Projeto combina sensores, dados ambientais e modelagem para o monitoramento de riscos urbanos, enquanto plano recém-entregue ao município propõe soluções para as áreas mais críticas
Por Laboratório de Comunicação Pública da Ciência
As fortes chuvas que atingiram o litoral do Paraná nas últimas semanas deixaram um rastro de alagamentos e prejuízos em Paranaguá. Com um acumulado que chegou a 148,2 mm em um único dia de acordo com o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar), a cidade viu diversos bairros como Vila São Jorge, Ilha dos Valadares e Serraria do Rocha sofrerem com quedas de árvores, casas destelhadas, famílias desalojadas e danos materiais.
É justamente para responder a cenários como este que pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) estão envolvidos em duas frentes de trabalho complementares: o desenvolvimento do RISCO, um sistema inovador de monitoramento e alerta de enchentes, e a recente conclusão do Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR) de Paranaguá, que já disponibiliza ao município um diagnóstico detalhado, além de apresentar um conjunto de ações para mitigar os impactos dos eventos climáticos.
RISCO: sistema busca prever alagamentos
O RISCO é um sistema de monitoramento e alerta de enchentes e alagamentos voltado à antecipação de cenários de risco em áreas urbanas. A iniciativa, conduzida pelo Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais (Lageamb), integra medições em campo do nível da água, dados de chuva, informações sobre maré e previsões meteorológicas, ampliando a capacidade de planejamento e resposta a eventos extremos, com potencial para reduzir prejuízos materiais e contribuir para a preservação de vidas.
O sistema funciona a partir da medição contínua do nível da água em pontos estratégicos da cidade, realizada por réguas linimétricas digitais instaladas em campo. Essas informações são integradas a dados meteorológicos e de maré, criando uma base unificada de monitoramento. “Essa abordagem integrada amplia a capacidade do sistema, permitindo não apenas acompanhar o que já está acontecendo, mas também antecipar cenários de risco”, explica Rogério Rodrigues de Vargas, coordenador do projeto RISCO.
O principal diferencial do RISCO está na possibilidade de simular áreas de inundação com alto grau de realismo, a partir de levantamentos topográficos de alta precisão e do uso de tecnologia LiDAR, responsável pela geração de nuvens de pontos que servem de base para simulações tridimensionais do território urbano. “Diferente dos mapas tradicionais, essa abordagem permite visualizar a cidade de forma muito próxima da realidade, facilitando a compreensão de quais áreas podem ser atingidas conforme o nível do rio ou da maré sobe”, afirma Vargas.
O sistema também prevê alertas mais precisos à população, baseados em geolocalização, direcionados a áreas previamente classificadas como críticas ou de risco, reforçando seu caráter preventivo.
O projeto concluiu sua primeira fase, com a definição dos pontos de monitoramento, validação técnica de uma régua linimétrica e a instalação inicial de uma delas, passando por uma Prova de Conceito (PoC) bem-sucedida. As próximas etapas incluem levantamentos topográficos de maior precisão, o uso de drones equipados com LiDAR e ampliação das simulações em ambiente digital.

Foto: divulgação
Concebido para ser escalável, o RISCO pode ser adaptado a diferentes municípios e integrado a políticas de defesa civil, planejamento urbano e adaptação às mudanças climáticas. O interesse do Ministério das Cidades e da Casa Civil indica o seu potencial como política pública e reforça o papel da ferramenta na prevenção e mitigação de desastres, especialmente em regiões vulneráveis a eventos climáticos extremos.
Projeto Paranaguá Sem Risco: buscando a prevenção e mitigação
O município de Paranaguá também recebeu a atenção de outro projeto vinculado ao Lageamb, o Periferia Sem Risco. A iniciativa recém finalizada é fruto de uma parceria da UFPR com o Ministério das Cidades, por meio da Secretaria Nacional de Periferias, e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). O projeto teve como objetivo a elaboração do Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR) de Paranaguá, um instrumento de gestão do território e proteção da população contra desastres, respaldado pela Política Nacional de Proteção e Defesa Civil.

Foto: acervo Lageamb
Desde o início, a equipe multi e interdisciplinar do laboratório trabalhou na identificação e mapeamento das áreas de risco do município. Através do reconhecimento de campo, mapeamento participativo, oficinas participativas com a comunidade para identificação dos riscos, além de uma oficina técnica com o Comitê Gestor Municipal para repassar ao metologia elaborada para os servidores municipais. Foram definidas e analisadas 43 localidades prioritárias, com a presença de 99 setores de riscos, abrangendo aproximadamente 1.594 pessoas, onde incidem ameaças como inundações, alagamentos, deslizamentos e riscos tecnológicos, dada a complexidade da relação entre a cidade e o Porto de Paranaguá. O diagnóstico considerou não apenas as características físicas dos terrenos, mas também a vulnerabilidade social das populações residentes, resultando em uma análise detalhada que categorizou os setores conforme o grau de risco.
O plano, que recebeu o nome local de “Paranaguá Sem Risco”, não se limitou ao diagnóstico. Ele propõe um conjunto robusto de medidas estruturais e não estruturais que a prefeitura poderá adotar para combater e mitigar os efeitos dos riscos hidrológicos, geológicos e tecnológicos. As sugestões abrangem intervenções de engenharia e Soluções baseadas na Natureza (SbN) como a renaturalização de canais, a criação de parques lineares e jardins de chuva. Além disso, também são indicadas medidas não estruturais, como a criação de um plano de comunicação de risco, a capacitação de técnicos municipais e lideranças comunitárias para a criação de Núcleos de Defesa Civil (NUDECs), e diretrizes para a revisão do Plano Diretor e de leis de uso e ocupação do solo, integrando a redução de riscos ao planejamento urbano de longo prazo.
Todo o processo foi conduzido de forma participativa e transparente. Os resultados e propostas foram apresentados à população em uma Audiência Pública realizada no auditório do Instituto Superior do Litoral do Paraná (Isulpar). Na ocasião, moradores das áreas mapeadas, representantes de associações de bairro, técnicos da prefeitura e órgãos oficiais puderam conhecer em detalhe o diagnóstico e as intervenções sugeridas, além de contribuir com seus saberes e experiências. Todas as contribuições foram analisadas e incorporadas à versão final do documento. Com o projeto oficialmente finalizado e o PMRR entregue à Prefeitura Municipal de Paranaguá no final de setembro de 2025, o município passa a contar com um guia estratégico e prático para a construção de uma cidade mais resiliente, segura e preparada para enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas, consolidando mais uma importante contribuição do Lageamb para a gestão de riscos de desastres no litoral paranaense.
Autor: Agencia Paraná








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