alguma proposta intermediária, desenhada após reuniões trilaterais em Abu Dhabi, em janeiro e fevereiro deste ano? O presidente norte-americano não foi específico a esse respeito – mas este não é um detalhe; o conteúdo da proposta faz toda a diferença.

Para resolver logo a guerra e se apresentar ao eleitor norte-americano como “pacificador”, Trump tem adotado uma postura reprovável: pressionar o lado mais fraco, a vítima da agressão, em vez de falar duro com o agressor

A primeira proposta era um acinte completo; não era um plano de paz, mas a formalização da rendição ucraniana, com a entrega de todos os territórios reivindicados pela Rússia, sem nenhuma garantia real de proteção contra futuras agressões russas. Zelensky jamais poderia ser acusado de “desejar o prolongamento da guerra” por recusar-se a assinar tamanho disparate. É preciso recordar que o ucraniano já acenou com uma grande concessão, admitindo a possibilidade de abrir mão dos territórios atualmente ocupados pelo invasor russo. No entanto, ele deseja em contrapartida uma proteção real para seu país – seja pela entrada na Otan, seja por um compromisso idêntico ao previsto no artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte, em que os signatários se obrigariam a defender militarmente a Ucrânia em caso de novo ataque russo. A Rússia, no entanto, rejeita qualquer acordo nessas bases, o que não deixa de ser um indicativo sobre planos futuros; quando fala, portanto, em um acordo desejado por Vladimir Putin, Trump deixa subentendido que a Ucrânia poderia acabar sem as garantias de que tanto necessita.

Mesmo as eleições por cuja realização Trump pressiona enfrentariam enormes dificuldades logísticas. Como realizar um pleito limpo em um país sob ataque, com parte significativa de seu território ocupado por uma força inimiga? Por mais que o mandato de Zelensky tenha terminado em 2024, a lei do país autoriza a prorrogação em casos como o atual; o ucraniano não se mantém ilegalmente no poder, apesar das insinuações de Trump em sentido contrário. Zelensky já afirmou que não se oporia à realização de eleições nos próximos meses, mas que precisaria ter segurança para realizar um pleito em que de fato a vontade dos ucranianos – inclusive aqueles das regiões que são parte da Ucrânia, mas estão sob poder do inimigo russo – fosse respeitada.

VEJA TAMBÉM:

  • Plano de Trump é a rendição da Ucrânia e prêmio para a Rússia (editorial de 25 de novembro de 2025)
  • Plano apoiado pela Ucrânia aponta para a “paz possível” (editorial de 29 de dezembro de 2025)

O cronograma de Trump não é arbitrário: ele quer ter algo para apresentar ao eleitorado norte-americano e convencê-lo a manter a maioria republicana no Senado e na Câmara de Representantes nas eleições de meio de mandato (as chamadas midterms), em novembro. Para conseguir resolver logo a guerra e se apresentar ao público local como “pacificador”, no entanto, Trump tem adotado uma postura reprovável: pressionar o lado mais fraco, a vítima da agressão, em vez de falar duro com o agressor. Zelensky está ciente dos motivos da pressa de Trump, e dias atrás acenou ao norte-americano em entrevista, dizendo que conseguir a paz seria ótimo para as midterms, mas que para isso o norte-americano terá de garantir a segurança da Ucrânia. Resta saber se Trump entendeu o recado.

Autor: Gazeta do Povo

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