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Ucrânia já dura mais que 2ª Guerra Mundial para a Rússia – 16/01/2026 – Mundo

A Guerra da Ucrânia completou 1.419 dias na última segunda-feira (13), faltando pouco mais de um mês para chegar à marca dos quatro anos de duração. A data esconde uma efeméride: foram ultrapassados os 1.418 dias de duração da Segunda Guerra Mundial para a Rússia.

Por motivos óbvios, ninguém comentou o assunto no governo de Vladimir Putin, que desde a invasão de 24 de fevereiro de 2022 tenta imprimir a memória do conflito global na tomada decisória atual, equivalendo o governo de Volodimir Zelenski aos nazistas de Adolf Hitler.

Os ucranianos dão sua ajuda à propaganda, louvando figuras históricas associadas ao nazifascismo e integrando unidades militares de inspiração neonazista, como o famoso Batalhão Azov. Mas sobre a comparação temporal não se ouvirá nada.

Ela ajuda a desconstruir um mito criado pela vitória dos soviéticos em 1945, quando esmagaram as forças alemãs que haviam invadido brutalmente o país em 22 de junho de 1941: o da invencibilidade da máquina militar do maior país do mundo.

De forma evidente, fala-se aqui de capacidades convencionais. A Rússia tem o maior arsenal nuclear do mundo e meios avançados para empregá-lo. Mas o temor do apocalipse quase inevitável de uma escalada do tipo manteve Putin afastado do proverbial botão —assim como os Estados Unidos, França e Reino Unido, seus rivais imediatos.

A visão da Rússia invencível foi forjada pelos fatos e pela propaganda. No primeiro grupo há a reorganização na marra do Exército Vermelho após a Operação Barbarossa, a maior ação militar da história, quando 4 milhões de alemães romperam as fronteiras de Josef Stálin.

Ela levou a um custo astronômico de vidas, talvez 27 milhões das 70 milhões de mortes na guerra iniciada quando Hitler invadiu a Polônia em 1939. Após quase ser derrotado, o colosso comunista empurrou os invasores de volta por mais de 2.000 km do ponto mais profundo alcançado até Berlim.

O feito militar, com auxílio dos Aliados ocidentais, é incontestável. Mas a propaganda o acompanhou desde o berço, por dois motivos.

Primeiro, o trunfo ofuscou os dois primeiros anos da guerra, que só foram possíveis porque em 1939 Hitler e Stálin fizeram um pacto de não-agressão. Com efeito, quando os nazistas tomaram metade da Polônia, a outra metade foi ocupada pelos soviéticos.

Sempre que pode, Putin apresenta o arranjo com uma resposta inevitável ao Acordo de Munique de 1938, quando os Aliados acharam ter apaziguado Hitler ao ceder partes alemãs étnicas da Tchecoslováquia —algo que assombra Zelenski nas negociações hoje mediadas por Donald Trump.

A leitura ignora o fato de que Hitler e Stálin combinaram secretamente dividir o Leste Europeu entre si quando assinaram a paz provisória.

O outro item do pacote de marketing foi apresentar a União Soviética como um Leviatã imparável, retomando a fama que havia sido tisnada pela derrota para os alemães na Primeira Guerra Mundial —com um empurrão da convulsão revolucionária que desaguaria no império comunista.

Apesar da visão mais moderna de que as capacidades soviéticas eram limitadas —apesar dos planos hoje conhecidos de Moscou de conquistar a Europa até a fronteira da França em até sete dias, com 190 explosões nucleares táticas no caminho—, o temor sobreviveu.

Poucos dias antes da invasão da Ucrânia, o então chefe do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos, Mark Milley, disse em uma sessão fechada do Congresso que Kiev cairia em três dias. As imagens de soldados russos na periferia da capital naquele prazo pareciam confirmar a previsão, mas o resto é história.

Antes do confito, Putin controlava pouco mais de 7% da Ucrânia, entre terras da Crimeia e no leste, essas por procuração para separatistas. No auge da ocupação, subiu isso para 26%, e agora tem quase 20%.

Seus ganhos têm sido crescentes, e 2025 viu o maior bocado de terra conquistado pelos russos desde 2022, mas ele somou 1% do território rival. A comparação com o passado empalidece ainda mais a visão.

Evidentemente, ela é só retórica. A guerra de 1941 foi um conflito total, com mobilização de recursos infindáveis e escala global; agora Putin ainda fala em operação militar limitada.

Que possa sair dela com um bom naco da Ucrânia será apresentado como vitória e pode haver avanços mais significativos, mas a vitória rápida nunca veio.

Os motivos são decantados: táticas obsoletas e erros básicos, como linhas de suprimento frágeis e forças insuficientes. Somem-se a isso a resistência de Kiev e o apoio subsequente do Ocidente.

Na capital russa, muitos dão de ombros para isso, considerando que há uma curva de aprendizado sendo transposta, e que um conflito com os europeus é inevitável. A Rússia gasta sozinha tudo o que a Europa aplica em defesa, e sua indústria militar trabalha em ritmo antes impensável.

Para críticos do Kremlin, isso é prova de sua fragilidade, dado que nem com essa musculatura Putin foi capaz de dobrar a Ucrânia e seus aliados. Como o próprio Zelenski já disse, ele não tem como derrotar os russos, mas o dano à imagem de Moscou está feito.

Autor: Folha

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