terça-feira, janeiro 13, 2026

Um péssimo trabalho excelente – 03/01/2026 – Ricardo Araújo Pereira

Creio que, na semana passada, o mundo não chorou suficientemente a morte de Cecilia Giménez. Há 14 anos, já com mais de 80 anos, Cecilia tomou a decisão de restaurar o quadro “Ecce Homo”, de Elías García Martínez.

O fato de não saber pintar não a deteve. O quadro original representava Jesus Cristo com uma coroa de espinhos, a cabeça inclinada, que simbolizava um sofrimento resignado.

Quando Cecilia terminou o seu trabalho de restauro, o afresco exibia um anônimo que parecia ter sobrevivido a um incêndio, mas agora estava, apesar de desfigurado, com um barrete que aparentava ser quentinho. Tinha um arremedo de nariz, uma vaga boca esbatida e uns olhos que se diria terem sido pintados pelo próprio Amedeo Modigliani, se o pintor italiano tivesse sido vítima de um terrível derrame.

O restauro foi notícia nos maiores jornais do mundo todo, e a pequena localidade espanhola de Borja cuja igreja albergava o quadro passou a ser visitada por dezenas de milhares de pessoas. Uma instituição de caridade local angariou € 50 mil, hoje equivalentes a cerca de R$ 321,5 mil. A igreja passou a cobrar bilhetes, e a receita permite financiar um lar de idosos.

Cecilia mostrou a todos nós que, na impossibilidade de realizar uma tarefa muito bem, podemos e devemos realizar esse mesmo trabalho muito mal. Se há algo para ser feito, o que interessa mesmo partir para a execução.

Além disso, nota-se que Cecilia é uma pessoa devota. Certamente leu com atenção os dez mandamentos e verificou que um deles diz “não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem, nada que se assemelhe ao que existe lá em cima, nos céus”.

Por isso, pegou no quadro que representava Jesus e pô-lo conforme à lei de Deus. Neste momento, ninguém pode dizer que o quadro se assemelha a seja o que for que exista nos céus. Mesmo na Terra, é difícil encontrar parecido.

E esse trabalho foi premiado. Ninguém tinha ouvido falar da obra original, mas o restauro é agora uma das pinturas mais famosas do mundo.

Creio que não é exagero falar em milagre. Todos sentimos que houve intervenção divina.

É óbvio que Jesus Cristo esteve ali. Onde, exatamente, ninguém sabe, na verdade. No quadro não foi, com toda certeza.

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