Um espaço onde o usuário poderá acessar conteúdos bloqueados por governos, navegar de forma anônima e, na prática, contornar diversas restrições impostas por leis locais que limitam a liberdade digital. Esse é o objetivo do Freedom.gov, site que está sendo desenvolvido pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, sob o governo do presidente Donald Trump, e que deve ser lançado nos próximos meses.
Embora não existam informações sobre quais países poderão ser diretamente beneficiados pelo site, o lançamento do Freedom.gov gera expectativas de que informações bloqueadas pela justiça brasileira possam ser acessadas a partir da nova plataforma.
O site, registrado oficialmente em janeiro e já acessível no endereço freedom.gov, exibe até o momento apenas uma página inicial com a mensagem: “Freedom Is Coming. Information is power. Reclaim your human right to free expression. Get ready.” (“A Liberdade está chegando. Informação é poder. Reclame seu direito humano à livre expressão. Prepare-se.”).
A iniciativa é liderada por Sarah Rogers, subsecretária do Departamento de Estado dos EUA para Diplomacia Pública. Em entrevista ao site Semafor em janeiro deste ano, antes das notícias sobre o site virem à tona, Rogers afirmou que uma das prioridades do Departamento de Estado é pressionar governos de todo o mundo a “abrirem o espaço para a liberdade de expressão” nas redes sociais.
Neste mês, durante participação no podcast “Louder with Crowder”, apresentado pelo comentarista conservador Steven Crowder, a subsecretária disse que o governo Trump “apoia firmemente a liberdade digital” e que todas as pessoas do mundo devem ter acesso à informação “sem censura imposta por governos estrangeiros”. Na ocasião, ainda sem citar a criação do site, Rogers afirmou que o apoio a ferramentas para driblar restrições impostas por governos integra um compromisso mais amplo com a liberdade de expressão, que classificou como um “direito humano fundamental”.
Como deve funcionar
A proposta do Freedom.gov é servir como uma espécie de “porta alternativa” para a internet. O portal deverá permitir que pessoas em países com restrições digitais acessem conteúdos que tenham sido removidos, bloqueados ou proibidos por decisões governamentais ou leis locais.
O site deverá operar como uma ferramenta tecnológica voltada à proteção da navegação do usuário. A ideia é integrar ao portal um sistema semelhante a uma VPN (rede privada virtual), capaz de fazer com que o tráfego pareça originado nos Estados Unidos, mesmo quando o acesso ocorre a partir de outro país. Na prática, isso permitiria contornar bloqueios geográficos e restrições impostas por legislações que limitam a liberdade de expressão.
Fontes ouvidas pela agência Reuters afirmam que o site não registrará endereço de IP, histórico de navegação nem quaisquer dados capazes de identificar o usuário. A proposta, segundo autoridades americanas citadas pela Fox News, é disponibilizar a cidadãos de todos os países do mundo “a mesma internet aberta disponível aos americanos”, especialmente àqueles que vivem sob regimes de censura ou sob regulações que restringem a liberdade digital.
Sobre o tema, o Departamento de Estado dos EUA declarou à Reuters que “a liberdade digital é uma prioridade” para o governo Trump e que isso inclui a promoção de tecnologias de privacidade e ferramentas para driblar a censura.
Projeto surge em meio a embates globais sobre censura digital
O Freedom.gov nasce em um momento de forte repressão à liberdade de expressão online no mundo.
Na Europa, por exemplo, a Lei de Serviços Digitais (Digitais Digital Services Act – DSA) ampliou o poder da Comissão Europeia – braço executivo da União Europeia (UE) para exigir, sob pena de multas e bloqueios, a remoção rápida de conteúdos classificados pelo bloco como “ilegais”, incluindo os chamados “discurso de ódio e propaganda extremista”.
No final do ano passado, a Comissão Europeia aplicou contra a plataforma X, controlada pelo empresário Elon Musk, a primeira multa com base na nova legislação digital do bloco. A penalidade, de 120 milhões de euros, foi imposta sob a alegação de descumprimento de obrigações previstas na DSA, incluindo supostas falhas em transparência publicitária, acesso de pesquisadores a dados e no funcionamento do sistema de verificação de contas.
A empresa de Musk já recorreu da decisão ao Tribunal Geral da União Europeia, sustentando que a interpretação adotada pelo órgão executivo europeu foi excessiva e que a sanção compromete princípios ligados à liberdade de expressão e à segurança jurídica. A punição contra o X foi a primeira aplicada sob a DSA.
No Reino Unido, o “Online Safety Act”, lei de regulação digital, estabelece multas significativas para plataformas que não cumprem exigências de moderação impostas pelo governo britânico.
No Brasil, decisões recentes do Supremo Tribunal Federal (STF) determinaram a suspensão de plataformas digitais por descumprimento de ordens judiciais que exigiam o bloqueio de perfis por comentários e críticas na internet.
CEO do Rumble sugere que a Freedom.gov pode trazer conteúdos bloqueados no Brasil
Reportagens da imprensa americana indicam que o foco inicial da plataforma Freedom.gov inclui nações com forte controle estatal da internet, como China e Irã, além de países europeus que aplicam as regras da DSA.
Ao compartilhar uma notícia sobre o lançamento do Freedom.gov, o CEO da plataforma de vídeos Rumble, Chris Pavlovski, publicou uma mensagem dizendo “Olá, Brasil”, em sua conta no X, um indicativo de que o site pode acabar servindo para disponibilizar aos brasileiros conteúdos que atualmente estão bloqueados no país por decisão do judiciário.

A plataforma Rumble está bloqueada no Brasil desde fevereiro do ano passado, após decisão do ministro do STF Alexandre de Moraes. A suspensão ocorreu depois de a plataforma se recusar a cumprir ordens de Moraes que determinavam o bloqueio de perfis como o do jornalista Allan dos Santos, a indicação de representante legal no Brasil e o pagamento de multas.
Ainda no ano passado, a Rumble, junto a Trump Media, empresa do presidente Trump, ingressou com uma ação judicial em um tribunal federal da Flórida contra Moraes. As empresas alegam que as determinações do ministro violam a Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que protege a liberdade de expressão, e argumentam que as ordens poderiam afetar serviços operando em território americano.
O processo está em tramitação na Justiça americana e, recentemente, os advogados das empresas solicitaram que Moraes fosse formalmente notificado sobre o processo por meio de seu e-mail institucional no Supremo Tribunal Federal, sob o argumento de que outros canais de contato estariam indisponíveis. Até o momento, não houve decisão definitiva sobre o mérito da ação.
Neste mês, o Rumble chegou a voltar a funcionar no Brasil por algumas horas após alterar seu endereço de IP. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) informou que identificou a mudança e determinou novo bloqueio, alegando que a plataforma utilizou a infraestrutura de terceiros para restabelecer o acesso. O serviço voltou a ficar indisponível logo em seguida.
Autor: Gazeta do Povo








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