Numa recente quinta-feira à noite no centro de Washington DC (EUA), respirei fundo e entrei num bar. Juntei-me a umas vinte outras mulheres que circulavam conversando amenidades e pedindo bebidas, à espera da parte mais formal da noite.
Eu estava lá para fazer amigos. Quando me mudei para cá, aos 23 anos, conheci muitas pessoas que estavam na mesma situação. Muitos dos meus colegas estagiários eram novos na cidade e todos nós estávamos prontos para aventuras. Hoje, ainda tenho amigos próximos, mas muitos de nós temos empregos exigentes e filhos pequenos. Alguns se mudaram. É difícil até mesmo agendar uma ligação para colocar o papo em dia.
Sinto falta das amizades fáceis do início dos meus 20 anos. Será que eu conseguiria encontrar isso de novo?
O encontro era organizado pela RealRoots, uma das várias startups que visam nos fazer sentir menos sozinhos. Mesmo antes da pandemia, os americanos já passavam menos tempo com os amigos. Em 2023, o cirurgião-geral dos Estados Unidos alertou que estávamos em uma epidemia de solidão e que os riscos do isolamento à saúde eram semelhantes aos do tabagismo.
A boa notícia é que agora há menos estigma em admitir que você quer fazer amigos, especialmente desde a pandemia, me disse Dorothy Li, CEO e cofundadora da RealRoots.
“Todos nós ficamos solitários juntos por dois anos”, disse ela. Muitos de nós começamos a reconstruir nossas vidas sociais ao mesmo tempo.
Consultei especialistas sobre como fazer novos amigos e me reconectar aos antigos. Aqui está o que aprendi.
Seja vulnerável
Fui ao evento da RealRoots com uma boa dose de ceticismo. Disseram-me que eu seria conectada a um grupo selecionado de mulheres com base nas minhas respostas a um teste de personalidade e a uma entrevista com uma assistente de inteligência artificial chamada Lisa, que detectou minha vibe (centrada, atenciosa e calorosa —obrigada, Lisa).
“Eu entendo perfeitamente”, disse Li quando contei a ela sobre minhas dúvidas. “A conexão humana precisa acontecer na vida real.” Mas o planejamento e a logística de conectar pessoas com interesses semelhantes e encontrar horários em suas agendas? Isso, segundo ela, pode ser feito perfeitamente por IA.
Entre as mulheres no meu encontro, havia uma ex-dançarina profissional de salão, uma enfermeira apaixonada por seu trabalho com pacientes com demência e uma assistente social prestes a viajar para o Sudão.
Todas tinham motivos diferentes para estar ali. Uma trabalhava em casa e se sentia isolada, principalmente desde que engravidou. Outra queria sair da sua zona de conforto e conhecer novas pessoas. Uma terceira disse que tinha ansiedade social e sentiu que isso aliviou a pressão.
Depois de interagirmos, as moderadoras nos conduziram por uma série de perguntas, que começaram como quebra-gelos corporativos (quais são seus hobbies?), mas foram ficando progressivamente mais pessoais (em que você é boa?), culminando na última pergunta: com o que você está tendo dificuldades agora?
Busquei em minha mente algo que não fosse muito revelador. Afinal, eram estranhas. Mas então alguém falou sobre seus problemas de fertilidade. Outra estava passando por um divórcio difícil. Silenciosamente, reavaliei a situação.
Quando chegou a minha vez, não senti mais necessidade de me conter. Falei sobre minhas inseguranças como mãe. Senti que ia começar a chorar enquanto explicava meus medos sobre como minha ansiedade afetaria minha filha. Recebi muita empatia.
Quando contei a Li que me sentia próxima de todas as mulheres no final da noite, ela me disse que esse era o objetivo. “Quando você começa a falar sobre as coisas que realmente estão em sua mente, todos conseguem se identificar”, disse ela.
A vulnerabilidade gera vulnerabilidade. Essa regra também se aplica ao tentar aprofundar amizades.
O jornalista Billy Baker, depois de se casar, ter filhos e se mudar para o subúrbio, percebeu que muitos de seus amigos do ensino médio e da faculdade não podiam mais fazer parte de sua vida diária. Ele decidiu construir uma comunidade onde morava, e o primeiro passo foi entrar em contato com as pessoas com quem sentia uma conexão e dizer isso a elas. Foi intencional e um pouco assustador, mas valeu a pena, disse ele, que é autor do livro “We Need to Hang Out: A Memoir of Making Friends” (Precisamos Sair: Memórias de Fazer Amigos).
Faça coisas que você já quer fazer
Quando Baker estava escrevendo seu livro, ele tentava descobrir exatamente o que nos atrai em outras pessoas. Descobriu que um interesse ou atividade em comum funcionava particularmente bem como um primeiro passo. Por exemplo, ele frequentemente encontrava um cara na academia, então começou a convidá-lo para se encontrarem lá para malhar juntos.
Baker afirma que se você escolher algo que já quer fazer, provavelmente encontrará pessoas com interesses em comum e, mesmo que não encontre, ainda assim se divertirá.
Coloque a amizade na sua lista de tarefas
Baker aprendeu que não podia simplesmente presumir que as amizades aconteceriam sozinhas.
Para ele, essa jornada começou quando seu editor lhe pediu para escrever sobre como muitos homens deixam as amizades de lado na meia-idade. Embora Baker sempre tenha sido sociável, ele percebeu que vinha priorizando seu trabalho e família, negligenciando o tempo dedicado aos amigos.
A solução foi se inspirar em um grupo de homens de sua cidade com uma tradição chamada noites de quarta-feira –uma promessa semanal de se encontrarem.
Baker criou sua própria versão e disse que foi estranho no início. Mas em algum momento conexões genuínas se formaram. Ao final da minha conversa, o escritor me lançou um desafio: havia alguém de quem eu gostaria de me aproximar?
Pensei em uma colega com quem tenho uma amizade casual há alguns anos. Eu sempre adorava encontrá-la nos corredores ou em festas, mas nunca tínhamos ficado juntas a sós. Baker me incentivou a convidá-la para sair.
Senti um medo familiar e crescente ao entrar em contato com ela –e se ela estivesse muito ocupada ou não sentisse a mesma vibe de amizade que eu? E se nos encontrássemos e não tivéssemos nada para conversar?
Convidei minha colega para almoçar. Conversamos por duas horas que pareceram 20 minutos. Nos conectamos falando sobre livros, nossos filhos e a surpreendente quantidade de coisas que tínhamos em comum, e realmente parece o início de uma amizade. Fui recompensada pela vulnerabilidade.
Se você está pensando em dar o primeiro passo, simplesmente faça. As chances estão a seu favor.





