O crescimento das cidades brasileiras nas últimas quatro décadas está em descompasso com a disponibilidade de água em um quarto do território nacional, segundo dados divulgados nesta quarta-feira (4) pela rede de pesquisadores MapBiomas.
Entre 1985 e 2024, o Brasil expandiu sua mancha urbana sobre 670 mil hectares de áreas naturais, sendo que 25% desse total avançou sobre zonas classificadas com segurança hídrica crítica.
Esse fenômeno afeta diretamente 1.325 municípios e é particularmente severo no Nordeste, onde estados como Alagoas, Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Sergipe viram mais de 70% de seu crescimento urbano ocorrer nessas áreas de vulnerabilidade.
De acordo com Julio Pedrassoli, professor de cartografia da USP e coordenador do MapBiomas, essa realidade não é apenas um risco futuro, mas uma crise instalada que já provoca escassez para consumo humano em grandes metrópoles, como São Paulo. “Os dados mostram que em grande parte do país a falta d’água não é uma questão sazonal”, afirma.
A definição de risco hídrico segue parâmetros da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico e não considera somente a falta de chuva, mas a combinação de disponibilidade do recurso e capacidade de atendimento à demanda. Quando a demanda supera 40% da disponibilidade, o trecho é considerado em situação crítica.
O município do Rio de Janeiro destaca-se como o local com o maior crescimento absoluto em condições mínimas de segurança hídrica, somando 7,6 mil hectares de nova urbanização em áreas críticas —o equivalente a 11 mil campos de futebol.
O caso do Rio exemplifica como a expansão desordenada sobre áreas de encosta e vegetação nativa compromete a capacidade natural de produção de água, o que agrava conflitos pelo uso da água, seja para consumo humano, industrial ou rural, segundo Pedrassoli.
Esse avanço sobre áreas naturais descaracteriza o ecossistema responsável por filtrar e fornecer a água, criando um ciclo de escassez que atinge tanto as populações vulneráveis quanto o funcionamento das cidades como um todo, segundo o pesquisador.
A dinâmica das ocupações informais desempenha um papel central nesse cenário de insegurança.
Enquanto a região metropolitana de São Paulo detém a maior área absoluta de favelas, com 11,8 mil hectares, as metrópoles de Manaus e Belém apresentam proporções alarmantes, onde as favelas já representam mais de um terço de toda a área urbanizada.
Brasília, por sua vez, registrou as expansões de favelas mais aceleradas das últimas quatro décadas.
As comunidades de Sol Nascente e 26 de Setembro lideram o ranking nacional em extensão, e o crescimento conjunto das quatro maiores favelas do Distrito Federal superou a expansão urbana de 95% de todos os municípios brasileiros no período.
Essa pressão territorial sobre áreas ambientalmente restritivas é impulsionada por uma combinação de fatores socioeconômicos, alta demanda hídrica e regimes de chuvas escassos.
No Rio Grande do Norte, a favela Jardim Progresso exemplifica essa urgência ao ser a ocupação que mais se expandiu sobre áreas de mínima e baixa segurança hídrica no país.
Autor: Folha








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