Vamos ser claros: a principal razão para ser vacinado contra o herpes-zóster é que duas doses fornecem 90% de proteção contra uma doença que pode causar dor nervosa persistente, bolhas no corpo e outras consequências desagradáveis a longo prazo.
A razão mais importante para os adultos mais velhos serem vacinados contra a infecção respiratória por VSR (vírus sincicial respiratório) é que o risco de serem hospitalizados com ela diminui em quase 70% no ano em que recebem a vacina, e em quase 60% ao longo de dois anos.
E o principal motivo para arregaçar a manga para uma vacina anual contra a gripe é que, quando as pessoas são infectadas, ela também reduz a gravidade da doença, embora sua eficácia varie de acordo com o quão bem os cientistas previram qual cepa de influenza aparecerá.
Mas outras razões para os idosos serem vacinados também estão surgindo. Elas são conhecidas, no jargão médico, como benefícios “fora do alvo”, o que significa que as vacinas fazem coisas boas além de prevenir as doenças para as quais foram projetadas.
A lista de benefícios “fora do alvo” está se ampliando à medida que “a pesquisa se acumulou e acelerou nos últimos 10 anos”, diz William Schaffner, especialista em doenças infecciosas do Centro Médico da Universidade Vanderbilt.
Algumas dessas proteções foram estabelecidas por anos de dados; outras são objetos de pesquisas mais recentes, e o benefício ainda não está tão claro. A vacina contra o VSR, por exemplo, só se tornou disponível em 2023.
Ainda assim, os resultados “são realmente muito consistentes”, afirma Stefania Maggi, geriatra e pesquisadora sênior do Instituto de Neurociência do Conselho Nacional de Pesquisa em Pádua, Itália.
Ela é a autora principal de uma recente meta-análise, publicada na revista britânica Age and Ageing, que encontrou riscos reduzidos de demência após a vacinação para uma série de doenças. Dados esses “efeitos subsequentes”, ela diz, as vacinas “são ferramentas-chave para promover o envelhecimento saudável e prevenir o declínio físico e cognitivo”.
No entanto, muitos adultos mais velhos, cujos sistemas imunológicos enfraquecidos e altas taxas de doenças crônicas os colocam em maior risco de doenças infecciosas, não aproveitaram a vacinação.
Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos relataram em meados de dezembro que cerca de 37% dos adultos mais velhos ainda não haviam recebido a vacina contra a gripe. Apenas 42% já foram vacinados contra o VSR, e menos de um terço recebeu a vacina mais recente contra a Covid-19.
O CDC recomenda a vacina pneumocócica de dose única para adultos com 50 anos ou mais. Uma análise no American Journal of Preventive Medicine, no entanto, estimou que de 2022, quando novas diretrizes foram emitidas, até 2024, apenas cerca de 12% daqueles entre 67 e 74 anos a receberam, e cerca de 8% daqueles com mais de 75 anos.
As evidências mais fortes para benefícios fora do alvo, datando de 25 anos atrás, mostram risco cardiovascular reduzido após vacinas contra a gripe.
Adultos mais velhos saudáveis vacinados contra a gripe têm riscos substancialmente menores de hospitalização por insuficiência cardíaca, bem como por pneumonia e outras infecções respiratórias. A vacinação contra a influenza também foi associada a riscos mais baixos de ataque cardíaco e derrame.
Além disso, muitos desses estudos são anteriores às vacinas contra a gripe mais potentes agora recomendadas para adultos mais velhos.
A vacina contra o VSR, que protege contra outra doença respiratória, poderia ter efeitos cardiovasculares semelhantes? Um recente estudo dinamarquês de grande porte com adultos mais velhos encontrou uma diminuição de quase 10% nas hospitalizações cardiorrespiratórias —envolvendo o coração e os pulmões— entre os vacinados em comparação com um grupo de controle, uma diminuição significativa.
No entanto, taxas reduzidas de hospitalizações cardiovasculares e derrame não alcançaram significância estatística. Isso pode refletir um período de acompanhamento curto ou testes diagnósticos inadequados, alerta Helen Chu, especialista em doenças infecciosas da Universidade de Washington e coautora de um editorial que acompanha o estudo na Jama.
“Não acho que o VSR se comporte de maneira diferente da gripe”, diz Chu. “É apenas muito cedo para ter as informações para o VSR, mas acho que mostrará o mesmo efeito, talvez até mais.”
A vacinação contra outra doença respiratória perigosa, a Covid-19, foi associada a um menor risco de desenvolver Covid longa, com seus efeitos prejudiciais à saúde física e mental.
Provavelmente as descobertas mais provocativas dizem respeito à vacinação contra o herpes-zóster, também conhecido como cobreiro. Pesquisadores fizeram manchetes no ano passado quando documentaram uma associação entre a vacinação contra o herpes-zóster e taxas mais baixas de demência —mesmo com a vacina menos eficaz que desde então foi substituída pela Shingrix, aprovada em 2017.
Em 21 estudos envolvendo mais de 104 milhões de participantes na Europa, Ásia e América do Norte, a vacinação contra o herpes-zóster foi associada a uma redução de 24% no risco de desenvolver demência. A vacinação contra a gripe foi associada a uma redução de 13%. Aqueles vacinados contra infecção pneumocócica tiveram uma redução de 36% no risco de Alzheimer.
A vacina contra tétano, difteria e coqueluche é recomendada para adultos a cada 10 anos, com a vacinação entre adultos mais velhos frequentemente motivada pelo nascimento de um neto, que não pode ser totalmente vacinado por meses. Ela foi associada a uma diminuição de um terço na demência.
Outros pesquisadores estão investigando os efeitos da vacinação contra o herpes-zóster em ataques cardíacos e derrames e da vacinação contra a Covid-19 na sobrevivência ao câncer.
O que causa esses bônus da vacina? A maioria das hipóteses se concentra na inflamação que surge quando o sistema imunológico se mobiliza para combater uma infecção. “Você tem danos ao ambiente circundante” no corpo, “e isso leva tempo para se acalmar”, diz Chu.
Os efeitos da inflamação podem durar muito mais do que a doença inicial. Isso pode permitir que outras infecções se estabeleçam, ou causar ataques cardíacos e derrames quando coágulos se formam em vasos sanguíneos estreitados. “Se você prevenir a infecção, você previne esse outro dano.”



