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Vaca usa vassoura para se coçar na Áustria – 20/01/2026 – Ciência

Para uma vaca, Veronika teve o que poderia ser considerado uma vida idílica. Ela vive em uma cidade na Áustria cercada por montanhas cobertas de neve e lagos. Ela é um animal de estimação amado pela família e passa seus dias caminhando por pastagens arborizadas. E, quando sente coceira, ela se coça, manejando habilmente um graveto.

Agora, conforme um estudo que saiu nesta segunda (19), Veronika demonstrou habilidades de coçar mais avançadas, utilizando diferentes extremidades de uma vassoura de madeira para atingir diferentes partes de seu corpo. É, segundo os autores da pesquisa, um exemplo de uso flexível de ferramentas, um comportamento relativamente raro no reino animal.

O artigo científico, publicado no periódico Current Biology, é o primeiro a descrever o uso de ferramentas em bovinos, que tradicionalmente não são celebrados por sua inteligência.

“Nós os usamos como sinônimo de tolice e estupidez”, disse a bióloga Alice Auersperg, da Universidade de Medicina Veterinária de Viena e autora do estudo.

As capacidades de Veronika “deveriam nos fazer refletir e talvez também nos motivar a olhar para os animais de criação de forma diferente”, afirmou a pesquisadora.

Veronika também levanta uma possibilidade mais provocativa: que talvez uma das razões pelas quais as vacas têm sido subestimadas é que poucas delas têm a oportunidade de desenvolver ou demonstrar suas habilidades cognitivas.

“O que talvez torne Veronika diferente de outras vacas é o fato de ser mantida como animal de estimação”, disse Auersperg. Ela vive em um ambiente estimulante e rico, em vez de em uma fazenda industrial, e já celebrou seu 13º aniversário, um marco que muitas vacas nunca alcançam.

“Ela tem a oportunidade de interagir com seu ambiente e aprender sobre ele, e essa talvez seja a maior diferença”, disse Auersperg.

Auersperg estuda inovação animal ou, como ela descreve, “como os animais inventam soluções para problemas”. Às vezes, essas soluções envolvem o uso de ferramentas, uma habilidade que requer pensamento sofisticado e foi documentada em relativamente poucos animais, entre os quais chimpanzés, elefantes, corvos, golfinhos e polvos.

Mas, depois que Auersperg publicou um livro sobre inovação animal no ano passado, ela começou a ouvir pessoas questionando se um comportamento específico que haviam observado em seus animais de estimação ou na vida selvagem local poderia se qualificar como uso de ferramentas. Cientificamente, a maioria desses exemplos era de pouco interesse –um gato se enrolando em uma caixa da Amazon não se qualifica como uso de ferramenta.

Um vídeo, porém, chamou sua atenção. Um cineasta que procurava locações havia capturado imagens de Veronika usando um ancinho velho e desgastado para coçar suas costas. “Parecia muito direcionado a um objetivo específico”, lembrou Auersperg.

A bióloga e um dos pesquisadores de pós-doutorado em seu laboratório rapidamente entraram em contato com o dono de Veronika, Witgar Wiegele, um fazendeiro que administra um moinho de grãos e uma padaria.

“Witgar imediatamente nos convidou para comer bolo, nos deu muito pão para comer e nos contou sobre sua vaca”, disse Auersperg.

Witgar disse aos pesquisadores que nunca havia ensinado Veronika a usar ferramentas. Mas cerca de uma década atrás, segundo ele, começou a notar que ela pegava gravetos e os usava para se coçar. Ao longo dos anos, sua técnica havia melhorado, acrescentou.

Para investigar as habilidades de Veronika, os pesquisadores decidiram apresentar-lhe uma vassoura, com cerdas rígidas presas a um longo cabo de madeira.

“Uma vassoura tem uma extremidade funcional e uma extremidade não funcional”, disse Antonio Osuna-Mascaró, o pesquisador de pós-doutorado que colaborou com Auersperg no estudo. Os cientistas levantaram a hipótese de que Veronika se coçaria principalmente com a extremidade funcional, ou com cerdas, da ferramenta.

No ano passado, os pesquisadores colocaram repetidamente a vassoura no chão em frente à Veronika. Ela prontamente a pegou, usando sua língua para agarrar o cabo, segurando-o com os dentes e então direcionando a vassoura para a parte traseira de seu corpo. Ao longo de 70 testes, realizados durante vários dias, ela usou a vassoura para se coçar 76 vezes, descobriram os pesquisadores.

O objetivo do comportamento, acreditam os cientistas, era aliviar a coceira e irritação causadas por picadas de mutucas, que pareciam estar por toda parte durante as sessões de teste no verão. “Então para ela, usar essa ferramenta para se coçar era algo que ela realmente estava procurando”, disse Osuna-Mascaró.

Como os cientistas previram, Veronika se coçava principalmente com a extremidade com cerdas da vassoura, esfregando-a para frente e para trás em seu corpo. Porém, de vez em quando, ela se cutucava com o cabo de madeira no que os pesquisadores inicialmente presumiram ser erros.

“Pensamos no início que talvez Veronika não estivesse sendo cuidadosa o suficiente ao escolher qual extremidade usar contra seu corpo”, disse Osuna-Mascaró. Mas com o tempo, os cientistas começaram a reconhecer um padrão.

Quando Veronika coçava a pele grossa e resistente ao longo de suas costas, ela tendia a usar a extremidade com cerdas da vassoura. Mas, quando mirava sua parte inferior, como o úbere ou as dobras da barriga, tendia a usar o cabo de madeira da vassoura para cutucar e empurrar suavemente a pele mais macia e sensível.

“Ela estava usando uma abordagem muito mais cuidadosa”, disse Osuna-Mascaró. “Não era um erro. Era um uso significativo da extremidade do cabo da ferramenta.”

Parece ser um caso claro de uso de ferramentas por animais, na avaliação de Christian Nawroth, que estuda cognição de animais de fazenda no Instituto de Pesquisa para Biologia de Animais de Fazenda na Alemanha. “Parece muito convincente”, afirmou ele, que não esteve envolvido na pesquisa.

Nawroth disse que espera que o estudo, que faz parte de um pequeno, mas crescente, corpo de literatura sobre cognição de animais de fazenda, possa levar as pessoas a refletirem sobre suas percepções dos animais de fazenda.

“Sabemos que eles têm emoções, que possuem comportamentos sofisticados de resolução de problemas”, disse ele. “[Mas] aparentemente ainda existe essa grande discrepância entre o que esperamos que esses animais possam fazer e o que eles realmente fazem.”

Embora a vida de Veronika tenha sido um tanto incomum, houve relatos anedóticos de outras vacas com habilidades semelhantes, e Osuna-Mascaró encontrou vídeos online de outras vacas e touros aparentemente usando galhos para se coçarem. Alguns desses aparentes usuários de ferramentas eram touros Brahman, membros de uma espécie diferente de gado que se originou na Ásia e divergiu do gado europeu há meio milhão de anos. Isso sugere que a capacidade de usar ferramentas “é algo que está enraizado na natureza desses animais”, disse Osuna-Mascaró.

“Não temos observado esses animais com a devida atenção”, acrescentou Auersperg, destacando que os humanos vivem próximos às vacas há milhares de anos. “Talvez o absurdo não seja a ideia de uma vaca usando ferramentas, mas sim o absurdo de nunca considerarmos que uma vaca possa ser inteligente.”

Autor: Folha

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