Monitoramento da UFPR mapeou pontos críticos de atropelamento em trecho, coletou 235 carcaças, e revelou que anfíbios são as principais vítimas no entorno do Parque Tingui
Por décadas, o progresso foi medido em quilômetros pavimentados. No Brasil, entre 1960 e 1980, a malha rodoviária federal saltou de 8.675 km para 47.487 km, segundo o CNT (Conselho Nacional de Trânsito). Mas o crescimento, que consolidou o modelo rodoviarista brasileiro, fragmentou habitats e transformou o asfalto em uma das principais causas de mortalidade da fauna silvestre. Um estudo publicado em 2022 no periódico Diversity, focado em biodiversidade, estima que 1,3 milhão de animais morrem todos os anos em colisões nas estradas brasileiras.
Mas a ciência está de olho nesse impasse. Desde os anos 1970, quando a expansão rodoviária do pós-guerra impactou florestas em escala inédita no hemisfério Norte, pesquisadores estruturam a Ecologia de Estradas, que, entre outras coisas, analisa padrões de atropelamento a partir do monitoramento da fauna. Essa é uma das frentes do projeto de extensão Olha o Bicho, vinculado ao Laboratório de Biodiversidade, Conservação e Ecologia de Animais Silvestres (LABCEAS), da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que conta com 10 voluntários, entre discentes de graduação e pós-graduação.
A iniciativa coleta e analisa carcaças encontradas no entorno de Unidades de Conservação Urbanas em Curitiba, registrando pontos de colisão e espécies afetadas. Com os dados obtidos, é possível pensar intervenções práticas, como a instalação de passarelas aéreas ou subterrâneas para os animais, além de cercamentos direcionadores, redutores de velocidade e sinalização específica, explica o docente Fernando de Camargo Passos, coordenador do trabalho.
Entre março de 2023 e fevereiro de 2025, o Olha o Bicho monitorou um trecho de rodovia de 5,1 km no entorno do Parque Tingui, na região de Santa Felicidade, em 44 expedições de campo. Em cada saída, de dois a quatro observadores caminhavam pelos dois lados da via, examinando pista, calçadas e margens em busca de carcaças.
Quando um animal era encontrado, eles registravam data, horário e coordenadas geográficas em formulário online padronizado, realizando também a identificação taxonômica (ao menos por grupo) e fotografando o exemplar e o entorno. Nos casos em que a espécie não podia ser confirmada em campo, as imagens eram enviadas a especialistas parceiros. Para evitar recontagens, as carcaças eram removidas da pista e, quando em bom estado, destinadas a coleções científicas.
O projeto também previu a mortalidade aproximada na via por meio da análise de carcaças e áreas de risco de atropelamento. A estimativa é que, só no trecho monitorado, mais de 1,6 mil animais podem morrer por atropelamento a cada ano.
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Autor: Agencia Paraná




















